HomeBH e MG NotíciasA cidade de Minas que cresceu dentro de um vulcão e agora...

A cidade de Minas que cresceu dentro de um vulcão e agora tem outro segredo embaixo da terra

Publicado em

Existe uma cidade no Sul de Minas que parece saída de documentário. Poços de Caldas cresceu dentro de uma formação vulcânica, ficou conhecida no país pelas águas quentes e agora aparece no radar de uma disputa econômica ligada a minerais estratégicos. A mesma geologia que explica o teleférico, as Thermas e a paisagem serrana também explica o interesse de empresas de mineração que chegaram em 2026.

O segredo de Poços está, literalmente, debaixo da paisagem.

- Publicidade -

Quando falamos que Poços de Caldas informa que o município fica em uma caldeira vulcânica, não quer dizer que existe risco de erupção ou vulcão ativo embaixo das ruas.

A expressão descreve uma formação geológica antiga, resultado de processos vulcânicos e tectônicos que moldaram a região há milhões de anos. O Complexo Alcalino de Poços de Caldas é descrito na literatura geológica como uma caldeira formada por rochas plutônicas e vulcânicas, principalmente fonolitos e nefelina sienitos. As bordas da estrutura chegam a 1.500 e 1.600 metros de altitude, enquanto a porção interna, onde a cidade se assentou, fica em torno de 1.300 metros.

É essa configuração circular que dá a Poços a sensação de cidade encaixada numa moldura natural, com serras no horizonte em praticamente qualquer direção.

- Publicidade -

Visto no mapa, o efeito é imediato: a mancha urbana ocupa o interior de uma bacia elevada, cercada por cristas. Não é coincidência. É geologia.

Fontes termais deram origem a cidade mineira

A origem urbana de Poços de Caldas está diretamente ligada às fontes termais. A Prefeitura registra que o povoamento inicial partiu da descoberta dessas águas, que atraíram pessoas em busca de cura e tratamento. Em 1819, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire documentou o local e as águas minerais do Rio Pardo, ajudando a colocar a região no mapa ainda no século XIX.

O desenvolvimento veio em etapas. Em 1865, o primeiro balneário foi construído junto à fonte Pedro Botelho, com banheiros e duchas de água sulfurosa. Em 1886, Dom Pedro II inaugurou o ramal da Ferrovia Mogiana que chegava à cidade. A partir daí, Poços consolidou uma imagem que misturava saúde, lazer, arquitetura, hotéis e vida elegante.

- Publicidade -

Essa é uma das razões pelas quais a cidade ocupa um lugar tão particular no imaginário mineiro. Ela não cresceu em torno de mineração tradicional, comércio ou ciclo do café como tantas outras. Cresceu em torno da água.

Patrimônio material de Minas Gerais

Em abril de 2026, o Governo de Minas aprovou o tombamento do Conjunto Urbano Hidrotermal e Hoteleiro de Poços de Caldas como patrimônio cultural material do estado. A decisão foi do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural.

Conjunto Urbano Hidrotermal e Hoteleiro de Poços de Caldas
Foto: Imprensa MG/Gil Leonardi

Estão protegidos o Palace Hotel, o Palace Cassino, as Thermas Antônio Carlos, o Parque José Affonso Junqueira, a Praça Pedro Sanches, além de praças, parques, fontes, monumentos, coretos, trechos de ribeirões urbanos e áreas de entorno. Não é uma lista de prédios antigos. É a preservação de um modo de cidade que poucas regiões do Brasil ainda têm intacto.

No centro dessa identidade estão as Thermas Antônio Carlos. O espaço oferece mais de 50 serviços, incluindo banhos termais, duchas, saunas, massagens, terapias, spa e fisioterapia. O que antes era tratamento médico virou, com o tempo, uma das experiências mais procuradas no turismo de bem-estar do Sudeste.

Agora o ativo é uma riqueza diferente, mas também debaixo da terra

A história ficaria completa se parasse aqui. Mas não para.

Em maio de 2026, o Serviço Geológico do Brasil participou de visitas técnicas a projetos de terras raras em Poços de Caldas. A agenda envolveu empresas como Meteoric Caldeira e Viridis Mining & Minerals, com foco em minerais críticos e estratégicos ligados à transição energética e à indústria tecnológica.

O mesmo território que fez Poços ficar conhecida pelas fontes termais e pelo relevo singular agora aparece em discussões sobre materiais usados em baterias, energia limpa e cadeias de produção avançada.

Não é simples. Projetos de mineração envolvem licenciamento, impactos ambientais, debate público e disputas sobre o melhor uso do território. A extração de terras raras é tecnicamente complexa e socialmente sensível em qualquer parte do mundo. Em uma cidade com patrimônio tombado e turismo termal como base econômica, a tensão entre esses dois mundos tende a ser ainda mais evidente.

Mas do ponto de vista estratégico, a combinação chama atenção. Poços de Caldas tem patrimônio cultural reconhecido, turismo consolidado, geologia singular e potencial mineral no mesmo tabuleiro. Poucas cidades brasileiras reúnem tantas camadas num raio tão pequeno.

Além do que o turista médio vê

Quem visita Poços de Caldas normalmente vê o teleférico, as praças, as fontes, os hotéis históricos, os doces, os cafés e a paisagem serrana. O que nem todo visitante percebe é que tudo isso está conectado a uma mesma camada geológica muito mais antiga.

A água que ajudou a formar o destino turístico, o relevo que emoldura a cidade e o interesse recente por minerais estratégicos fazem parte de uma narrativa contínua. A caldeira vulcânica não é só o cenário. É o personagem principal da história de Poços de Caldas, presente desde o início e ainda com capítulos por escrever.

- Publicidade -
Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.

Veja outras notícias