A primeira semana após o encerramento do ciclo eleitoral no Brasil impôs uma forte correção às duas gigantes de infraestrutura de Minas Gerais na Bolsa de Valores. As ações da Cemig e da Copasa não apenas apagaram a valorização acumulada no período de campanha, como passaram a negociar em um patamar inferior aos preços registrados na véspera do primeiro turno (2 de outubro).
No pregão intradiário desta sexta-feira (30), os papéis da Copasa (CSMG3) orbitavam a faixa de R$ 48,30. O número sela uma retração para o ativo que mais surfou na expectativa do mercado financeiro.
Entre o primeiro e o segundo turno, a ação havia saltado quase 15%, saindo de R$ 56,25 para R$ 64,58 (cotação de 23 de outubro). Após o fechamento das urnas na segunda etapa da eleição, o movimento inverteu. A ação despencou 23,74% em um único dia e, desde então, acumula perdas próximas a 25,2%. O valor atual representa um recuo de 14,1% ante a cotação que antecedeu o primeiro turno.
A desidratação derrubou a empresa de saneamento abaixo de uma marca simbólica: o preço da própria privatização. Em junho de 2026, o Governo de Minas vendeu seu controle na companhia por R$ 49,03 a ação em uma oferta pública. O ativo, que chegou a operar com um prêmio de 31,7% sobre a oferta durante o rali de outubro, agora vale 1,5% a menos que no balcão de vendas original.
Cemig encolhe e sente o ‘risco estatal’
A Cemig apresentou uma volatilidade menor, mas o saldo aponta para o mesmo abismo. As ações preferenciais (CMIG4) entraram no período eleitoral cotadas a R$ 11,41 (2 de outubro). No intervalo entre turnos, chegaram a superar R$ 12, recuando para R$ 11,67 na véspera do embate final. Na sexta-feira, os papéis escorregaram para perto de R$ 10,01. O preço coloca a elétrica 14,2% abaixo da marca do segundo turno e 12,3% inferior ao fechamento anterior à primeira rodada de votação.
O tombo massivo expõe a diferença estrutural das duas operações. A Copasa já tem sua gestão controlada pela iniciativa privada (Equatorial e Perfin) e é imune a mudanças no secretariado do Palácio Tiradentes. A Cemig, por outro lado, continua sendo estatal e carrega as incertezas normais de transição de gestão. Contudo, o fato de a Copasa ter apresentado um encolhimento percentual muito mais agressivo prova que a desidratação da B3 vai além do risco político regional de Minas Gerais.
A pressão estrutural da taxa de juros
A sangria nos ativos mineiros integra a reprecificação enfrentada por todo o mercado acionário brasileiro. Com a derrota da aposta do mercado nas urnas, grandes fundos institucionais desmontaram suas posições e o Ibovespa caiu quase 14% apenas na segunda-feira pós-eleição.
O golpe mais pesado sobre empresas como Cemig e Copasa reside na chamada “curva futura de juros”. O mercado projetou cenários de maior risco fiscal no médio prazo e elevou imediatamente a estimativa de juros reais. O Bradesco BBI, que mantém as recomendações para ambas as empresas (compra para Copasa a R$ 78 e neutra para Cemig a R$ 13), elevou a projeção de juros reais de longo prazo de 6,5% para 8%. Como utilities de energia e água possuem contratos de longo prazo, a alta do custo de capital desvaloriza automaticamente o peso dos lucros futuros quando trazidos a valor presente na Bolsa, forçando a queda técnica das ações.
A fotografia da semana não indica, portanto, uma falha na entrega de energia da Cemig ou nas redes de água da Copasa, mas o novo preço que os investidores aceitam pagar por essas operações diante do encarecimento do dinheiro no país.


