A mineradora australiana Viridis Mining and Minerals inaugurou em Poços de Caldas, no Sul de Minas, um centro de pesquisa e processamento de terras raras ligado ao projeto Colossus. A unidade será usada para produzir o primeiro carbonato misto de terras raras da companhia no Brasil e apoiar negociações comerciais com compradores dos Estados Unidos e da Europa.
Segundo a Reuters, a empresa está em conversas avançadas com potenciais compradores ocidentais e não pretende vender a produção para a China. O posicionamento ocorre em um momento de disputa global por minerais críticos usados em carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
O projeto coloca Minas Gerais em uma cadeia considerada estratégica por governos e empresas. Hoje, a China concentra cerca de 60% da produção mineral global de terras raras e 90% ou mais da produção refinada. A tentativa de reduzir essa dependência tem ampliado o interesse de EUA e Europa por novas fontes de fornecimento.
O que são terras raras
Terras raras não são um único mineral. O termo se refere a um grupo de elementos químicos usados em aplicações industriais de alto valor. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, importantes para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses ímãs são usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, drones, equipamentos militares, eletrônicos e sistemas de geração de energia. Por isso, terras raras passaram a ser tratadas como insumos estratégicos na transição energética e na indústria de defesa.
O centro da Viridis em Poços de Caldas deve produzir carbonato misto de terras raras, material intermediário que contém elementos como neodímio e térbio. Esse produto ainda precisa passar por etapas adicionais de separação e refino antes de chegar às aplicações industriais finais.
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Por que Poços de Caldas virou ponto estratégico
O projeto Colossus está localizado no Complexo Alcalino de Poços de Caldas, região apontada pela Viridis como área de alto potencial para terras raras em argilas de adsorção iônica. A empresa informa que o projeto reúne 228,62 km² em licenças em Minas Gerais.
Esse tipo de depósito é diferente de projetos de rocha dura. Segundo a Viridis, as terras raras em argilas de adsorção iônica podem ter processamento mais simples, porque os elementos já estão em forma iônica no material argiloso. A companhia afirma que o processo permite gerar carbonato misto de terras raras, produto que pode ser enviado posteriormente a refinadores.
A unidade inaugurada em Poços de Caldas tem capacidade prevista para processar até 100 quilos de minério por hora. Embora ainda seja uma escala de pesquisa e demonstração, o centro é considerado importante para validar o processamento e fornecer amostras comerciais a potenciais compradores.
Empresa mira EUA e Europa, não China
O CEO da Viridis, Rafael Moreno, afirmou à Reuters que a empresa decidiu seguir uma rota voltada ao mercado ocidental. A estratégia está ligada ao interesse de compradores, investidores e financiadores em manter o projeto fora das cadeias de suprimento chinesas.

A posição é relevante porque a China domina as etapas mais importantes da cadeia global de terras raras, especialmente o refino. Em abril de 2025, Pequim adotou restrições à exportação em resposta a tarifas dos Estados Unidos, medida que aumentou a preocupação de governos ocidentais com a dependência de fornecedores chineses.
Na prática, a Viridis tenta posicionar o projeto Colossus como alternativa de fornecimento para compradores dos Estados Unidos e da Europa. Esses acordos, conhecidos como offtakes, funcionam como compromissos de compra de volumes específicos ao longo do tempo e ajudam empresas de mineração a viabilizar financiamento para implantação dos projetos.
Investimento pode chegar a US$ 400 milhões
O projeto Colossus é estimado entre US$ 360 milhões e US$ 370 milhões, segundo a Reuters. O valor pode chegar a US$ 400 milhões se os financiadores exigirem capital de giro adicional. A conclusão do financiamento é esperada para o terceiro trimestre.
Além disso, a Viridis já havia anunciado apoio financeiro de até US$ 30 milhões das gestoras Régia Capital e Ore Investments, segundo o Reset. Parte dos recursos seria destinada à planta-piloto em Poços de Caldas e parte ao processo de licenciamento ambiental.
O projeto também recebeu carta de intenções de uma agência de fomento da Austrália para crédito adicional de US$ 50 milhões. Esses movimentos indicam que a companhia busca combinar capital privado, financiamento internacional e contratos de venda para avançar na estrutura industrial.
Licenciamento ainda tem etapas pela frente
A Viridis ainda precisa concluir fases regulatórias antes de colocar o Colossus em operação comercial. Segundo o Brasil Mineral, a empresa protocolou o pedido de Licença de Instalação junto à Feam, após a aprovação da Licença Prévia em dezembro de 2025.
A Licença de Instalação é a etapa que permite avançar para construção e desenvolvimento do empreendimento, caso aprovada. Depois dela, ainda é necessária a Licença de Operação para início efetivo da atividade produtiva.
A empresa informou que a decisão final de investimento está prevista para o segundo semestre de 2026. A expectativa indicada pela Viridis à Reuters é atingir produção estável até o fim de 2028.
Minas ganha peso na cadeia dos minerais críticos
O avanço da Viridis reforça o papel de Minas Gerais na corrida por minerais estratégicos. O estado já aparece no mapa do lítio, do nióbio, do grafite e, agora, amplia sua presença na pauta das terras raras.
Para Poços de Caldas, o projeto pode representar nova etapa na relação da cidade com mineração e tecnologia mineral. Para Minas, o ponto central será a capacidade de transformar recursos naturais em atividade industrial, pesquisa, empregos qualificados e receita.
O projeto ainda depende de licenciamento, financiamento e contratos comerciais. Mas a inauguração do centro de pesquisa e processamento mostra que a disputa global por terras raras já tem endereço em Minas.


