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Vale mira outro país do BRICS para reduzir dependência da China

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A Vale vê a Índia como um dos principais mercados futuros para o minério de ferro brasileiro. A avaliação foi apresentada em Belo Horizonte, durante o Mining Innovation Summit 2026, e reforça uma mudança de foco no setor mineral: a China segue central para a demanda global, mas a Índia começa a aparecer como a próxima fronteira de crescimento.

O vice-presidente executivo técnico da Vale, Rafael Bittar, afirmou no evento que países emergentes devem consumir mais minério nos próximos anos e que o produto de alto teor pode ganhar espaço em meio ao processo de descarbonização da siderurgia. Segundo ele, o minério, apesar de menos comentado diante da corrida por minerais críticos, continua estratégico para a companhia.

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O movimento interessa diretamente a Minas Gerais. O estado abriga parte importante da produção brasileira de minério e concentra empresas, fornecedores, cidades mineradoras, ferrovias, terminais logísticos e cadeias industriais ligadas ao aço.

Índia começa a aparecer na pauta do minério

A China continua sendo o maior destino do minério brasileiro. Em 2025, o país respondeu por 59% das exportações nacionais do produto, segundo dados compilados pela Fazcomex com base no comércio exterior brasileiro.

A Índia ainda está distante desse patamar. Mesmo assim, os números recentes mostram avanço. As exportações brasileiras de minério de ferro para o país asiático chegaram a US$ 441,9 milhões em 2025, recorde na série histórica da plataforma Comex Stat, iniciada em 1997. Os embarques de Minas para esse destino somaram US$ 82,9 milhões, o terceiro maior resultado da história.

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O dado não indica substituição imediata da China. Indica diversificação. Para uma commodity tão dependente do ciclo asiático, abrir espaço em um segundo grande mercado pode reduzir riscos de concentração no longo prazo.

Minério de alto teor ganha importância

A aposta da Vale também passa pela qualidade do minério. A descarbonização da indústria do aço deve ocorrer em velocidades diferentes pelo mundo, mas tende a aumentar a procura por insumos de maior teor e menor nível de impurezas.

Na prática, minérios de melhor qualidade podem ajudar siderúrgicas a reduzir consumo de energia, melhorar eficiência dos altos-fornos e preparar a transição para processos com menor emissão. Isso não elimina o uso de carvão no curto prazo, mas cria prêmio para fornecedores capazes de entregar material mais adequado a plantas modernas.

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Minas entra nessa conta porque parte relevante de sua produção está associada ao minério de ferro de alta qualidade. Esse perfil pode ser vantagem comercial se Índia, Oriente Médio, Europa e outros mercados ampliarem exigências ambientais e técnicas.

Vale já se movimenta no país asiático

Ricardo Teles – Reprodução Vale

A relação da mineradora com a Índia avançou no início de 2026. Em fevereiro, a companhia assinou um memorando de entendimento com a estatal indiana NMDC e a Adani Gangavaram Port para estudar cooperação no Porto de Gangavaram, na costa leste indiana.

O objetivo é desenvolver uma instalação para mistura e venda de finos de minério. Pelo desenho divulgado, a Vale forneceria minério de alto teor, a NMDC entraria com minério de menor teor e a Adani ficaria responsável pela infraestrutura portuária, operações e licenças.

Esse tipo de arranjo permite adaptar o produto ao perfil das siderúrgicas locais. Em vez de vender apenas minério bruto, a mineradora tenta participar de uma cadeia mais próxima do cliente final.

Impacto pode chegar a Minas por logística e indústria

Se a demanda indiana crescer, o efeito em Minas pode aparecer em várias frentes. A primeira é a produção mineral. Empresas com operações no estado podem direcionar parte maior de seus volumes para mercados asiáticos além da China.

A segunda é a logística. Minério produzido em Minas depende de ferrovias, pátios, portos e contratos de transporte. Qualquer mudança relevante no destino das exportações afeta planejamento de embarques, terminais e estratégias comerciais.

A terceira é a cadeia industrial. Usiminas, Itaminas, Anglo American e fornecedores de equipamentos e serviços acompanham o mesmo ambiente. O avanço da Índia pode influenciar preços, prêmios por qualidade, demanda por tecnologia e decisões de investimento em beneficiamento.

Não se trata de efeito imediato no emprego ou no preço local. Trata-se de uma mudança gradual no mapa de compradores, com potencial de alterar estratégias de longo prazo.

China continua relevante, mas com dúvidas

A China não deixou de ser o centro do mercado. A construção civil, a infraestrutura e a indústria chinesa ainda influenciam diretamente o preço internacional do minério.

O ponto é que o crescimento chinês não tem a mesma previsibilidade de ciclos anteriores. A maturidade da economia, o ajuste no setor imobiliário e a tentativa de reduzir emissões criam dúvidas sobre a trajetória de longo prazo da demanda.

A Índia aparece no outro extremo. Tem população grande, urbanização em andamento, necessidade de infraestrutura e plano de ampliar capacidade industrial. Esses fatores ajudam a explicar por que mineradoras passaram a observar o país com mais atenção.

Mining Summit colocou BH no centro da discussão

O debate foi feito no Mining Innovation Summit, realizado na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. O evento reuniu empresas, executivos, especialistas, investidores e representantes do ecossistema mineral para discutir inovação, capital, sustentabilidade e competitividade no setor.

A presença do tema em BH tem simbolismo econômico. Minas não é apenas local de extração. É também centro de decisão, debate regulatório, formação técnica e fornecedores da mineração brasileira.

Quando uma empresa do porte da Vale aponta a Índia como mercado futuro, o assunto passa a interessar a municípios mineradores, governos, empresas de logística e indústria de base.

Diversificação é o ponto central

O avanço indiano não elimina a dependência chinesa no curto prazo. Mas amplia o horizonte de compradores para um produto que segue essencial à economia mineira.

Para a Vale, a estratégia combina minério de alto teor, acordos comerciais, presença logística e adaptação ao cliente. Para Minas, o desafio é transformar essa nova demanda em investimento, empregos qualificados, tecnologia, arrecadação e menor vulnerabilidade a um único mercado.

A Índia ainda não é a nova China do minério. Mas já entrou no radar como destino que pode crescer. E, para um estado tão ligado à mineração, essa mudança de rota pode influenciar decisões que vão muito além das exportações de uma única empresa.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP, é apaixonada por contar histórias e conhecer pessoas. Tem ampla experiência em jornalismo esportivo e passou pelo setor público e em assessoria de imprensa.

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