O varejo alimentar decidiu não esperar o Congresso para testar novos modelos de trabalho. O acordo do Grupo Koch para avançar no fim da escala 6×1 em Santa Catarina virou mais um sinal desse movimento, que interessa diretamente a Minas Gerais. No estado, redes como Supernosso e Verdemar já começaram a reorganizar horários, folgas e funcionamento de lojas enquanto a PEC da jornada de 40 horas segue no Senado.
A discussão não é pequena. O varejo supermercadista mineiro deve movimentar mais de R$ 139 bilhões em 2026.
Durante meses, o fim da escala 6×1 foi tratado por parte do empresariado como uma ameaça distante, dependente de Brasília. Só que o problema chegou antes da lei. Contratar ficou mais difícil. Reter funcionário virou disputa. E trabalhar seis dias por semana passou a pesar na decisão de quem aceita ou recusa uma vaga, especialmente entre os mais jovens.
Para as empresas, o custo da rotatividade também ficou mais visível. Contratar, treinar, perder o funcionário e reabrir a vaga se tornou uma despesa recorrente que o setor passou a querer reduzir.
Supernosso virou teste mineiro para a escala 5×2
O caso mais direto em Belo Horizonte é o do Grupo Supernosso. A rede começou a testar a escala 5×2 em março, inicialmente em três lojas, com cerca de 500 funcionários. A jornada diária aumentou para compensar o segundo dia de folga, mas a carga semanal foi mantida em 44 horas.
O resultado, segundo executivos da rede, foi positivo. Em entrevista à Itatiaia, Jorge Feliciano, diretor de Gente & Gestão do Supernosso, afirmou que o projeto se tornou irreversível e que não houve necessidade de demissões, novas contratações ou aumento de custos. A segunda fase começou em junho, com mais 13 unidades no modelo 5×2, incluindo lojas Apoio Mineiro e Supernosso em diferentes regiões da capital. A previsão do grupo é levar o formato às demais unidades ainda em 2026.

O avanço chama atenção porque o Supernosso é uma rede de perfil urbano, com lojas em áreas de maior renda, unidades de vizinhança e bandeiras de atacarejo. Se a escala 5×2 funciona em formatos diferentes, a tese ganha força: o desafio não é apenas abrir ou fechar domingo, mas redesenhar escala, horário, equipe e atendimento.
Já o Verdemar, marca premium de BH, foi por outro caminho e criou uma escala em que os funcionários têm 15 dias de folga no mês, trabalhando em uma escala alternada (veja como funciona, aqui).
Supermercados BH olha para o domingo
O Supermercados BH entrou no debate por outro caminho. Pedro Lourenço, fundador da rede, disse à Folha que sonha com lojas fechadas aos domingos e relatou que a experiência no Espírito Santo, onde o grupo tem 44 lojas sob convenção estadual, reduziu em 10% a rotatividade no primeiro mês.
A fala não significa que todas as lojas mineiras vão fechar aos domingos agora. O próprio empresário reconhece o peso operacional da mudança e o risco de custo se a jornada for reduzida sem transição bem planejada.
Ainda assim, o recado é relevante. A quarta maior rede supermercadista do Brasil, nascida em Minas, trata o domingo como parte da solução para reduzir turnover e atrair trabalhadores.
O que aproxima Minas de Santa Catarina
Em todos os casos, as redes tentam evitar uma mudança feita no escuro. O Grupo Koch usou uma nova loja em São Bento do Sul como laboratório, primeiro com jornada diferenciada e depois com acordo sindical para reduzir a carga de 44 para 40 horas semanais, mantendo salário e duas folgas.
O Supernosso começou por unidades selecionadas. O Supermercados BH observa a experiência capixaba antes de tentar empurrar o tema em Minas. A lógica é a mesma: testar antes de generalizar. A pressão vem de dois lados. Para os trabalhadores, a escala 6×1 é cada vez menos atraente, principalmente para jovens que buscam tempo de estudo ou renda complementar nas folgas. Para as empresas, o custo da rotatividade tornou o modelo antigo menos sustentável.
O que a PEC pode mudar
A adaptação das redes acontece enquanto o Senado analisa a PEC aprovada pela Câmara que acaba com a escala 6×1. O texto prevê jornada de 40 horas semanais em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial, com transição de 14 meses.
A proposta ainda precisa ser votada em dois turnos no Senado. Se houver alteração, volta para a Câmara. Por isso, nada muda automaticamente para os supermercados mineiros neste momento.


