A Gasmig manteve sem reajuste as tarifas do gás natural destinado às indústrias e aos postos de GNV em Minas Gerais. Para uma indústria com consumo mensal de 350 mil metros cúbicos, o valor de referência continua em aproximadamente R$ 3,3284 por m³. No segmento veicular, a tarifa permanece em R$ 2,9676 por m³.
O congelamento dá previsibilidade aos consumidores durante o trimestre, mas não significa que todos os componentes da conta ficaram imunes a alterações futuras. O custo do gás natural depende da molécula comprada pela Gasmig, das tarifas de transporte, dos contratos firmados com diferentes fornecedores, de índices internacionais e do câmbio. No GNV, o preço cobrado pelo posto ainda incorpora sua própria margem e os tributos incidentes.
Também é necessário fazer uma distinção: os R$ 3,3284 da indústria e os R$ 2,9676 do GNV não representam somente a margem de distribuição da Gasmig. Eles são tarifas reguladas de fornecimento, antes da incidência dos tributos e de eventuais encargos contratuais. A margem cobrada pelo uso e pela comercialização da rede aparece separadamente em outro anexo da resolução da Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais, a Arsae-MG.
Os R$ 3,3284 não são apenas margem da Gasmig
A Resolução Arsae-MG nº 231, publicada em 30 de julho, manteve as mesmas tarifas que estavam em vigor desde maio para os segmentos industriais, de cogeração, GNV e gás natural comprimido ou liquefeito. A regra passou a valer em 1º de agosto e deve orientar o próximo ciclo trimestral.
No caso industrial, a cobrança funciona por uma estrutura em cascata. Cada faixa de consumo tem um valor próprio, ao qual se soma a parcela de demanda. Por isso, o preço médio de R$ 3,3284 por m³ para um consumidor de 350 mil m³ mensais não aparece como uma única linha da tabela: ele resulta da soma proporcional das diferentes faixas.
Uma indústria que consumisse exatamente esse volume teria uma despesa tarifária de referência próxima de R$ 1,165 milhão no mês, antes de tributos, encargos financeiros e condições específicas do contrato. O cálculo serve como exemplo e não substitui a fatura efetiva de cada consumidor.
A margem média de distribuição para um cliente industrial cativo com esse perfil fica em aproximadamente R$ 0,9857 por m³, segundo cálculo do Moon BH baseado na tabela da Arsae-MG. Ela representa perto de 29,6% da tarifa industrial de referência. Os outros 70,4% estão associados principalmente à compra da molécula, ao transporte e aos demais componentes reconhecidos pela regulação.
No GNV, a diferença é ainda mais clara. A tarifa regulada está em R$ 2,9676 por m³, mas a margem de distribuição para o cliente cativo é de R$ 0,6251. A parcela da Gasmig corresponde, portanto, a aproximadamente 21% do valor regulado antes dos tributos.
O motorista não deve esperar encontrar exatamente R$ 2,9676 nas placas dos postos. Esse é o valor da tarifa aplicada no fornecimento ao segmento veicular. O preço final da bomba inclui a margem definida por cada revendedor, além dos impostos e de outros custos comerciais. A Petrobras também ressalta que o valor ao consumidor não é determinado apenas pela molécula, mas por transporte, distribuição, portfólio de suprimento, revenda e tributação.
Petrobras influencia, mas não decide sozinha
A Petrobras continua entre os fornecedores da Gasmig e mantém um contrato firme inflexível com vigência até dezembro de 2028. A documentação regulatória de 2026 indica volume contratado de 71.162 m³ por dia depois de sucessivos aditivos relacionados à migração de indústrias para o mercado livre.
Isso não significa, entretanto, que a tarifa mineira dependa exclusivamente da estatal. A Gasmig também possui contratos com a portuguesa Galp e com a norueguesa Equinor. Na nota técnica utilizada para estruturar as tarifas de 2026, foram considerados 757.253 m³ diários da Galp, 121.990 m³ da Equinor e 71.162 m³ da Petrobras, além de volumes destinados a projetos de interiorização.
Nesse conjunto de volumes considerados no cálculo regulatório, a Petrobras respondia por menos de 8% do total dos três principais contratos de suprimento. A exposição mineira está mais diversificada do que a ideia de uma dependência integral da estatal sugere.
O contrato da Galp passou a ter o preço vinculado ao Henry Hub, referência do mercado norte-americano de gás, a partir de 2026. O contrato com a Equinor utiliza uma combinação entre o Henry Hub e o petróleo Brent. A própria Petrobras também passou a oferecer contratos com alternativas de indexação, enquanto seus contratos tradicionais acompanham Brent e câmbio.
A tarifa mineira pode ser afetada, portanto, pelo dólar, pela cotação do petróleo, pelo preço do gás nos Estados Unidos e pelas tarifas dos transportadores. A Arsae-MG calcula um custo médio ponderado, multiplicando o preço de cada contrato pelo volume previsto para o período.
Além da molécula, a estrutura considera a parcela de transporte, perdas reconhecidas, encargos de capacidade, custos dos projetos de interiorização e uma conta compensatória. Essa conta registra diferenças entre o que a Gasmig estimou cobrar e o que efetivamente pagou pelo gás e pelo transporte, permitindo que saldos sejam devolvidos ou cobrados nos ciclos posteriores.
Por que a conta ainda pode mudar
Os segmentos industrial e veicular fazem parte do chamado mercado não urbano, cujas tarifas são atualizadas normalmente em fevereiro, maio, agosto e novembro. Assim, o próximo reajuste ordinário tende a ocorrer em novembro de 2026. A resolução também permite que a Gasmig solicite uma revisão extraordinária caso ocorram variações capazes de comprometer o equilíbrio econômico-financeiro da concessão.
O congelamento de agosto evita um novo aumento depois do reajuste aplicado em maio. Na ocasião, a referência industrial de 350 mil m³ passou de R$ 3,2693 para R$ 3,3284 por m³, enquanto o GNV avançou de R$ 2,9086 para R$ 2,9676. As altas ficaram próximas de 2%.
Para as indústrias de Minas, a decisão reduz a necessidade de revisar imediatamente orçamentos de energia, custos de produção e contratos de venda. Ela não garante, contudo, estabilidade permanente. Uma valorização do dólar ou uma alta das referências internacionais pode elevar o custo médio de aquisição e aparecer na atualização seguinte.
Os grandes consumidores ainda possuem a possibilidade de migrar para o mercado livre, negociando a molécula diretamente com fornecedores e pagando à Gasmig a tarifa pelo uso da rede de distribuição. A própria companhia informou que parte das indústrias mineiras já fez essa transição, reduzindo os volumes mantidos em contratos destinados ao mercado cativo.
Até novembro, os principais indicadores serão o comportamento do Brent, do Henry Hub, do dólar e das tarifas de transporte. O reajuste zero protege a conta no trimestre atual, mas o custo do gás em Minas continua ligado a uma cesta de contratos e referências internacionais — e não apenas à margem definida pela Gasmig ou às decisões da Petrobras.


