A campanha eleitoral para o Governo de Minas Gerais desenvolveu um padrão inusitado após a realização do primeiro debate televisivo. Os principais candidatos passaram a confirmar oficialmente a participação nos encontros promovidos pelas emissoras, participam das reuniões de alinhamento de regras, mas simplesmente não comparecem aos estúdios na hora do evento. Segundo apuração do Moon BH, há um método.
Em vez de anunciar a ausência com dias de antecedência e enfrentar o desgaste público prolongado por parte da imprensa, as equipes de campanha estão optando pelo cancelamento de última hora, esvaziando a programação das redes de televisão.
O gatilho dessa estratégia pode ser observado ao analisar o comportamento adotado antes do debate da TV Bandeirantes, o primeiro do calendário eleitoral. Em 14 de agosto, dois dias antes do encontro, o candidato Patrus Ananias (PT) anunciou publicamente que não participaria do confronto.
A justificativa apresentada pelo petista foi um conflito de agenda, já que ele estaria em São Bernardo do Campo (SP) para o lançamento da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e não teria tempo hábil para retornar a Minas Gerais. O aviso antecipado, no entanto, fez com que a sua ausência se tornasse o principal assunto da cobertura política da emissora antes mesmo de o programa começar.
O contexto editorial da emissora ajuda a explicar o recálculo dos políticos. O Grupo Bandeirantes vinha adotando um tom severo contra candidatos que fugiam do confronto de ideias. No programa “Band Eleições”, exibido em 11 de agosto, comentaristas afirmaram que os ausentes pagariam um “preço alto” e associaram a recusa à ideia de fragilidade eleitoral.
A emissora chegou a classificar as faltas como uma “negação da democracia” e alertou sobre a “presença da ausência”, indicando que os rivais presentes usariam o espaço livre na TV para atacar quem não compareceu. Após esse episódio de forte exposição negativa prévia da ausência de Patrus, os debates seguintes registraram um padrão diferente de cancelamento.
Esvaziamento na TV Horizonte e TMC
O caso mais emblemático ocorreu no dia 28 de agosto, no debate organizado pela TV Horizonte, Rede Catedral e revista Veja. As campanhas de Alexandre Kalil (PDT), Flávio Roscoe (PL), Mateus Simões (PSD), Patrus Ananias (PT) e Ben Mendes haviam confirmado presença e participado ativamente das discussões sobre o formato.
No entanto, nenhum dos cinco políticos compareceu ao estúdio. Como Cleitinho (Republicanos) já havia sinalizado previamente que não iria, apenas Gabriel Azevedo (MDB) se apresentou no horário combinado. Sem concorrentes, a organização foi obrigada a transformar o debate em uma sabatina individual de 30 minutos. Diferente do caso da Band, a maioria manteve a confirmação com a emissora até as proximidades do evento.
O esvaziamento repetiu-se poucos dias depois, em 2 de setembro, no debate promovido pela TMC em parceria com a TV Sim Brasil. Novamente, Mateus Simões, Patrus Ananias, Alexandre Kalil e Cleitinho tinham presença confirmada pela organização, mas não apareceram.
As justificativas oficiais basearam-se em compromissos concomitantes de campanha, enquanto Cleitinho alegou estar em Brasília para votações no Senado. O encontro acabou sendo realizado apenas com Flávio Roscoe, Ben Mendes e Gabriel Azevedo. Durante a transmissão, a própria direção da TMC classificou as faltas recorrentes como uma estratégia deliberada da corrida eleitoral.
O cálculo político por trás do atraso
Do ponto de vista do marketing político, a tática do cancelamento tardio possui uma lógica objetiva para blindar a imagem do candidato. Ao recusar o convite vários dias antes, o político dá à emissora tempo hábil para transformar a ausência em notícia e convidar os adversários para repercutir a recusa.
Por outro lado, ao cancelar perto do horário de início do programa, o desgaste de imagem fica restrito ao momento do evento e à sua repercussão imediata, encurtando significativamente a janela de ataques e impedindo que a emissora paute sua grade de programação em cima da desistência.
Nenhuma campanha admitiu publicamente o uso dessa estratégia, mantendo o argumento padrão de conflitos de agenda. Contudo, o histórico recente eleva o nível de incerteza para os próximos compromissos da reta final, como o debate da Record Minas, marcado para o dia 21 de setembro.


