O empresário Pedro Lourenço, amplamente conhecido como Pedrinho BH — dono da SAF do Cruzeiro e fundador do Supermercados BH —, acaba de consolidar o movimento mais agressivo e ambicioso da história do varejo alimentar de Minas Gerais. A rede assinou um acordo definitivo de integração com a DMA Distribuidora, gigante dona das bandeiras EPA, Mineirão Atacarejo e Brasil Atacarejo.
A operação dará origem a um colosso nacional com aproximadamente 600 lojas ativas e um faturamento anual combinado estimado na casa dos R$ 35 bilhões. Mais do que uma expansão de pátio em solo mineiro, a fusão desenha um plano tático de invasão ao mercado do Nordeste, preparando o terreno para uma guerra de preços direta contra o poderoso Grupo Mateus.
O acordo societário foi firmado em abril e agora aguarda o aval regulatório do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Se aprovada sem restrições, a transação alterará profundamente a balança de poder do varejo brasileiro, transformando a potência puramente regional de Pedrinho em uma plataforma de abastecimento com capilaridade nacional.
A matemática da fusão: O salto no Ranking Abras 2026
No ecossistema dos supermercados e atacarejos, operar com margens esmagadas é a regra do jogo. Escala corporativa não serve para inflar a vaidade dos investidores; ela dita o poder de barganha junto à indústria de alimentos, dilui custos de frete logístico, reduz rupturas de estoque e viabiliza investimentos pesados em marcas próprias e tecnologia de dados.
Segundo o levantamento de mercado estruturado pelo Moon BH com base nos dados consolidados do Ranking Abras 2026, as planilhas contábeis das duas empresas revelam o tamanho do salto:
- Supermercados BH: Faturou R$ 25,724 bilhões em 2025, sustentando a sólida 4ª colocação do ranking nacional, atrás apenas de Carrefour, Assaí e Grupo Mateus.
- DMA Distribuidora: Ocupava a 14ª posição da listagem, registrando um faturamento robusto de R$ 8,908 bilhões.
- O novo gigante: A receita somada bate a marca de R$ 34,632 bilhões. A cifra projeta a rede mineira acima de concorrentes históricos do setor, como o GPA (Grupo Pão de Açúcar), o Grupo Muffato e a Rede Pereira (Comper/Fort Atacadista).
O mapa da DMA: A porta de entrada para a Bahia e o Nordeste
O Supermercados BH construiu sua reputação operando no modelo de proximidade, focando em bairros populares e expandindo-se agressivamente pelas cidades polo do interior de Minas e pelo Espírito Santo.
No entanto, para romper a barreira do mercado nordestino, Pedrinho necessitava de um mapa pronto. Fazer uma expansão orgânica do zero — abrindo loja por loja e disputando pontos comerciais em capitais saturadas — demandaria anos de maturação e um alto risco de rejeição de marca.
A incorporação da DMA resolve essa equação de forma imediata. A marca entrega uma capilaridade já testada em mercados de altíssima concorrência regional.
O Mineirão Atacarejo possui 46 unidades de grande porte instaladas e atende mais de 16 milhões de clientes por ano, com lojas consolidadas em municípios estratégicos do Nordeste.
Ao assumir o controle dessas operações, o Supermercados BH passa a controlar pontos comerciais valiosos na Bahia (em cidades turísticas e polos econômicos como Porto Seguro, Ilhéus e Eunápolis), em Pernambuco (Petrolina) e no Rio Grande do Norte (Natal). Trata-se da captura de uma operação ativa, com fornecedores regionais homologados e profundo conhecimento do comportamento de consumo local.
O campo de batalha contra o Grupo Mateus
A descida de Pedrinho BH rumo às praças do Nordeste não ocorrerá em um cenário de calmaria. A região converteu-se no campo de batalha mais sangrento do varejo alimentar do país, dominado de forma impositiva pelo Grupo Mateus.
O concorrente direto ostenta o 3º lugar do Ranking Abras, com faturamento de R$ 43,5 bilhões e um ecossistema que integra supermercados, atacarejos, centros de distribuição e até redes de eletrodomésticos.
Além do império maranhense, a nova rede mineira enfrentará a concorrência consolidada do Atacadão (Carrefour), do Assaí e de potências regionais em ascensão, como o Novo Atacarejo e o Atakarejo baiano.
Para vencer esse duelo, o BH precisará adaptar o seu sortimento de gôndolas. Tentar espelhar mecanicamente a cesta de consumo do interior de Minas Gerais em praças como Salvador ou Natal causará severas perdas operacionais; o sucesso do grupo dependerá da habilidade de fundir a sua disciplina fiscal com a inteligência cultural local.
O crivo do Cade e a concentração de mercado em Minas

O principal nó a ser desatado pela assessoria jurídica de Pedro Lourenço nas próximas semanas reside estritamente nas regras antitruste do governo federal. O Cade analisará minuciosamente o índice de concentração de mercado provocado pela fusão, com foco cirúrgico no estado de Minas Gerais.
Como o Supermercados BH já liderava o abastecimento mineiro com folga e a DMA detém forte participação com as bandeiras EPA e Mineirão, o órgão regulador avaliará se a união elimina a livre concorrência para o consumidor final em microrregiões específicas do estado.
É comum que transações desse porte exijam a aplicação de “remédios concorrenciais”, obrigando o grupo comprador a desinvestir ou vender pontos comerciais para concorrentes menores em praças onde a concentração ultrapassar os limites prudenciais da autarquia.
A aprovação integral do conselho é o gatilho que faltava para destravar o plano de expansão nacional de Pedrinho BH. O empresário, que já dita o ritmo do termômetro emocional do futebol de Minas Gerais através da gestão milionária da SAF do Cruzeiro, agora estende o seu império econômico para o estômago do consumidor brasileiro.
A fusão prova que, no tabuleiro do varejo alimentar de 2026, escala, agressividade de caixa e controle logístico valem mais do que qualquer tradição de balcão.


