O Banco Inter alcançou o maior lucro trimestral de sua história, mas um número específico escondido nos indicadores de crédito revela onde estará a principal prova de fogo da instituição mineira nos próximos meses. A empresa de Belo Horizonte, fechou o segundo trimestre de 2026 com um lucro líquido de R$ 421 milhões. O montante representa um salto de 34% em relação ao mesmo período do ano anterior (R$ 315 milhões).
A receita líquida cresceu 32% (chegando a R$ 2,6 bilhões) e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) atingiu confortáveis 16,3%. Este é o 13º trimestre consecutivo de crescimento de lucro do banco, consolidando-o como um dos cases de expansão mais consistentes entre as instituições digitais do país.
O balanço, no entanto, trouxe um revés na linha de risco: a inadimplência acima de 90 dias subiu de 5,1% (no 1T26) para 5,3% no segundo trimestre. Há um ano, estava em 4,6%. Um único produto financeiro responde por quase toda essa deterioração.
Consignado privado explica cerca de 76% da piora
O grande vilão da inadimplência atende pelo nome de consignado privado. A carteira dessa modalidade quadruplicou de tamanho em apenas 12 meses, saltando de R$ 700 milhões para expressivos R$ 2,8 bilhões.
- Segundo o próprio Inter, essa linha de crédito foi responsável por 53 pontos-base do aumento anual da inadimplência.
- Como a alta total do indicador foi de 70 pontos-base, o consignado privado explica, sozinho, cerca de 76% da deterioração do banco.
- A carteira total de crédito da instituição avançou 29% em um ano, batendo em R$ 51,9 bilhões (ou R$ 55,4 bilhões na carteira expandida). O dado prova que o crescimento do banco e o risco de calote estão vindo do mesmo lugar.
Inadimplência do consignado bate os dois dígitos
A situação fica mais nítida quando a modalidade é isolada. O CFO do Inter, Santiago Stel, admitiu que a inadimplência do consignado privado superou a marca dos 10%. Para efeito de comparação, o consignado público opera na faixa de 4%.
O problema não está necessariamente em clientes que deram calote definitivo. O consignado privado depende do vínculo empregatício para o desconto automático da parcela em folha. Quando o cliente muda de emprego, é preciso “plugar” o contrato novamente à nova empresa. É nesse “limbo” de transição que surgem os atrasos.
O Inter reconhece que os sistemas de cobrança dessa modalidade ainda estão amadurecendo e promete preparar um seguro específico para amortecer esse risco de perda de vínculo.
O “efeito contábil”: a piora real não foi de 5,3%
Apesar da alta, a leitura não deve ser totalmente pessimista. Dos 5,3% de inadimplência registrados no trimestre, cerca de 0,3 ponto percentual é fruto de uma mudança não recorrente na política de baixa de créditos de cartão (o write-off).
Sem essa alteração estritamente contábil, analistas de mercado calculam que a inadimplência real teria ficado próxima de 5% — ou seja, abaixo dos 5,1% registrados no começo do ano.
Ainda assim, há outros dois indicadores pedindo cautela:
- O custo de risco avançou de 5,6% para 5,9% no trimestre.
- O índice de cobertura caiu de 137% para 134% (terceira queda consecutiva).
- As provisões para perdas chegaram a R$ 860 milhões (+51% em um ano).
Por que o Inter continua acelerando o crédito?
A resposta é simples: o risco adicional está gerando muito dinheiro. O consignado privado, com seus 629 mil clientes, possui um ROE marginal estimado em mais de 30% para o banco. O mesmo vale para o cartão de crédito: o Inter aumentou propositalmente a base de clientes que parcelam compras e usam o rotativo (produtos altamente rentáveis). Como resultado, a receita de juros da carteira de cartões disparou 64% em um ano.
Essa injeção de rentabilidade fez a margem financeira (NIM) do Inter superar os 10% pela primeira vez, derrubando o índice de eficiência para o nível recorde de 42,1%. O funding (captação de recursos) continua sendo o trunfo da casa, fechando junho com R$ 77 bilhões (+24%), custando apenas 66% do CDI. A base atingiu 26,4 milhões de clientes ativos.
O balanço do 2T26 revela um Inter que vive sua melhor fase financeira, expandindo a crédito a quase 30% ao ano, mas que se apoia em produtos mais rentáveis e, por consequência, mais arriscados. O teste para o próximo trimestre será provar que a instituição consegue domar o calote do consignado privado sem precisar desligar o principal motor do seu lucro.


