As ações da Copasa dispararam 13,34% nesta quarta-feira (3) e fecharam a R$ 60, depois que o mercado reagiu à nova proposta da Equatorial para assumir o posto de investidora de referência na privatização da companhia mineira de saneamento. Os papéis CSMG3 dispararam nos minutos finais do pregão e encerraram o dia com alta de 13,34%, cotados a R$ 60 no fim do pregão. A Equatorial também subiu, mas em ritmo menor: 1,89%, a R$ 39,81.
Depois do fechamento do mercado, a companhia confirmou que a Gerais Saneamento S.A., controlada pela Equatorial, foi definida como investidora de referência finalista da oferta pública secundária de ações.
A proposta foi de R$ 49,03 por ação para o lote prioritário, correspondente a 30% do capital social. O valor representa investimento aproximado de R$ 5,59 bilhões. A empresa também demonstrou interesse em comprar ações adicionais na etapa voltada a investidores profissionais, o que pode elevar o desembolso potencial para cerca de R$ 7,95 bilhões.
O Moon BH fez uma simulação simples para dimensionar a diferença entre o preço proposto pela Equatorial e o valor de fechamento das ações da Copasa na Bolsa. Se o lote prioritário de aproximadamente R$ 5,59 bilhões fosse marcado pelo preço de R$ 60 por ação, a diferença teórica seria de cerca de R$ 1,25 bilhão em relação ao preço de R$ 49,03 oferecido pela compradora.
Isso, porém, não significa lucro realizado. A operação ainda depende das etapas formais da oferta, da definição do preço final e da liquidação. Além disso, uma participação estratégica de 30% em uma companhia privatizada não tem a mesma dinâmica de uma compra e venda comum de ações no pregão.
Esse não é o recorde do preço do papel da companhia, que no dia 9 de abril chegou a bater R$ 60,35 por ação.
Por que as ações da Copasa subiram tanto
A alta refletiu a leitura de que a privatização voltou a ter um caminho mais claro depois de semanas de incerteza. Na semana anterior, o processo havia sido adiado após propostas consideradas abaixo do mínimo pretendido pelo Governo de Minas. Com a nova oferta, o mercado passou a enxergar menor risco de fracasso imediato. A entrada da Equatorial também tem peso porque o grupo já atua como investidor de referência da Sabesp, em São Paulo, e tenta ampliar presença no saneamento.
Ainda assim, o salto na Bolsa não significa que todos os pontos estejam resolvidos. A proposta de R$ 49,03 por ação ficou acima do preço mínimo de R$ 47,23 definido na nova rodada, mas abaixo do preço de fechamento das ações após a disparada.
Esse descompasso deve ser observado nos próximos pregões. Parte da reação ocorreu antes de o mercado digerir todos os detalhes formais da operação.
Como será a venda
O modelo desenhado pelo Governo de Minas prevê a venda de até 45% da companhia. A maior parte, 30%, será destinada ao investidor de referência. Outros 15% devem ser oferecidos ao mercado no processo de bookbuilding, etapa em que investidores indicam quantas ações querem comprar e a que preço.
Ao fim da operação, o Estado pretende manter uma fatia residual de 5% e uma golden share, que preserva poderes específicos de veto em temas considerados estratégicos. Atualmente, o governo estadual detém 50,03% das ações. A privatização é feita por meio de uma oferta secundária, ou seja, o dinheiro arrecadado vai para o acionista vendedor, e não diretamente para o caixa da empresa.
A gestão estadual pretende usar parte dos recursos no contexto de seu acordo fiscal e de investimentos em infraestrutura.
Aegea ficou fora da nova rodada
O processo teve apenas uma proposta na etapa final. A Aegea, que chegou a se movimentar por meio de um veículo com acionistas como Equipav, GIC e Itaúsa, não apresentou nova oferta após a mudança nos parâmetros da privatização.
A Sabesp também não seguiu na disputa, apesar de ter sido citada anteriormente como possível parceira da Equatorial. A empresa paulista já havia indicado que via oportunidades relevantes de crescimento em São Paulo.
Com isso, a disputa ficou concentrada na Equatorial. A ausência de concorrência reduz a pressão competitiva por preço, mas também evita novo adiamento por falta de interessados.
O que ainda pode mudar
A definição da Equatorial como investidora de referência finalista não encerra o processo. A confirmação do investimento depende das condições previstas nos documentos da oferta, incluindo o resultado do bookbuilding.
Esse ponto é central. Se a etapa de mercado indicar preço superior ao lance apresentado pela Equatorial, o modelo pode mudar. Nesse cenário, a companhia deixaria de ter investidor de referência e poderia seguir como uma corporation, com ações mais pulverizadas na Bolsa.
O calendário divulgado prevê início do período de reserva para investidores não profissionais em 5 de junho. A coleta de intenções de investimento deve ocorrer entre 5 e 10 de junho. A fixação do preço por ação está prevista para 10 de junho, com início das negociações na B3 em 15 de junho e liquidação financeira em 16 de junho.
Além do mercado, o processo também segue acompanhado por órgãos de controle. O Tribunal de Contas do Estado já havia determinado que a conclusão da venda não ocorra antes de uma manifestação definitiva da corte, embora atos preparatórios possam continuar.
Por que isso importa para Minas
A privatização da empresa de saneamento é uma das principais operações de ativos públicos em Minas nos últimos anos. A companhia atende centenas de municípios e tem Belo Horizonte como peça central do negócio.
A renovação do contrato da capital até 2073 foi considerada etapa importante para aumentar a atratividade da oferta, já que BH responde por parcela relevante da receita da companhia.
Para os investidores, os próximos dias devem mostrar se o preço final confirma o interesse visto no pregão. Para o governo, o avanço da oferta pode destravar uma das principais promessas da agenda de desestatização. Para os consumidores, a discussão futura deve se concentrar em investimento, universalização, tarifa, qualidade do serviço e compromissos regulatórios.


