A privatização da Copasa saiu do campo político e virou uma tese de Bolsa. Depois da entrada da Equatorial como acionista de referência, bancos e corretoras passaram a recalcular o valor da companhia mineira de saneamento, agora sob a expectativa de mais eficiência, crescimento de resultados e dividendos. O Citi elevou o preço-alvo da ação de R$ 55 para R$ 79. A XP foi além e colocou alvo de R$ 88,30 para o fim de 2027.
A leitura é positiva para o mercado, mas tem uma trava bem mineira: a Copasa ainda depende das cidades. A companhia precisa renovar e ampliar contratos municipais, executar obras de água e esgoto, lidar com tarifas, manter programas sociais e convencer prefeituras e consumidores de que a nova fase não será boa apenas para acionistas.
Essa é a pergunta que passa a guiar a empresa depois da privatização: a Copasa conseguirá agradar, ao mesmo tempo, investidores, prefeitos e moradores?
Por que os bancos ficaram mais otimistas com a Copasa?
A nova rodada de preços-alvo tem relação direta com a privatização. A Equatorial ficou com 30% da Copasa após o follow-on precificado a R$ 49,03 por ação, em uma operação de aproximadamente R$ 5,5 bilhões. O acordo também prevê travas de permanência: a investidora estratégica não poderá vender as ações por quatro anos e deverá manter ao menos metade da posição até 2033 ou até o cumprimento das metas de universalização.
Para o mercado, a chegada da Equatorial muda a régua de cobrança. O grupo ganhou reputação nos últimos anos por recuperar distribuidoras de energia problemáticas e por entrar na Sabesp, em São Paulo. Agora, tenta aplicar parte dessa lógica em saneamento em Minas: corte de desperdícios, melhora operacional, disciplina de capital, digitalização, redução de inadimplência e execução de obras.
O Citi citou mudanças relevantes em seu modelo para a Copasa: reavaliação da base de ativos regulatória, inclusão de novas conexões de esgoto, extensão das concessões e novo mecanismo de compartilhamento dos ganhos de eficiência operacional. A casa também tratou a entrada da Equatorial como fator positivo para acelerar a transformação da companhia.
A XP apresentou uma tese ainda mais direta: valuation atrativo, crescimento de resultados e dividendos saudáveis. A corretora projeta crescimento anual composto de 26% no lucro por ação entre 2026 e 2030 e dividend yield médio perto de 13% no período. Mesmo após forte valorização desde outubro de 2025, a casa ainda vê espaço para alta.
Para o investidor, é uma narrativa fácil de entender. Uma estatal privatizada, com nova referência operacional, em um setor regulado, com demanda essencial e possibilidade de ganhos de eficiência. Mas saneamento não é apenas planilha. A água chega na torneira de municípios pequenos, bairros periféricos, áreas rurais, cidades turísticas, distritos distantes e regiões onde a conta não fecha tão bem quanto em Belo Horizonte.
O risco está nos contratos com municípios
A Copasa atende centenas de municípios em Minas. Antes mesmo da privatização, a companhia abriu uma agenda de reuniões com prefeitos para discutir investimentos, segurança jurídica e os caminhos para cumprir o Novo Marco Legal do Saneamento. A meta era dialogar com representantes dos 636 municípios atendidos e alinhar contratos, obras e universalização até 2033.
Esse ponto é decisivo porque os municípios são os titulares do serviço. Na prática, a Copasa opera onde há contrato e dentro das áreas pactuadas. Em algumas cidades, o contrato cobre apenas a sede urbana, deixando distritos e áreas rurais fora do escopo. Foi esse tipo de problema que apareceu em debate na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sobre o Universaliza Minas, programa voltado a ampliar saneamento em localidades menores.
O Novo Marco do Saneamento estabelece metas nacionais duras: até 2033, 99% da população deve ter acesso a água potável e 90% deve contar com coleta e tratamento de esgoto. Para uma empresa como a Copasa, isso significa ampliar rede, tratar esgoto, reduzir perdas, investir em áreas de baixa densidade e negociar com prefeituras que têm realidades fiscais e políticas muito diferentes.
É por isso que o risco não está apenas na tarifa. Está na costura política e contratual. Se os municípios aderirem à extensão dos contratos em condições previsíveis, a tese dos bancos ganha força. Se houver resistência, disputa local, judicialização ou pressão contra reajustes, a execução fica mais difícil.
O Citi, por exemplo, passou a considerar em sua tese que todos os municípios vão optar por estender contratos até 2073, seguindo modelo semelhante ao acordo firmado com Belo Horizonte. Essa hipótese ajuda a sustentar o valor projetado para a ação, mas também mostra onde a tese pode falhar: ela depende de negociação ampla com as cidades.


