O Banco Mercantil, com sede na Savassi, em Belo Horizonte, encerrou o segundo trimestre de 2026 com um lucro líquido de R$ 275 milhões, uma alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número marca um feito raro no mercado: este é o 15º trimestre consecutivo em que o banco quebra o seu próprio recorde de lucro recorrente.
A diferença que manteve a sequência viva foi milimétrica (o banco havia lucrado R$ 273 milhões no 1T26), mas a escalada de longo prazo impressiona. Em apenas três anos, o lucro trimestral do Mercantil multiplicou-se por 6,9 vezes, impulsionado pela decisão estratégica de focar quase todas as suas fichas no público 50+.
Apesar dos recordes, o balanço acendeu algumas luzes amarelas. O banco freou as concessões de novos créditos, viu a inadimplência anual subir e precisou reservar mais dinheiro para cobrir possíveis calotes.
O domínio absoluto do crédito consignado
A carteira total de crédito do Mercantil deu um salto de 30% em doze meses, alcançando a marca de R$ 25 bilhões. O motor que tracionou R$ 5,7 bilhões desse crescimento atende por um único nome: crédito consignado.
Modalidade em que a parcela do empréstimo é descontada diretamente no contracheque ou benefício do cliente, o consignado já representa impressionantes 74% (R$ 18,5 bilhões) de todo o crédito concedido pelo banco.
- Consignado INSS: R$ 15,5 bilhões.
- Outras modalidades consignadas: R$ 3 bilhões.
- Saque-aniversário do FGTS: R$ 2,3 bilhões.
- Crédito Pessoal: R$ 3,1 bilhões.
Essa concentração bilionária no INSS é fruto do posicionamento da marca. O Mercantil é hoje o quinto maior pagador de benefícios previdenciários do Brasil, administrando uma base de 10,2 milhões de clientes.
O banco usa esse acesso privilegiado à folha de pagamento para rentabilizar a base com serviços secundários. As receitas de serviços saltaram 76% (chegando a R$ 363 milhões), sendo que mais de 90% desse valor veio da venda de seguros e serviços de assistência empurrados ao público 50+.
Freio na originação e provisões mais salgadas
Se a carteira total acumulada está gorda, a torneira de novos contratos começou a secar. O Mercantil originou R$ 2,625 bilhões em crédito no 2T26, um tombo de 44% se comparado ao volume febril concedido entre janeiro e março (R$ 4,684 bi).
O banco admitiu a freada, justificando que passou a priorizar operações mais seguras diante da Selic elevada, das novas regras do INSS, do teto de juros e da portabilidade. Outro fator que segurou o lucro na casa dos R$ 275 milhões foi o risco de calote. A inadimplência acima de 90 dias bateu em 3,1% — número acima dos 2,3% registrados há um ano, mas que ainda performa melhor que a perigosa média nacional de pessoas físicas (6,2%).
Para blindar o caixa, a despesa com provisões trimestrais triplicou, saltando de R$ 131 milhões (no 2T25) para salgados R$ 406 milhões em 2026. Parte da receita que o banco ganhou com seguros foi consumida para cobrir o risco da sua própria expansão acelerada dos últimos meses.
O banco encerrou o período com Índice de Basileia de 17,2% (robusta margem de capital para absorver riscos). Como bônus pelo semestre, o Conselho aprovou a distribuição de R$ 189,5 milhões em Juros Sobre Capital Próprio aos acionistas, com depósito previsto para 19 de agosto.


