A Gasmig apresentou ao mercado financeiro o seu balanço referente ao segundo trimestre de 2026, revelando números que, em uma leitura superficial, parecem profundamente contraditórios. A receita líquida da distribuidora mineira despencou 42,4%, fechando o período em R$ 496,4 milhões, e o lucro líquido acompanhou o viés de baixa, caindo 36,4% para a marca de R$ 95,9 milhões.
Apesar dessas retrações expressivas na última linha do balanço, um indicador operacional chamou a atenção dos analistas: a margem Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) saltou de 28,3% para 41,5%. Esse avanço significativo de 13,2 pontos percentuais em um intervalo de apenas um ano não é obra do acaso, tampouco fruto exclusivo de um choque de gestão ou cortes agressivos de despesas administrativas.
A verdadeira explicação para esse “milagre” contábil reside em uma transformação estrutural do mercado de gás natural em Minas Gerais. Os grandes consumidores industriais do estado estão abandonando o mercado cativo em direção ao mercado livre. Nesse novo ambiente regulatório, as indústrias ganham a liberdade de comprar a molécula de gás diretamente de outros fornecedores e produtores, mas continuam utilizando, obrigatoriamente, a rede de dutos da Gasmig para o transporte físico do insumo até suas fábricas.
Mercado livre já representa mais de 60% do gás distribuído no estado
Para compreender a metamorfose do balanço da Gasmig, controlada em 99,57% pela Cemig, é preciso separar as atividades de comercialização e distribuição. No mercado cativo tradicional, a estatal mineira compra o gás, embute sua margem e o revende, fazendo com que o custo altíssimo da molécula transite integralmente por sua receita bruta. No mercado livre, esse custo sai do balanço da Gasmig, que passa a ser remunerada essencialmente pela tarifa de uso do sistema de distribuição (a infraestrutura logística).
Os volumes físicos atestam a dimensão e a velocidade dessa migração. No segundo trimestre de 2025, a Gasmig distribuiu 276,99 milhões de metros cúbicos (m³) de gás natural, sendo apenas 81,59 milhões destinados ao mercado livre. Um ano depois, no 2T26, o volume total distribuído encolheu 17% (para 229,85 milhões de m³), mas a parcela direcionada ao mercado livre saltou para impressionantes 143,26 milhões de m³.
Com essa inversão, a fatia livre passou a representar 62,3% de todo o volume distribuído pela companhia (contra apenas 29,5% um ano antes). O movimento foi encabeçado pela indústria, o motor tradicional do consumo de gás em Minas. O volume consumido pela indústria no ambiente cativo despencou 60% (de 174,79 milhões para 69,90 milhões de m³). Na via contrária, o consumo industrial no ambiente livre explodiu 125,5% (saltando de 58,90 milhões para 132,85 milhões de m³).
A matemática que eleva a margem percentual
Mas, afinal, por que a margem de rentabilidade sobe se o mercado livre gera menos receita nominal? A resposta está na eliminação do custo de aquisição da molécula no cálculo do denominador.
Imagine um cenário ilustrativo de venda de gás no mercado cativo onde R$ 100 são lançados como receita, mas R$ 80 são utilizados imediatamente pela distribuidora para pagar o produtor da molécula. A receita bruta é alta, mas a margem retida é estreita. Quando o cliente industrial migra para o mercado livre, ele negocia os R$ 80 diretamente com o produtor. A Gasmig passa a faturar apenas a sua taxa de transporte (os R$ 20, por exemplo), eliminando a receita total anterior, mas garantindo uma margem limpa muito maior sobre o serviço prestado na tubulação.
Foi exatamente isso que ocorreu no balanço do 2T26. Enquanto a receita líquida retraiu 42,4%, os custos operacionais da distribuidora derreteram em um ritmo mais intenso: 52,7%. Com a base de custos caindo mais rápido que as receitas, o lucro bruto recuou apenas 17,5% e o Ebitda nominal caiu 15,4% (passando de R$ 243,5 milhões para R$ 205,9 milhões). Matematicamente, a margem (a proporção do Ebitda em relação à receita que restou) dispara, atingindo os 41,5%.
Portanto, essa alta não atesta apenas que a estatal ficou mais eficiente de um ano para o outro. Trata-se de um forte efeito de mix e contabilização: sai a receita bilionária da revenda, entra a receita pura e concentrada de aluguel de infraestrutura.
Gasmig atinge recorde de clientes com foco residencial e comercial
A transformação do perfil comercial da Gasmig também se evidencia na base de usuários pulverizados. A despeito da queda de 17% no volume global de gás distribuído, a companhia finalizou junho com 113.057 clientes conectados, registrando uma alta de 5,9% no período de 12 meses.
Esse crescimento foi alavancado pelas adições de varejo. O segmento residencial conectou cerca de 6,3 mil novos consumidores (embora o volume físico consumido pelas residências tenha recuado 5,2% no trimestre devido a questões de sazonalidade e temperatura). O segmento comercial também apresentou um desempenho vigoroso, crescendo 10,2% em volume (passando de 6,16 milhões para 6,79 milhões de m³). O setor automotivo (GNV), por sua vez, encolheu 17,4%.
Vale destacar que nem toda a perda de volume da empresa tem relação direta com a abertura do mercado livre. O consumo nas usinas termelétricas sofreu uma queda drástica de 75,9%, despencando de 20,1 milhões para apenas 4,85 milhões de m³, o que impactou severamente o volume físico geral de distribuição no trimestre.
Expansão da infraestrutura: o Projeto Centro-Oeste
Independente da metamorfose em seu modelo de faturamento, o balanço atesta que o negócio de infraestrutura exige aportes de capital milionários e contínuos. A Gasmig investiu R$ 38 milhões no segundo trimestre, acumulando desembolsos de R$ 92 milhões na primeira metade de 2026.
A companhia implantou 55,3 quilômetros de novos gasodutos até junho (23,8 km construídos apenas entre abril e junho). O grande destaque da engenharia da estatal neste ano é o Projeto Centro-Oeste, que absorveu R$ 49,5 milhões do orçamento semestral.
A primeira etapa do projeto já foi posta em operação, integrando uma política estratégica de expansão que visa interiorizar a oferta de gás canalizado para fomentar novos polos industriais na região central e oeste do território mineiro. Paralelamente às obras, a dívida líquida da distribuidora recuou 7,1%, caindo para R$ 1,22 bilhão.
O balanço do 2T26 entrega a fotografia mais clara da nova era da Gasmig. Trata-se, hoje, de uma empresa que contabiliza muito menos receita porque parou de transacionar o insumo em nome das grandes indústrias. Contudo, sua rede de tubulações subterrâneas que corta o Estado continua sendo a artéria indispensável e rentável por onde a energia flui, provando que uma queda de 42% na receita pode conviver perfeitamente com uma rentabilidade superior a 40%.


