A MRV afirma ter atingido um ritmo equivalente a 170 apartamentos produzidos por dia útil e revelou outro componente pouco conhecido de sua engrenagem operacional: a construtora mineira mantém uma unidade de procurement (compras e suprimentos) na China para buscar fornecedores e aumentar a eficiência financeira. As informações constam no balanço do segundo trimestre de 2026, divulgado em 12 de agosto pela companhia sediada em Belo Horizonte.
O tamanho da produção ajuda a explicar por que uma incorporadora brasileira decidiu fincar uma estrutura de suprimentos do outro lado do mundo. Em 2025, a MRV produziu 40.128 unidades, um crescimento de 12,7% sobre o ano anterior. Nos últimos cinco anos, foram aproximadamente 185 mil apartamentos, segundo os dados apresentados aos investidores.
Há uma diferença técnica importante na interpretação desse número. A MRV não está dizendo que conclui e entrega as chaves de 170 apartamentos todos os dias úteis. No glossário do próprio balanço financeiro, “unidades produzidas” são calculadas pela evolução física das obras, em uma medida de construção equivalente. Já as “unidades concluídas” (quando a engenharia efetivamente termina o imóvel) são contabilizadas separadamente.
Ainda assim, a escala do negócio é incomum. Só no segundo trimestre deste ano, a produção equivalente alcançou 10,9 mil unidades. A companhia opera 28 núcleos regionais e afirma tratar essa malha como uma única plataforma de construção, pautada em projetos padronizados, logística integrada, redução do número de componentes utilizados e controle estrito de produtividade.
Estrutura de suprimentos ligada diretamente à China
É dentro desse ecossistema massivo que entra o chamado global sourcing (busca global por fornecedores). No relatório do 2T26, a MRV descreve a estrutura como sua “unidade de procurement na China”, colocando a iniciativa lado a lado com tecnologia, logística e padronização como os grandes pilares para reduzir custos e tornar as obras mais previsíveis.
A companhia não detalha no balanço qual o volume financeiro negociado com os fornecedores chineses, quais materiais específicos são importados, que participação esses itens representam no custo total de um apartamento ou qual é a economia real gerada pela operação. Outros registros públicos, contudo, mostram que não se trata apenas de uma menção genérica.
Em 2026, a MRV abriu em Belo Horizonte uma vaga corporativa específica para “Analista de Homologação de Materiais Internacionais (China)”. Entre as atribuições do cargo estavam qualificar fornecedores brasileiros e chineses, analisar amostras, acompanhar testes laboratoriais, conferir certificações internacionais e verificar se os produtos importados atendem rigidamente às normas da ABNT aplicáveis à construção civil.
A descrição da vaga também previa contato direto com os fabricantes chineses, realização de auditorias (remotas e presenciais) e participação em projetos de expansão do global sourcing. O domínio do idioma mandarim aparecia como conhecimento desejável, enquanto o inglês avançado era requisito obrigatório.
Há mais vestígios digitais da atuação da empresa no país asiático. Em uma publicação profissional recente, Daniel de Oliveira Teles, executivo de Global Sourcing da MRV&CO, relatou uma viagem de duas semanas à China dedicada a reuniões estratégicas com fornecedores em Guangzhou e Xangai. Segundo o executivo, os representantes da construtora realizaram 17 visitas a companhias e fábricas, além de participarem ativamente da Canton Fair, uma das maiores feiras comerciais do mundo.
Escala de produção transforma centavos em milhões

A busca internacional por fornecedores ganha peso devido ao modelo industrial fordista adotado pela construtora mineira. Uma empresa que produz mais de 40 mil unidades em um único ano tem a capacidade de multiplicar reduções de poucos centavos no custo unitário de um item por dezenas de milhares de apartamentos, resultando em uma economia formidável na última linha do balanço.
A construtora apoia sua estratégia de produção em quatro frentes: redução do número de SKUs (itens de estoque diferentes), ganho de produtividade nos canteiros, custos controlados abaixo da inflação e uso de processos padronizados. A operação chinesa faz parte dessa engrenagem de contenção de despesas.
O resultado financeiro evidencia o sucesso do modelo. A margem bruta da MRV Incorporação bateu 31,2% no segundo trimestre — o maior nível registrado pela empresa nos últimos sete anos. Para as vendas mais recentes, a administração já projeta trabalhar com uma margem de rentabilidade próxima aos 35%.
Evidentemente, o salto na margem não pode ser creditado exclusivamente ao procurement internacional. A companhia atribui o avanço a uma combinação de fatores: terrenos adquiridos em condições vantajosas, aumento nos preços finais de venda e maior produtividade. Em 2026, por exemplo, 93% das novas áreas adquiridas pela MRV (landbank) entraram via permutas, o que estanca a necessidade de desembolso imediato de caixa.
A complexa cadeia de fornecedores é, sem dúvida, um dos maiores riscos do negócio. No Formulário de Referência de 2025, a MRV destacou sua dependência de uma ampla rede terceirizada para tocar as obras e alertou para a concentração de fornecedores em categorias críticas, como alumínio e metal.


