A construção civil de Minas Gerais tem uma recuperação desigual: o saldo de empregos melhorou, mas a contratação perdeu força na construção de edifícios. As obras de infraestrutura passaram a sustentar uma parcela maior das novas vagas, mostrando que o resultado geral esconde situações diferentes dentro do mesmo setor.
Entre janeiro e julho de 2026, a construção mineira acumulou saldo de aproximadamente 21,6 mil empregos, contra 20,7 mil no mesmo intervalo de 2025. A alta de cerca de 4% aparece em levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a FIEMG, divulgado nesta quinta-feira, 1º de outubro.
Na infraestrutura, o saldo avançou de 7,3 mil para 11,3 mil postos, crescimento superior a 55%. Já na construção de edifícios, houve queda de aproximadamente 70% na geração líquida de vagas, segundo o balanço divulgado pela entidade.
Infraestrutura passa a responder por mais da metade do saldo
Considerando os números arredondados apresentados pela federação, as obras de infraestrutura responderam por aproximadamente 52% do saldo de empregos da construção mineira até julho. Um ano antes, essa participação estava perto de 35%, o que representa uma mudança relevante na composição das oportunidades.
O cálculo ajuda a entender por que a expressão “a construção está contratando” precisa de contexto. Um trabalhador, fornecedor ou empresário pode encontrar condições diferentes conforme o segmento em que atua, mesmo quando a estatística estadual apresenta melhora.
Também não é possível concluir que as mesmas pessoas saíram de empreendimentos imobiliários e foram contratadas por obras de infraestrutura. O levantamento permite comparar o desempenho dos segmentos, mas não acompanha a trajetória individual dos trabalhadores entre as empresas.
Queda de 70% não significa demissão de 70% dos trabalhadores
O indicador utilizado é o saldo de empregos, calculado pela diferença entre admissões e desligamentos. Portanto, uma redução na geração líquida de vagas não equivale à mesma redução no número total de pessoas empregadas.
Em um exemplo hipotético, um segmento que criou mil postos líquidos em determinado período e passou a criar 300 registraria queda de 70% no saldo. Ainda assim, teria acrescentado trabalhadores ao seu quadro, porque as admissões continuariam superando os desligamentos.
Essa distinção evita transformar uma desaceleração das contratações em uma informação sobre demissões em massa. Para avaliar o tamanho do quadro de trabalhadores, seria necessário observar o estoque de vínculos, que é uma medida diferente.
Atividade econômica ainda não acompanhou a melhora das vagas
O Boletim Setorial da Construção mostra que o PIB do setor em Minas cresceu 0,3% no segundo trimestre, frente ao trimestre anterior, com ajuste sazonal. No acumulado do primeiro semestre, porém, houve retração de 2,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o resultado nacional avançou 1,1%.
As comparações respondem a perguntas diferentes. A primeira indica uma melhora recente em relação ao início do ano; a segunda mostra que o nível de atividade ainda ficou abaixo daquele registrado no primeiro semestre anterior.
O emprego também cobre um intervalo diferente, encerrado em julho. Por isso, colocar os indicadores lado a lado ajuda a compreender o cenário, mas não autoriza afirmar que contratação e produção deveriam variar na mesma proporção ou no mesmo mês.
Materiais e custos completam o quadro
O boletim registra queda de 1,9% no volume de vendas de materiais de construção em Minas no primeiro semestre. Ao mesmo tempo, o INCC-M acumulou alta de 6,71% nos 12 meses encerrados em junho, acrescentando pressão ao orçamento das obras.
Para quem acompanha o mercado imobiliário, essa combinação exige cuidado com conclusões automáticas sobre preços. Uma atividade mais fraca pode coexistir com custos maiores, e nenhum dos dois indicadores determina sozinho quanto uma incorporadora cobrará por um apartamento.
Da mesma forma, o desempenho estadual não substitui a análise de uma empresa ou empreendimento. Localização, financiamento, estágio de execução e público atendido precisam ser considerados antes de atribuir a todas as construtoras a mesma situação.
O que observar nos próximos meses
A FIEMG trabalha com a perspectiva de encerramento de 2026 próximo da estabilidade. Na avaliação da entidade, financiamento e demanda privada serão importantes para uma recuperação mais ampla, além da contribuição dos investimentos em infraestrutura.
O próximo sinal relevante será verificar se a melhora alcança mais segmentos e permanece nas divulgações seguintes. Por enquanto, os números permitem identificar onde a geração de vagas ganhou força, mas ainda não sustentam a leitura de uma retomada generalizada da construção mineira.


