A Gasmig concluiu sua maior chamada pública para contratação de biometano e selecionou a empresa Geomit para fornecer o combustível renovável no Triângulo Mineiro. O contrato terá vigência de dez anos, investimento estimado em cerca de R$ 1 bilhão e implantação de aproximadamente 400 quilômetros de gasodutos na região. A assinatura está prevista para ocorrer ainda em junho, em Uberaba. O fornecimento deve começar em abril de 2028, após as etapas de licenciamento, autorizações regulatórias e construção da infraestrutura de escoamento.
A Geomit é uma joint venture formada pela Mitsui Gás e Energia do Brasil e pela Geo Bio Gas&Carbon. A chamada pública, lançada pela Gasmig em maio com objetivo de contratar até 250 mil metros cúbicos por dia de gás renovável produzido em Minas, atraiu 11 empresas e recebeu 27 propostas — volume que indica interesse crescente do mercado no biometano como negócio de escala.
Por que o Triângulo Mineiro foi escolhido
A escolha da região não foi arbitrária. O Triângulo Mineiro concentra alguns dos insumos mais importantes para a cadeia do biometano: agropecuária intensa, usinas sucroenergéticas, suinocultura, avicultura, laticínios, frigoríficos e indústrias com geração constante de resíduos orgânicos. O que representa custo de manejo ou passivo ambiental para produtores e agroindústrias pode se tornar matéria-prima energética dentro dessa cadeia.
Municípios como Uberaba, Uberlândia, Indianópolis e Araxá estão entre os que devem ser atendidos pela infraestrutura prevista no projeto. A região combina produção agropecuária em escala, presença industrial, logística e demanda energética — combinação que favorece tanto a produção quanto o consumo do gás renovável.
Para produtores rurais e agroindústrias, o projeto abre uma nova fonte de receita. Resíduos que antes exigiam tratamento, armazenamento ou descarte podem alimentar plantas de biogás e gerar retorno financeiro. Para indústrias consumidoras, o atrativo é acessar um gás com menor pegada de carbono, capaz de contribuir com metas ambientais e reduzir dependência de combustíveis fósseis.
Como resíduo orgânico se transforma em biometano
O biometano é produzido a partir do biogás, gerado pela decomposição de matéria orgânica em ambientes controlados — biodigestores, sistemas ligados a aterros sanitários, efluentes industriais e resíduos agroindustriais. Após um processo de purificação, o biogás passa a ter composição próxima à do gás natural convencional e pode ser usado em indústrias, frotas de veículos, redes de distribuição e geração de energia.
As fontes possíveis no campo incluem dejetos de suínos e aves, vinhaça da cana-de-açúcar, lodo, efluentes de laticínios e frigoríficos, além de outros resíduos agroindustriais. Em vez de liberar metano diretamente na atmosfera sem aproveitamento, o processo captura esse gás, trata e converte em combustível com valor comercial.
A Gasmig afirma que o biometano pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel. A chamada pública também previu a precificação do atributo verde do produto, conectando o negócio a garantias de origem e ao mercado de carbono — elemento que amplia o valor da commodity além do simples fornecimento energético.
O papel da regulação federal e o contexto nacional
O projeto no Triângulo Mineiro ganha impulso adicional com a Lei do Combustível do Futuro, que estabelece incorporação mínima progressiva de biometano ao consumo de gás natural no Brasil a partir de 2026. A regulamentação federal cria demanda obrigatória e tende a elevar o interesse de empresas pelo combustível renovável nos próximos anos.
O Brasil tem potencial para ampliar muito a produção de biogás e biometano, dada a escala da agropecuária e a geração de resíduos urbanos e industriais. O desafio, que o contrato com a Geomit começa a enfrentar, é transformar esse potencial em plantas instaladas, contratos formalizados, redes de transporte e consumidores conectados.
Os 400 quilômetros de gasodutos previstos no projeto mostram que a infraestrutura física será o investimento central da operação. A chamada pública também admitia soluções de gasoduto virtual, com transporte rodoviário, como alternativa para fases intermediárias — mas a rede física garante estabilidade de fornecimento e viabiliza a conexão de consumidores industriais de forma contínua.
O que muda para Minas e o que ainda está por construir
Minas Gerais já havia entrado na agenda da transição energética por meio da energia solar, do lítio, das terras raras e do debate em torno do hidrogênio verde. O biometano adiciona uma frente diferente: energia renovável gerada a partir de resíduos produzidos localmente, em fazendas, usinas, frigoríficos e indústrias que já operam no interior do estado.
Para o Triângulo Mineiro, o projeto pode movimentar construção civil, engenharia, licenciamento ambiental, fabricantes de equipamentos e operadores logísticos ainda antes do início do fornecimento. O impacto econômico mais amplo, porém, depende da execução dentro dos prazos previstos.
A previsão de início em abril de 2028 indica que há um caminho técnico e regulatório relevante pela frente. A seleção da Geomit representa a conclusão de uma etapa — a chamada pública — e o início de outra: contrato assinado, infraestrutura a construir, prazo a cumprir. O biometano mineiro saiu da fase da promessa e entrou na fase do projeto. A diferença entre as duas será medida nos próximos dois anos.





