O Grupo Martins, de Uberlândia, está usando inteligência artificial para modernizar uma parte da economia que o consumidor quase nunca vê, mas que está presente em boa parte do comércio do interior. A empresa, uma das maiores atacadistas distribuidoras do Brasil, passou a aplicar IA para acelerar vendas, automatizar solicitações e aumentar a produtividade da operação comercial.
O resultado já aparece nos números internos divulgados pela companhia. Com o uso das ferramentas, o Martins reduziu em 57% o tempo de conclusão das vendas, alcançou taxa de sucesso de 91% nas solicitações automatizadas e estima economizar 5.884 horas por ano.
A tecnologia entra em uma engrenagem que abastece mercearias, farmácias, supermercados pequenos, lojas de material de construção, bares, papelarias, mercados de bairro e comerciantes espalhados por cidades médias e pequenas. O consumidor não vê o nome Martins na fachada da loja, mas muitos produtos que chegam às prateleiras passam por essa cadeia.
Com faturamento de R$ 7,5 bilhões em 2025, o grupo mineiro ficou novamente entre os líderes nacionais do setor atacadista. A sede em Uberlândia ajuda a explicar essa força. A cidade se consolidou como ponto estratégico de distribuição por estar bem conectada ao Sudeste, Centro-Oeste e parte do Norte e Nordeste, com forte vocação logística.
IA no atacado mineiro muda a venda no interior
No atacado distribuidor, vender não é apenas tirar pedido. O representante precisa entender o perfil do cliente, sugerir mix de produtos, calcular preço, acompanhar estoque, lidar com crédito, negociar prazo e garantir que a entrega faça sentido para aquela loja.
A inteligência artificial começa a entrar exatamente nessa rotina. Ela ajuda a organizar dados, reduzir etapas manuais, automatizar solicitações repetitivas e dar mais agilidade ao fechamento de pedidos. Para o comerciante pequeno, isso pode significar atendimento mais rápido, reposição mais previsível e menos tempo perdido entre cotação, aprovação e entrega.
Essa mudança tem peso porque o pequeno varejo vive de giro. Uma mercearia de bairro não pode ficar sem arroz, café, leite, biscoito, produtos de limpeza ou itens de higiene. Quando a reposição atrasa, a venda vai embora. Quando o estoque é mal montado, o dinheiro fica parado na prateleira.
O Martins tenta usar tecnologia para diminuir esse ruído. A empresa atende um público que muitas vezes não tem estrutura própria de compras, sistemas sofisticados ou negociação direta com grandes indústrias. Nesse caso, o atacadista funciona como ponte entre a indústria e o comércio local.
A IA, portanto, não aparece como algo distante ou futurista. Ela entra em uma decisão simples: qual produto oferecer, em qual quantidade, em qual momento e com qual condição para cada cliente.
Uberlândia virou potência do atacado invisível
O caso do Martins mostra por que Minas tem um peso relevante no atacado nacional. O estado tem empresas que atuam longe do consumidor final, mas sustentam o abastecimento de milhares de negócios. São galpões, caminhões, centros de distribuição, plataformas digitais, equipes comerciais e sistemas de crédito operando por trás da rotina do comércio.
Uberlândia é o melhor exemplo dessa força. A cidade cresceu como polo logístico e comercial justamente por estar em posição privilegiada para alcançar diferentes regiões do país. Essa localização, somada a décadas de atuação do Martins, transformou o grupo em uma espécie de infraestrutura privada do pequeno varejo.
A modernização por IA também sinaliza uma mudança no setor. O atacado que antes dependia quase exclusivamente de vendedores de campo, catálogos e relacionamento pessoal agora combina presença física com marketplace, dados, automação e inteligência comercial.
Isso não elimina o papel do vendedor. Em muitas cidades, o relacionamento continua sendo decisivo. O que muda é o tipo de apoio que esse profissional passa a ter. Com dados melhores, ele pode chegar ao cliente sabendo o que falta, o que gira mais, qual categoria cresce e onde há oportunidade de venda.
Para Minas, o avanço interessa porque mostra uma empresa tradicional do estado tentando competir em um setor cada vez mais tecnológico. O atacado distribuidor enfrenta pressão de marketplaces, grandes redes, aplicativos, indústria vendendo direto e consumidores mais sensíveis a preço. Quem reduzir custo e ganhar velocidade terá vantagem.
O Martins segue como uma das potências invisíveis da economia mineira porque abastece a ponta que aparece ao consumidor. A IA entra agora como mais uma camada dessa operação. A loja do bairro continua vendendo no balcão, mas parte da inteligência que ajuda a manter a prateleira cheia pode estar rodando em sistemas de dados em Uberlândia.


