Um projeto de mineração que ainda nem começou a produzir no Sul de Minas Gerais tornou-se o principal ativo de uma negociação bilionária do mercado global de terras raras. A australiana Lynas Rare Earths firmou um acordo para adquirir a Meteoric Resources por aproximadamente R$ 3,5 bilhões, em uma operação que coloca o Projeto Caldeira no centro da estratégia de expansão de uma das maiores produtoras do setor fora da China.
O valor chama atenção quando comparado ao próprio tamanho do empreendimento mineiro. O estudo definitivo de viabilidade do Caldeira prevê aproximadamente US$ 498 milhões para colocar o projeto em operação, algo na faixa de R$ 2,6 bilhões pela cotação atual.
Ou seja: a negociação pela empresa que controla o ativo é avaliada em um valor superior ao investimento atualmente estimado para construir a própria operação.
Isso não significa que os R$ 3,5 bilhões serão pagos diretamente pelas reservas mineiras. A transação envolve 100% da Meteoric, sua estrutura empresarial, conhecimento técnico e demais ativos. Ainda assim, o Projeto Caldeira é apontado pelas próprias companhias como a peça central da operação.
Lynas não está comprando uma mina pronta
A negociação também precisa ser colocada em perspectiva. A Lynas não está adquirindo uma operação que já extrai e vende terras raras em Minas.
O Projeto Caldeira, desenvolvido na região de Poços de Caldas, ainda está em fase de desenvolvimento e precisa avançar no licenciamento, financiamento e construção antes de entrar em produção comercial.
A Meteoric estima recursos minerais de aproximadamente 1,6 bilhão de toneladas no projeto. O planejamento atual prevê uma operação por mais de duas décadas, com produção média anual equivalente a cerca de 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras.
Em julho, o Moon BH mostrou que a Coreia do Sul entrou na disputa pela futura produção do Projeto Caldeira. A Posco International assinou um memorando para negociar a compra de até 30% da produção e chegou a discutir possibilidades de financiamento e investimento.
Agora, a mudança é muito maior. Em vez de uma empresa estrangeira negociar parte do que poderá sair da mina, outra companhia pretende assumir o controle da própria dona do projeto.
Quem é a empresa que quer assumir o projeto mineiro
A Lynas ocupa uma posição incomum no mercado internacional. A companhia já produz terras raras na Austrália e realiza etapas de processamento na Malásia, sendo uma das principais fornecedoras comerciais desses materiais fora da China.
Pelo acordo anunciado, os acionistas da Meteoric receberão 0,0207 ação da Lynas para cada ação que possuem atualmente. A relação atribui à Meteoric um valor aproximado de 968 milhões de dólares australianos.
O preço representa um prêmio superior a 68% sobre a última cotação das ações da Meteoric antes do anúncio.
A aquisição ainda não está concluída. O negócio depende da aprovação dos acionistas, da Justiça e de órgãos reguladores, inclusive no Brasil caso seja exigida autorização para a mudança de controle. O cronograma atual prevê votação dos acionistas no início de 2027 e conclusão da operação em março.
A dimensão estratégica do Caldeira ajuda a explicar o interesse. Segundo a Lynas, incorporar o projeto aumentaria em cerca de 79% os recursos minerais medidos e indicados de óxidos de terras raras da companhia e em aproximadamente 26% suas reservas declaradas.
A pergunta de R$ 3,5 bilhões para Minas
Para Minas Gerais, existe uma questão econômica ainda mais importante do que a nacionalidade da empresa que controlará a futura mina: onde acontecerão as etapas industriais posteriores à extração.
Terras raras ganham valor à medida que passam por separação, purificação e transformação até chegarem aos ímãs utilizados em veículos elétricos, turbinas, eletrônicos e diferentes equipamentos tecnológicos.
Esse é justamente um dos pontos que o Moon BH já mostrou ao analisar por que Minas está no centro da disputa internacional pelas terras raras. Possuir o recurso mineral é apenas uma parte da cadeia. Uma parcela muito maior do valor pode ser capturada por quem domina o processamento.
E a nova controladora potencial do Caldeira já possui exatamente essa experiência.
Segundo a Reuters, a Lynas pretende avaliar a possibilidade de desenvolver processamento de terras raras no Brasil. A empresa também poderia integrar parte da produção mineira às estruturas industriais que já mantém fora do país.
Por enquanto, entretanto, não existe compromisso de implantação de uma planta brasileira de separação.
Essa diferença é decisiva. Se Minas fornecer apenas o produto intermediário e as etapas mais sofisticadas forem realizadas no exterior, uma parcela importante do valor agregado continuará fora do estado. Caso o investimento avance para processamento local, o efeito econômico do projeto poderá ser maior do que o gerado somente pela mineração.
Negócio mostra quanto Caldeira passou a valer antes de produzir
O acordo surge em um momento de corrida internacional por fornecedores capazes de reduzir a dependência da China. O país asiático domina principalmente as etapas de processamento e separação de terras raras, justamente aquelas mais difíceis de reproduzir em novas cadeias produtivas.
O Projeto Caldeira possui neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, elementos importantes para a fabricação de ímãs permanentes utilizados em diversas tecnologias.
A entrada da Lynas acrescenta uma nova dimensão à história do projeto mineiro. Primeiro, o Caldeira atraiu compradores interessados em garantir antecipadamente parte de sua produção. Agora, antes mesmo da abertura da mina, sua controladora tornou-se alvo de uma operação de aproximadamente R$ 3,5 bilhões.
O próximo movimento será ainda mais importante para Minas Gerais: descobrir se o capital estrangeiro interessado no minério também estará disposto a instalar no estado as etapas industriais capazes de multiplicar seu valor.


