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A estratégia bilionária que uniu Pedrinho BH e Luciano Hang longe das capitais

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Pedro Lourenço, o Pedrinho BH, e Luciano Hang construíram fortunas em setores diferentes do varejo. Um cresceu vendendo alimento, produto de cesta básica, açougue, padaria e atacarejo. O outro ficou conhecido pelas megalojas da Havan, com departamentos, eletrônicos, casa, cama, mesa, decoração e uma fachada impossível de ignorar.

A semelhança entre os dois não está no produto. Está no mapa.

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Os dois entenderam antes de muita gente que o Brasil que compra não mora apenas nas capitais. Cidades médias, regiões metropolitanas, polos do interior e municípios vizinhos formaram a base de expansão de duas redes que cresceram sem tentar vencer, logo de cara, a guerra mais cara do varejo brasileiro: a disputa pelos endereços nobres das grandes capitais.

Pedrinho transformou o Supermercados BH em uma potência regional. A rede fundada por ele em Minas chegou ao 4º lugar no ranking nacional da Associação Brasileira de Supermercados, atrás apenas de Carrefour, Assaí e Grupo Mateus. O faturamento mais recente divulgado chegou a R$ 25,72 bilhões, com presença forte em Minas e avanço no Espírito Santo.

Luciano Hang, por sua vez, fez da Havan uma das varejistas mais conhecidas do país. A empresa nasceu em Brusque, Santa Catarina, e se espalhou pelo Brasil apostando em cidades médias e lojas grandes, muitas vezes fora dos centros urbanos mais disputados. Em 2025, a rede teve faturamento líquido recorde de R$ 13,7 bilhões e lucro líquido de R$ 3,45 bilhões, segundo a Forbes.

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O caminho dos dois ajuda a explicar uma mudança no varejo nacional. Durante muito tempo, crescer parecia sinônimo de ocupar capital, shopping, avenida premium e centro financeiro. Pedrinho e Hang seguiram uma rota diferente: foram atrás de mercados com menos glamour, menos concorrência direta e enorme demanda reprimida.

O Brasil fora das capitais virou motor de crescimento

No caso do Supermercados BH, a estratégia foi construída no chão da operação. A rede cresceu primeiro em bairros populares, periferias, cidades da Grande BH e municípios do interior. Em vez de tentar parecer sofisticada, ficou conhecida por preço, volume, proximidade e presença física.

Supermercado é um negócio de repetição. O cliente volta toda semana, às vezes mais de uma vez. Se a loja tem preço, sortimento, padaria, açougue, hortifrúti e estacionamento, ela vira parte da rotina do bairro ou da cidade. Foi nesse espaço que o BH ganhou escala.

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A rede não precisou vencer Pão de Açúcar ou Carrefour nos pontos mais caros de São Paulo ou do Rio. Cresceu onde conhecia o consumidor, onde a competição era mais fragmentada e onde a marca podia virar referência local. Em muitas cidades mineiras, o Supermercados BH passou a ocupar o lugar de rede grande, confiável e acessível.

Dono da Havan, Luciano Hang.
Foto: Divulgação

Hang fez algo parecido em outro formato. A Havan não virou gigante tentando ser uma loja de departamentos de shopping tradicional. Ela criou uma experiência própria: lojas enormes, estacionamento amplo, fachada chamativa, mix variado e presença em cidades onde uma única unidade consegue atrair consumidores de vários municípios ao redor.

Esse modelo funciona melhor onde o custo imobiliário é mais baixo e onde a loja vira destino. Em várias cidades do interior, ir à Havan não é apenas comprar um item específico. É passeio, consumo, comparação de preço e experiência de varejo. A famosa estátua da liberdade na entrada virou símbolo desse modelo espalhado por rodovias e polos regionais.

A lógica é parecida com a de grandes atacarejos, home centers e outlets: menos dependência de ponto nobre, mais área disponível, mais estacionamento, menor custo relativo e poder de atração regional.

Menos glamour, mais margem e escala

A decisão de crescer fora das capitais tem uma vantagem óbvia: custa menos. Aluguel, terreno, obra, estacionamento e operação tendem a ser mais viáveis do que nas áreas centrais das grandes cidades. Para redes de varejo físico, isso muda a matemática.

Em capitais, o varejista disputa os melhores pontos com farmácias, bancos, fast-foods, academias, redes internacionais, shoppings e incorporadoras. O custo sobe antes mesmo da loja abrir. No interior, a conta pode ser mais favorável, especialmente quando a marca consegue se tornar referência rapidamente.

Pedrinho usou essa vantagem para ganhar capilaridade. O BH cresceu abrindo lojas, comprando operações, convertendo bandeiras e ocupando mercados onde havia espaço para uma rede mais eficiente. A compra de unidades do Bretas em Minas e outros movimentos recentes mostram como a empresa usa aquisição como atalho para escala.

A Havan também construiu sua expansão com disciplina de formato. A loja grande tem custo alto, mas concentra volume e cria presença. Em cidades médias, uma unidade pode atender uma região inteira, sem precisar abrir várias lojas menores. O resultado é uma marca com alcance nacional, mas com DNA de interior.

Há outro fator menos visível: o consumidor fora das capitais também mudou. Cidades médias ganharam renda, universidades, hospitais, condomínios, indústrias, agronegócio, serviços e comércio local mais sofisticado. O consumo saiu do eixo óbvio. Redes que chegaram cedo capturaram esse movimento.

Supermercados, lojas de departamentos, atacarejos, farmácias, academias e restaurantes perceberam que o interior não era mercado secundário. Era mercado principal, só que menos disputado.

O que diferencia Pedrinho de Hang

A comparação tem limite. Pedrinho e Hang não são empresários iguais. O Supermercados BH opera em um setor essencial. Alimento tem giro constante, tíquete recorrente e menor dependência de moda, tecnologia ou desejo. A margem pode ser apertada, mas o volume é enorme. O negócio exige logística, compra bem feita, negociação com fornecedores e controle operacional diário.

A Havan vende uma cesta mais ampla e mais sensível ao consumo discricionário. Móveis, itens de casa, eletrônicos, decoração e utilidades dependem mais do humor do consumidor, crédito, renda disponível e campanhas. A empresa também construiu uma marca muito ligada à figura pública de Luciano Hang, o que traz visibilidade, mas também exposição política.

Pedrinho BH, no Supermercados BH
Pedrinho BH, no Supermercados BH – Foto: Divulgação

Pedrinho é mais discreto. Mesmo depois de comprar a SAF do Cruzeiro e virar personagem constante no futebol, seu império empresarial segue com imagem menos personalista. O Supermercados BH fala mais pelo preço, pela loja e pelo alcance regional.

Hang é o oposto. A Havan e o dono se confundem no imaginário público. Isso ajudou a marca a ganhar notoriedade, mas também colocou a empresa no centro de debates políticos. Ainda assim, do ponto de vista empresarial, o varejo da Havan foi construído com uma lógica muito clara de interiorização.

Os dois também lidam com desafios diferentes daqui para frente. O BH precisa integrar aquisições, manter preço competitivo, enfrentar atacarejos e preservar eficiência em uma operação cada vez maior. A Havan precisa continuar crescendo em um varejo pressionado por e-commerce, juros, concorrência chinesa, marketplaces e mudança no comportamento de consumo.

Mesmo assim, a lição comum permanece forte. Pedrinho e Hang ficaram bilionários porque olharam para um Brasil que muitos concorrentes trataram como secundário. Enquanto grandes redes disputavam capitais, shoppings e bairros nobres, eles ocuparam cidades médias, periferias, polos regionais e mercados onde o consumidor queria preço, variedade, estacionamento, escala e presença.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.