A Vale (VALE3) inaugurou em Itabira uma usina que simboliza duas realidades ao mesmo tempo. De um lado, a cidade mineira foi colocada no centro da nova fase tecnológica da mineração, com inteligência artificial, sensores, automação e dados em tempo real. De outro, segue diante de uma pergunta que atravessa décadas: como reduzir a dependência de uma empresa que nasceu ali e ainda sustenta parte decisiva da economia local?
A planta Conceição 2 foi modernizada com investimento de R$ 200 milhões e passou a ser tratada pela companhia como sua primeira unidade de alta tecnologia com inteligência artificial aplicada a todas as etapas operacionais. A usina tem capacidade de 11,2 milhões de toneladas por ano e, segundo a empresa, já gerou ganho de produtividade de 25% desde o início do projeto piloto.
A tecnologia impressiona pelos números. A unidade recebeu mais de 100 câmeras, cerca de 7.300 instrumentos automatizados, sensores e sistemas capazes de acompanhar centenas de variáveis durante o beneficiamento do minério. A operação passa a ajustar processos com mais precisão, reduzir perdas e identificar desvios antes que eles comprometam a produção.
Mas, em Itabira, qualquer investimento da Vale carrega um peso maior do que em outras cidades mineradoras. A relação entre município e companhia é histórica, econômica e emocional. A cidade de Carlos Drummond de Andrade é também o berço simbólico da mineradora. Desde 1942, quando a então Companhia Vale do Rio Doce iniciou suas atividades, a vida local passou a girar em torno do minério.
Vale investe em Itabira e prolonga vida útil das minas
A inauguração da Conceição 2 ocorre poucos meses depois de a Vale anunciar a ampliação da vida útil de suas minas em Itabira até 2053. A estimativa anterior apontava 2041. A mudança foi atribuída a avanços em pesquisa geológica, novas tecnologias de beneficiamento e melhor aproveitamento de materiais que antes não tinham viabilidade técnica ou econômica.
Esse ponto muda a leitura sobre o futuro da cidade. Durante anos, Itabira conviveu com a perspectiva de exaustão mineral em prazo relativamente curto. Agora, a Vale indica que permanecerá por mais tempo, mas sem prever aumento no volume anual de produção. A estratégia declarada é manter uma operação estável e longeva, não acelerar a extração.
Na prática, a empresa tenta fazer o minério durar mais. Isso reduz o risco de uma ruptura brusca na arrecadação e no emprego, mas também prolonga a dependência. Itabira ganha tempo, porém não ganha automaticamente uma nova base econômica.
A própria Vale afirma manter investimentos em desenvolvimento local, diversificação econômica e projetos estruturantes no município. Entre as iniciativas citadas pela companhia estão o projeto Rio Tanque, voltado à segurança hídrica, a parceria com a Unifei, investimentos em saúde, educação, cultura, meio ambiente e apoio ao plano Itabira Sustentável.
O Rio Tanque é um dos projetos mais relevantes. A empresa informa aporte de R$ 1,17 bilhão para garantir segurança hídrica a mais de 113 mil pessoas. Também cita R$ 160 milhões na parceria com a Unifei para novos prédios e implantação de um hub de inovação e tecnologia, além de cerca de R$ 20 milhões para apoio à ampliação do curso de Medicina da Funcesi.
Esses investimentos ajudam a sustentar a narrativa de legado. A questão é se serão suficientes para preparar Itabira para uma economia menos dependente da mineração.
Itabira ainda depende da mineração para respirar
A dependência de Itabira não é apenas simbólica. Em entrevista publicada em 2022 pelo Diário do Comércio, o prefeito Marco Antônio Lage afirmou que pelo menos 80% do orçamento municipal tinha origem em receitas ligadas à mineração, incluindo Cfem, ICMS, ISS e atividades econômicas impactadas pela operação mineral.
Esse dado explica por que a modernização da Conceição 2 interessa tanto à cidade. Uma usina mais eficiente pode manter arrecadação, preservar atividade industrial e sustentar empregos técnicos por mais tempo. Ao mesmo tempo, a automação muda o perfil da mão de obra e tende a exigir trabalhadores mais qualificados, ligados a dados, manutenção, controle remoto, sensores, inteligência artificial e processos digitais.
A mineração de Itabira deixa de ser apenas caminhão, britador e planta de beneficiamento. Passa a ser também algoritmo, câmera, centro de controle e análise em tempo real. Esse avanço pode abrir oportunidades para formação técnica e inovação local, mas também pressiona a cidade a preparar trabalhadores para uma mineração menos braçal.
O dilema é claro. A Vale investe para ficar mais tempo, produzir com mais eficiência e reduzir impactos. Itabira precisa usar esse prazo extra para criar alternativas reais fora do minério. Se a cidade apenas trocar uma previsão de fim por outra mais distante, o problema será adiado, não resolvido. Se a Vale sair de Itabira hoje, a cidade acaba amanhã.
Desde jovem, este repórter ouvia que morava em uma cidade sem futuro. Há um futuro, mas ele tem data. Em uma série de reportagens, o Moon BH vai mostrar o impacto da empresa na cidade. Algo que Carlos Drummond já abordava há décadas.
Leia também: Vale (VALE3) tem condenação mantida em Itabira.


