As federações partidárias foram criadas para obrigar partidos a funcionarem praticamente como uma única legenda durante pelo menos quatro anos. Em Minas Gerais, porém, a eleição de 2026 produziu uma situação curiosa: duas das principais federações estão formalmente em um palanque e têm um de seus integrantes trabalhando politicamente para outro candidato.
De um lado, a Federação PSOL-Rede integra oficialmente a aliança de Patrus Ananias (PT), mas a Rede mantém apoio informal a Alexandre Kalil (PDT).
Do outro, a Federação PSDB-Cidadania está oficialmente na coligação de Kalil, inclusive com o tucano Carlos Mosconi como candidato a vice-governador. O Cidadania mineiro, porém, acaba de anunciar apoio político a Mateus Simões (PSD).
O resultado é quase uma triangulação: Patrus tem formalmente PSOL e Rede, Kalil tem formalmente PSDB e Cidadania, mas a Rede prefere Kalil e o Cidadania prefere Simões. Tudo isso ocorre em um modelo que, pelas regras eleitorais, deveria produzir justamente o contrário: atuação unificada.
Cidadania está com Kalil no papel e com Simões na campanha
O capítulo mais recente aconteceu nesta segunda-feira (24). A Executiva estadual do Cidadania e prefeitos filiados à legenda se reuniram com Mateus Simões no comitê do governador, em Belo Horizonte, e entregaram um manifesto formalizando apoio político à candidatura à reeleição.
Participou do encontro João Marcelo Dieguez, prefeito de Nova Lima e presidente estadual do Cidadania. Segundo ele, o manifesto estabelece compromissos relacionados a fortalecimento dos municípios, repasses estaduais, infraestrutura, saneamento e educação profissional.
Simões reconheceu publicamente a peculiaridade. O governador afirmou que o Cidadania “formalmente não faz parte” de sua coligação por causa da federação, mas classificou o apoio dos prefeitos como importante. Segundo sua campanha, as prefeituras administradas pelo grupo reunido representam mais de meio milhão de moradores.
Rede vive situação quase espelhada
Na esquerda, aconteceu algo muito semelhante. A Rede pretendia apoiar Alexandre Kalil e chegou a vencer internamente uma votação da Federação PSOL-Rede em Minas por 4 votos a 3, em 10 de agosto.
O PSOL não aceitou a decisão e recorreu à Executiva Nacional. Um dia depois, a direção nacional anulou o posicionamento mineiro e determinou que a federação apoiasse oficialmente Patrus Ananias. A saída encontrada também foi a informalidade.
A decisão nacional garantiu à Rede liberdade para continuar politicamente ao lado de Kalil, mesmo sem integrar juridicamente sua coligação. A aproximação não é recente. Um dos principais dirigentes nacionais da Rede, Paulo Lamac, foi vice-prefeito de Belo Horizonte no primeiro mandato de Kalil e posteriormente ocupou secretarias na administração do pedetista.
Kalil chegou a sintetizar o racha de maneira pouco usual durante a disputa interna: afirmou que queria a Rede em sua campanha, mas que o PSOL “não é bem-vindo”.
Mas federação não deveria funcionar como um partido só?
Sim. O artigo 11-A da Lei dos Partidos Políticos determina que partidos reunidos em federação devem atuar “como se fosse uma única agremiação partidária”. As regras de funcionamento parlamentar e fidelidade partidária também são aplicadas ao conjunto.
Para a eleição majoritária, a regulamentação do TSE é ainda mais específica: a autonomia para decidir candidaturas e coligações deve ser exercida conjuntamente pelos partidos federados, e a federação implica atuação unificada em todas as circunscrições onde possui órgãos partidários.


