A Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou nesta sexta-feira, 3 de julho, uma audiência pública para discutir as condições de trabalho na Copasa após a privatização da companhia. A pauta inclui escalas, transferências e a situação de cerca de 3 mil empregados que, segundo a Comissão do Trabalho da ALMG, podem ser deslocados para diferentes unidades da empresa no estado.
A audiência marca a primeira grande pressão pública sobre a nova Copasa. Menos de um mês depois da venda, a tensão não vem dos investidores, mas dos trabalhadores.
Como ficou o controle da Copasa após a venda
A privatização da Copasa foi formalizada em 16 de junho na B3. A Equatorial passou a ser a maior acionista individual, com 30% do capital. O Governo de Minas, que antes controlava a companhia, ficou com pouco mais de 5% das ações e manteve uma golden share, ação especial que dá poder de veto em decisões estratégicas, como mudança de nome e sede da empresa.
Com o novo desenho acionário, a Copasa passou a responder a dois públicos ao mesmo tempo. Para o mercado financeiro, a privatização é uma tese de eficiência e dividendos. Para empregados, sindicatos, municípios e consumidores, a mudança levanta dúvidas sobre escala de trabalho, transferências, atendimento e tarifa.
O que os trabalhadores cobram
A Comissão do Trabalho da ALMG quer ouvir sindicatos, representantes da empresa e autoridades sobre as transferências de pessoal e possíveis mudanças nas condições de trabalho. O deputado Betão, presidente da comissão, afirmou que a medida foi anunciada sem transparência e sem critérios claros. A comissão cobra a suspensão das transferências e a apresentação dos fundamentos que embasaram a decisão.
Entre os empregados, o temor é que a busca por eficiência venha acompanhada de deslocamentos, pressão sobre escalas e perda de conhecimento técnico acumulado nas unidades regionais.
A Copasa opera um serviço essencial. Água e esgoto dependem de equipes de campo, operação de estações, atendimento emergencial e resposta rápida a vazamentos e falta d’água. Transferir milhares de trabalhadores dentro de um estado do tamanho de Minas afeta rotina, custo de deslocamento e continuidade operacional.
O que o mercado espera da nova Copasa
Do lado dos investidores, a leitura é diferente. A ação CSMG3 subiu forte nos últimos meses e operava perto de R$ 62 no início de julho, após a conclusão da venda.
A CEO Marília Carvalho de Melo afirmou ao Seu Dinheiro que o rali refletiu a expectativa pela desestatização, mas que os ganhos mais relevantes dependem da execução da nova fase. Ela aponta três frentes: redução de perdas de água, reorganização da estrutura de pessoal e mais agilidade com fornecedores.
Essas frentes explicam o interesse do mercado. A Genial manteve a Copasa em sua carteira de dividendos de julho, com peso de 20%. O BTG Pactual projeta dividend yield médio de 7,6% entre 2026 e 2028, com chance de dois dígitos a partir de 2029 se os ganhos de eficiência se confirmarem.
O ponto de tensão está justamente aí. A reorganização de pessoal que o mercado vê como eficiência é a mesma que os trabalhadores enxergam como risco.
Municípios também entram na conta
A Copasa privatizada precisa convencer não só empregados e investidores, mas também as prefeituras. A companhia tem concessões de água em centenas de municípios mineiros, mas presta serviço de esgoto em uma parcela menor deles.
Os contratos municipais precisam ser convertidos ao novo modelo após a privatização. Até setembro, a empresa precisa avançar na adesão das cidades. Segundo o Seu Dinheiro, 22 municípios já haviam renovado contratos, representando cerca de 30% da receita da companhia.
Para prefeitos, o saneamento afeta saúde pública, obras, tarifa e meio ambiente. A empresa também tem metas de universalização a cumprir até 2033, o que torna a relação com os municípios decisiva para o próprio plano de crescimento.
A empresa agradou investidores ao entrar em carteiras de dividendos e prometer ganhos operacionais. Agora terá de mostrar que eficiência não significa apenas corte de custo. Em saneamento, economia mal calculada pode reaparecer depois na estação de tratamento, no atendimento ou na demora para resolver um problema na rua.
O equilíbrio entre retorno para o acionista, obras para os municípios e estabilidade para os trabalhadores será testado ao longo dos próximos anos. A privatização saiu do plenário, passou pela Bolsa e agora começa a encontrar a realidade da operação.





