A mineradora australiana Viridis Mining iniciou negociações com a BNDESPar para uma eventual participação acionária do Estado brasileiro no Projeto Colossus, voltado para a extração de terras raras em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. A movimentação societária ocorre logo após o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovar uma linha de financiamento inicial de R$ 77,5 milhões para a companhia.
A informação sobre as tratativas foi confirmada pelo CEO da Viridis, Rafael Moreno. Até o momento, as conversas tratam-se de negociações preliminares, sem definição de percentuais, valores ou da estrutura final de uma possível entrada do braço de investimentos do banco no capital da empresa.
O cenário financeiro da Viridis no Brasil divide-se atualmente em três frentes distintas. A primeira é o crédito recém-aprovado para pesquisa. A segunda envolve a estruturação da dívida principal para construir a mina comercial. A terceira, agora revelada, é a possibilidade de a BNDESPar atuar como investidora direta (acionista).
O financiamento de R$ 77,5 milhões do BNDES, anunciado no início de setembro, possui prazo de amortização de 16 anos. O montante será destinado exclusivamente à implantação do Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR) no município mineiro.
A unidade funcionará como um laboratório e uma planta-piloto. O objetivo é produzir carbonato misto de terras raras em escala reduzida, permitindo testar e otimizar as rotas de processamento das argilas iônicas encontradas na região. As etapas técnicas validadas no CPTR serão posteriormente replicadas em larga escala na futura operação industrial.
O crédito já liberado representa apenas uma fração do capital necessário para colocar o complexo minerário em funcionamento. O estudo definitivo de viabilidade do Projeto Colossus estima um custo de capital inicial (Capex) de aproximadamente US$ 449 milhões, valor que já contempla margens de contingência.
O plano desenhado pela companhia prevê que o empreendimento seja custeado por uma estrutura de 70% em dívida e 30% em capital próprio (equity). Convertendo o financiamento piloto de R$ 77,5 milhões para a moeda norte-americana (cerca de US$ 15 milhões), a participação atual do BNDES corresponde a pouco mais de 3% de todo o investimento planejado.
Busca por US$ 280 milhões em dívida
O desafio imediato da Viridis é levantar os recursos para compor a parcela principal de dívida da planta industrial. A gestão da mineradora estima a necessidade de captar aproximadamente US$ 280 milhões adicionais e espera concluir essa estruturação financeira ao longo das próximas semanas.
Além do banco de fomento brasileiro, a empresa conduz negociações com instituições financeiras internacionais. O projeto já recebeu manifestações não vinculantes de apoio de entidades como a Export Finance Australia, a Export Development Canada e a francesa Bpifrance. O Banco Europeu de Investimento e instituições de desenvolvimento dos Estados Unidos também já enviaram representantes para avaliar a viabilidade da planta.
No que diz respeito ao capital próprio (equity), a mineradora encontra-se em estágio avançado. Em agosto, a Viridis anunciou ter garantido compromissos de até US$ 120 milhões em novos aportes. Desse volume, US$ 75 milhões serão injetados pela gestora One Investment Management.
Somando esses aportes aos recursos disponíveis em caixa, a companhia atesta possuir fontes entre US$ 150 milhões e US$ 154 milhões, o que cobriria a exigência de 30% de capital próprio. É nesse arranjo que a negociação com a BNDESPar adiciona uma nova alternativa, podendo colocar o grupo estatal brasileiro atuando simultaneamente como credor do projeto e acionista da empresa.
Projeto pode produzir 5 milhões de toneladas de terras raras
O interesse global pela operação em Poços de Caldas está atrelado à cadeia de suprimentos dos minerais críticos. O Projeto Colossus foi dimensionado para processar 5 milhões de toneladas de minério anualmente. A partir desse volume, a expectativa é produzir cerca de 2.967 toneladas por ano de óxidos magnéticos de terras raras.
Estes elementos são insumos indispensáveis para a fabricação de ímãs de alto desempenho. Os componentes abastecem diretamente as indústrias de veículos elétricos, turbinas de energia eólica, eletrônicos avançados e equipamentos de defesa militar. Atualmente, o processamento mundial dessa cadeia produtiva é amplamente dominado pela China.
Para garantir a demanda física do seu produto, a Viridis também está em vias de formalizar um contrato definitivo de fornecimento com a indústria química Solvay. O acordo estipula que 75% de todo o carbonato misto extraído em Minas Gerais abastecerá a fábrica da Solvay em La Rochelle, na França. O contrato prevê um compromisso de cinco anos, com cláusula de renovação por período igual.
O cronograma operacional físico do Colossus estabelece o início das obras da planta industrial para o ano de 2027. O começo da extração e produção em escala comercial está projetado para o segundo semestre de 2028.


