A Gasmig colocou Minas Gerais no radar de gigantes globais e grupos nacionais em uma disputa bilionária por biometano. A chamada pública aberta pela companhia para contratar gás renovável atraiu 11 grupos, 27 propostas e nomes de peso como a britânica BP, a japonesa Mitsui e a Logás, empresa recentemente adquirida pela J&F, holding dos irmãos Batista.
O movimento mostra que o biometano deixou de ser uma promessa ambiental distante e passou a ser ativo estratégico para energia, agronegócio, logística e indústria. A Gasmig quer comprar até 250 mil metros cúbicos por dia do combustível renovável produzido em Minas Gerais e entregue no Triângulo Mineiro, em contratos de dez anos.
A operação tem potencial de movimentar até R$ 1 bilhão em investimentos e criar uma nova cadeia econômica no estado. O ponto central é simples: resíduos da agropecuária, da indústria e de aterros podem virar gás renovável, substituir parte do gás fóssil e ajudar empresas a reduzir emissões.
A entrada de grupos como BP, Mitsui e J&F muda a escala da pauta. Não se trata apenas de um edital estadual. É um sinal de que Minas pode disputar espaço em um mercado que combina transição energética, segurança de suprimento, carbono, agronegócio e infraestrutura.
Quem entrou na disputa pelo biometano da Gasmig
Entre os grupos que apresentaram propostas estão empresas com perfis diferentes. A BP chega com peso global no setor de energia. A Mitsui aparece por meio da GeoMit, joint venture com a paranaense Geo bio gas&carbon. A Logás, ligada à J&F após aquisição aprovada pelo Cade, representa a entrada dos irmãos Batista no radar da chamada.
Também aparecem na disputa nomes como Gás Verde, Solví, Bioo e Regera, além de gestoras e empresas já posicionadas no mercado de resíduos, carbono e energia renovável.
Essa diversidade é relevante porque o biometano nasce justamente da interseção entre setores. Ele pode vir de resíduos agropecuários, vinhaça, dejetos de suínos e aves, lodo, aterros sanitários, resíduos urbanos e efluentes industriais. Depois de purificado, passa a ter características próximas às do gás natural.
Para a Gasmig, o desafio é montar uma carteira de fornecedores capaz de garantir volume, regularidade, preço competitivo e entrega logística. Para as empresas, o contrato com uma distribuidora estadual cria previsibilidade de receita, algo essencial para financiar plantas de biogás e biometano.
Por que o Triângulo Mineiro virou prioridade
A chamada da Gasmig tem foco no Triângulo Mineiro porque a região reúne três fatores decisivos: forte agronegócio, grande geração de resíduos orgânicos e demanda industrial concentrada.
O Triângulo tem usinas sucroenergéticas, produção agropecuária, avicultura, suinocultura, laticínios, indústrias, centros logísticos e cidades com consumo potencial de gás. Isso cria uma combinação rara: matéria-prima para produzir biometano e mercado para consumir o combustível.
A Gasmig prevê que o produto seja entregue na região, com possibilidade de uso de gasoduto virtual. Nesse modelo, o gás é comprimido ou liquefeito e transportado por caminhões até os pontos de consumo antes da conclusão de uma rede física de dutos.
Esse detalhe é importante porque reduz o tempo entre investimento e geração de receita. Em vez de esperar anos por infraestrutura completa, produtores podem começar a vender o gás por transporte rodoviário enquanto a expansão da rede avança.
Gás verde pode virar nova frente do agro mineiro
O biometano muda a lógica tradicional do resíduo no campo. O que antes era passivo ambiental pode virar insumo energético e fonte adicional de renda.
Dejetos da pecuária, resíduos da cana, restos industriais e matéria orgânica podem alimentar biodigestores. O biogás gerado nesse processo é purificado até virar biometano. A partir daí, pode ser usado em indústrias, veículos pesados, geração de energia ou injetado em redes de distribuição.
Para produtores rurais e agroindústrias, a oportunidade está em transformar custo ambiental em negócio. Para Minas, o ganho potencial está em criar uma cadeia descentralizada, com plantas menores espalhadas pelo interior, conectadas por contratos de longo prazo e logística regional.
É por isso que o presidente da Gasmig, Gustavo De Marchi, comparou o biometano à geração distribuída do setor de gás. A ideia é que diferentes produtores possam gerar molécula renovável localmente, de forma parecida com o avanço das pequenas usinas solares no setor elétrico.
A diferença é que a Gasmig tenta evitar uma expansão baseada apenas em subsídios. A companhia fala em incentivos corretos, facilitação de licenciamento, regulação e conexão entre oferta e demanda.
Por que BP, Mitsui e J&F olham para esse mercado
O interesse de empresas grandes não acontece por acaso. O biometano combina três agendas que hoje pesam no mundo corporativo: energia mais limpa, rastreabilidade ambiental e segurança de suprimento.
Para a BP, o gás renovável se conecta à estratégia global de diversificação energética. Para a Mitsui, há sinergia com infraestrutura, commodities, logística e projetos de baixo carbono. Para a J&F, a entrada via Logás reforça uma movimentação no segmento de gás natural e biometano fora da rede tradicional, com transporte e distribuição off-grid.
No caso dos irmãos Batista, o tema ganha ainda mais relevância porque o grupo atua em alimentos, energia, celulose, mineração e outros setores intensivos em logística e insumos. A combinação entre resíduos, gás renovável e transporte pesado pode abrir uma frente estratégica dentro do próprio portfólio da holding.
A presença desses grupos também aumenta a competição. A Gasmig já finalizou o ranqueamento das propostas e iniciou negociação com o detentor da melhor condição apresentada. A expectativa é de anúncio do possível vencedor e assinatura do contrato em julho de 2026.


