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Ações de Inter e MRV despencam: Oportunidade de ouro ou armadilha para o investidor?

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O mercado financeiro não perdoa dúvidas de execução, mesmo quando se trata de companhias gigantes. Nas últimas semanas, os investidores viram as ações de duas das principais empresas ligadas ao empresário mineiro Rubens Menin entrarem em uma espiral de forte correção. O Banco Inter (INBR32) chegou a recuar perto de 27% no mês, enquanto a construtora MRV (MRVE3) amargou uma queda na casa dos 18%.

A ligação entre as duas potências vai muito além do símbolo. Menin é o fundador e presidente do conselho tanto da Inter&Co quanto da MRV Engenharia. No entanto, o derretimento simultâneo dos papéis não tem a mesma raiz. Enquanto o Inter sofre questionamentos sobre a qualidade de sua esteira de crédito, a construtora lida com a pressão de sua operação nos Estados Unidos e a queima de caixa no Brasil.

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Para o investidor pessoa física, a pergunta que ecoa nos fóruns e corretoras é direta: esse recuo agressivo abriu uma oportunidade de compra descontada ou os balanços anteciparam problemas estruturais mais profundos?

O paradoxo do Banco Inter: Lucro recorde vs. Risco de crédito

À primeira vista, a punição do mercado às ações do Banco Inter parece um erro de cálculo. O balanço divulgado pela Inter&Co no primeiro trimestre de 2026 mostrou números robustos: um lucro líquido de R$ 395 milhões, um ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido) de 15,5% e uma carteira de crédito que atingiu a impressionante marca de R$ 50 bilhões. Além disso, a base chegou a 44 milhões de clientes, com uma taxa de engajamento invejável, onde quase 60% dessa base é considerada ativa.

Então, por que a ação caiu mais de 20%? A resposta está nas “letras miúdas” do risco de inadimplência.

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A matemática que assustou a Faria Lima

Segundo relatório da XP Investimentos, o resultado foi considerado “levemente negativo”. O motivo é que a qualidade do crédito do banco digital piorou. O indicador de inadimplência (NPL) acima de 90 dias subiu para 5,1%, e o custo de risco bateu 5,6%.

Divulgação

Bancos digitais são precificados com múltiplos altos porque prometem expansão rápida com custos baixos e calotes controlados. Quando a carteira de crédito acelera, mas a inadimplência acompanha essa subida, o mercado recalcula a rota, temendo que o banco precise separar muito dinheiro no futuro para cobrir esses calotes (as chamadas provisões).

Um levantamento financeiro do JPMorgan, repercutido pelo portal InfoMoney, mostrou que a instituição norte-americana cortou suas projeções de lucro para o Inter em 2026 e 2027, embora tenha classificado a venda massiva das ações como exagerada.

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A luz no fim do túnel: Alavancagem operacional

Apesar da correção dura, a tese do Inter está longe de estar quebrada. O banco provou que possui algo raro entre as fintechs: alavancagem operacional. O índice de eficiência caiu para 43,8%, o que significa que as receitas da companhia estão crescendo em uma velocidade muito maior do que as suas despesas. Se o Inter conseguir domar a inadimplência de curto prazo e monetizar seu “Super App” (que une conta, seguros, investimentos e marketplace), a rentabilidade futura tende a explodir.

MRV: O motor brasileiro e a “dor de cabeça” americana

O diagnóstico da construtora MRV exige separar a companhia em duas realidades completamente distintas: o Brasil e os Estados Unidos.

No consolidado global, a MRV&CO reportou um prejuízo líquido de R$ 77,6 milhões no 1T26. Embora represente uma melhora de 78% em relação às perdas do mesmo período do ano anterior, a cifra vermelha no balanço sempre afasta investidores mais conservadores.

A força do Minha Casa, Minha Vida

O lado positivo e sustentável da MRV está no solo brasileiro. A MRV Incorporação entregou um desempenho extremamente forte. O lucro ajustado da operação nacional foi de R$ 132,8 milhões (um salto de 7,4 vezes na comparação anual). O preço médio dos imóveis vendidos subiu para R$ 270 mil, garantindo uma margem bruta saudável de 31%.

Foto: Divulgação

A empresa se beneficia diretamente do déficit habitacional brasileiro e das políticas públicas do Minha Casa, Minha Vida, o que reduz drasticamente o risco de demanda, mesmo em um cenário econômico adverso.

Resia, queima de caixa e a Selic a 14,5%

O que derrubou a ação da MRV foi o peso da subsidiária americana, a Resia. O braço internacional registrou um prejuízo líquido de R$ 94 milhões no trimestre. Somado a isso, dados do portal Seu Dinheiro apontam que a operação brasileira sofreu uma queima de caixa de R$ 21 milhões, frustrando o mercado que esperava uma geração positiva de R$ 100 milhões — impacto justificado pela sazonalidade e pela concentração de vendas no final do trimestre.

Há também o fator macroeconômico. Conforme dados do Copom divulgados pela Agência Brasil, a Selic foi reduzida, mas permanece em um patamar altamente restritivo de 14,5% ao ano. Juros nesse nível encarecem o capital, asfixiam as margens das construtoras e fazem com que grandes investidores prefiram a segurança da Renda Fixa em vez do risco da Renda Variável.

A saída para a construtora passa diretamente pela venda de ativos nos EUA. Segundo o InfoMoney, a Resia possui um plano de desinvestimento de US$ 800 milhões, dos quais mais de US$ 240 milhões já foram alienados para reforçar o caixa do grupo.

O veredito do mercado: Comprar ou esperar?

A queda agressiva dos papéis de Inter e MRV reflete uma transição no humor do mercado. Os investidores deixaram de comprar “promessas de crescimento” e passaram a exigir “execução impecável”.

Para quem tem estômago para a volatilidade, as ações de fato atingiram múltiplos mais atrativos e descontados. O Inter é uma potência digital com custo de captação competitivo, e a MRV é a líder absoluta na baixa renda com uma operação doméstica em franca recuperação (como apontado em relatórios do Bradesco BBI e do Money Times).

No entanto, para os perfis mais conservadores, a paciência é a melhor estratégia. A janela de oportunidade existe, mas exigirá confirmação nos próximos trimestres: o Inter precisa provar que sabe emprestar sem levar calote, e a MRV precisa estancar o sangramento de sua aventura americana para voltar a gerar caixa de forma recorrente.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.

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