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Oncoclínicas perde 55 mil procedimentos e tem prejuízo milionário, mas ações disparam na Bolsa

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A Oncoclínicas apresentou na última sexta-feira (14) os resultados referentes ao segundo trimestre de 2026. A primeira leitura dos números sugere um cenário desafiador para a empresa, fundada em Belo Horizonte. A companhia reportou uma redução de 55,1 mil procedimentos em um ano, uma retração de 28,5% na receita líquida e um prejuízo ajustado de R$ 275,3 milhões. Apesar dos indicadores negativos, as ações da companhia (ONCO3) registraram uma expressiva alta superior a 15% no pregão de segunda-feira (17).

A reação do mercado financeiro, aparentemente paradoxal, encontra explicação na gestão do fluxo de caixa e não no lucro líquido da operação. O fluxo de caixa operacional gerencial, que no primeiro trimestre apontava um consumo de R$ 153,1 milhões, reverteu para uma geração de R$ 158,4 milhões no segundo trimestre. A variação positiva de aproximadamente R$ 311,5 milhões entre os dois períodos foi o principal fator impulsionador dos papéis.

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É fundamental observar que a Oncoclínicas atribuiu essa melhora no caixa, em grande parte, à renegociação de prazos e condições de pagamento com seu principal fornecedor, além da normalização de recebíveis. A injeção de liquidez derivou mais de uma reestruturação do capital de giro do que de uma recuperação efetiva no volume de atendimentos médicos. O movimento na Bolsa reflete, portanto, a percepção de que o risco de uma crise imediata de liquidez foi atenuado, ainda que a operação continue encolhendo.

Retração significativa no volume de procedimentos

O indicador que mais chamou a atenção no balanço da Oncoclínicas foi a acentuada queda no volume de atendimentos. No segundo trimestre de 2026, a empresa realizou aproximadamente 114 mil procedimentos. No mesmo período de 2025, o número foi de 169,1 mil. A diferença representa 55,1 mil atendimentos a menos, configurando uma redução expressiva de 32,6% em 12 meses.

A direção da companhia relacionou essa retração, de forma considerável, à escassez no fornecimento de medicamentos, problema que se originou no primeiro trimestre do ano. A pressão financeira forçou a empresa a reduzir as compras nas condições habituais, gerando restrições que impactaram a capacidade de realizar tratamentos. Para tentar regularizar o cenário, a Oncoclínicas firmou, durante o segundo trimestre, um acordo de fornecimento no valor de até R$ 150 milhões.

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Os impactos dessa retração refletiram-se diretamente no faturamento. A receita líquida caiu de R$ 1,464 bilhão no segundo trimestre de 2025 para R$ 1,048 bilhão em 2026, uma perda de aproximadamente R$ 417 milhões. O Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado sofreu uma queda drástica de 85,1%, passando de R$ 230,1 milhões para R$ 34,3 milhões. Consequentemente, a margem Ebitda retraiu de 15,7% para 3,3%.

Na comparação sequencial, contudo, nota-se uma evolução. No primeiro trimestre de 2026, o Ebitda ajustado foi negativo em R$ 49,2 milhões. Portanto, houve uma recuperação de cerca de R$ 83,5 milhões em relação aos três meses anteriores, mesmo diante da queda na atividade.

O aumento do ticket médio ajudou a mitigar a perda de receita. O valor médio por procedimento subiu 9,5%, passando de R$ 9.530 para R$ 10.438. A empresa explicou que esse aumento se deve, em parte, ao repasse da inflação no preço dos medicamentos e à estratégia de reduzir atendimentos para convênios e planos de saúde que ofereciam condições comerciais menos vantajosas. No entanto, a alta no ticket não foi suficiente para compensar a perda de um terço do volume total de atendimentos.

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Ao analisar as perdas, é necessário distinguir o prejuízo líquido contábil, que somou R$ 475,7 milhões, do prejuízo ajustado de R$ 275,3 milhões. O valor ajustado exclui despesas não recorrentes e efeitos que não afetam o caixa, como provisões, impairment (desvalorização) de ativos, glosas antigas e custos de reestruturação.

A lógica por trás da alta das ações

Oncoclinicas
Atendimento da Oncoclínicas – Divulgação

A forte valorização das ações ONCO3 reflete a mudança nas prioridades dos investidores. Para uma empresa na situação da Oncoclínicas, a avaliação não se concentra mais em crescimento de margens ou lucro no curto prazo, mas sim na sobrevivência financeira e na manutenção da liquidez.

A geração operacional de R$ 158,4 milhões demonstrou a capacidade da empresa de não repetir a intensa queima de caixa registrada no início do ano. Adiciona-se a isso o andamento do processo de recuperação extrajudicial, deferido pela Justiça no início de agosto, que visa reestruturar dívidas e créditos na ordem de R$ 5,1 bilhões. Esse processo proporciona um ambiente protegido para as negociações com os credores, podendo resultar em alongamento de prazos e alívio imediato no caixa, ainda que a eficácia dependa do cumprimento do plano.

Instituições financeiras, como o BTG Pactual, embora considerem os números operacionais fracos, pontuaram a geração de caixa como o dado positivo do trimestre. O banco observou que a dívida líquida, incluindo aquisições, aumentou de R$ 3,27 bilhões para aproximadamente R$ 3,4 bilhões, elevando a alavancagem para cerca de 7,9 vezes o Ebitda ajustado anualizado.

A alta superior a 15% na segunda-feira indica que o mercado avaliou o risco de insolvência no curto prazo como menor do que o precificado anteriormente. É preciso considerar também o forte viés de baixa acumulado pelas ações: a ONCO3 registrava uma queda de quase 79% em 12 meses, operando abaixo de R$ 1. Nesse patamar de preço, oscilações de poucos centavos representam variações percentuais expressivas.

A sustentabilidade do caixa sob escrutínio

A grande interrogação para os próximos resultados trimestrais é a capacidade da Oncoclínicas de manter a geração de caixa de R$ 158 milhões.

A estratégia de renegociar com fornecedores proporciona alívio imediato, pois os pagamentos são postergados, mantendo os recursos na empresa temporariamente. A dívida, entretanto, não é extinta. No final de 2025, a empresa já havia renegociado cerca de R$ 280 milhões e antecipado R$ 330,5 milhões em recebíveis. No trimestre seguinte (1T26), quando os efeitos dessas manobras começaram a cessar, o fluxo de caixa voltou a ficar negativo em R$ 153,1 milhões.

A estabilização financeira dependerá de um conjunto de fatores: o aumento consistente dos procedimentos médicos, a resolução definitiva dos problemas no fornecimento de medicamentos, a melhoria do Ebitda e a garantia de pagamentos regulares pelas operadoras de saúde. A geração de caixa precisará ser sustentada pela operação, e não apenas pelo alongamento contínuo de passivos ou antecipação de receitas.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.