Duas construtoras mineiras do mesmo setor receberam leituras opostas do JPMorgan e passaram a simbolizar, na Bolsa, dois momentos diferentes da construção civil brasileira. O banco elevou a recomendação da Direcional para compra, ou overweight, e rebaixou a MRV para neutra, em uma revisão que separa empresas vistas como mais limpas na execução daquelas que ainda precisam convencer o mercado sobre dívida, margens e ativos no exterior.
A decisão chama atenção porque as duas companhias têm origem em Minas Gerais, atuam fortemente no segmento habitacional e dependem do mesmo pano de fundo econômico: juros altos, Minha Casa, Minha Vida, custo de construção e apetite dos investidores por empresas ligadas à baixa renda.
A Direcional aparece hoje como uma empresa de execução mais previsível, margens fortes e risco financeiro mais controlado. A MRV, apesar de ter uma operação brasileira em recuperação, segue carregando a desconfiança do mercado por causa da Resia, sua subsidiária de multifamily nos Estados Unidos, e do processo de desalavancagem que ainda não convenceu totalmente os analistas.
No relatório, o JPMorgan apontou a Direcional como uma das preferidas do setor, atrás apenas da Tenda dentro da cobertura. O banco destacou valuation atrativo, potencial de valorização de cerca de 55% e catalisadores próprios, como a possível valorização do banco de terrenos em Belo Horizonte com uma nova lei de zoneamento e a parceria com a MDNE para projetos habitacionais de baixa renda no Nordeste.
Já a MRV foi rebaixada para neutra, com preço-alvo de R$ 7. O banco reduziu em 70% sua estimativa de lucro por ação para 2026 e em 35% para 2027, incorporando perdas adicionais esperadas na Resia durante o plano de desinvestimento.
Direcional vira aposta mais limpa entre construtoras
A escolha pela Direcional tem relação com a capacidade da empresa de entregar crescimento sem carregar uma história paralela tão pesada quanto a da MRV nos Estados Unidos. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida de R$ 1,2 bilhão, alta de 30% na comparação anual, Ebitda de R$ 341 milhões e lucro líquido de R$ 200 milhões.
Os números reforçaram a leitura de uma operação com boa margem, demanda forte e disciplina de custos. A Direcional também se beneficia do ambiente do Minha Casa, Minha Vida, programa que segue sustentando parte relevante da demanda por imóveis populares no país.
Em Belo Horizonte, o banco de terrenos da companhia virou ponto de atenção. O JPMorgan vê potencial de valorização caso mudanças no zoneamento da capital avancem e permitam melhor aproveitamento de áreas. Esse é um detalhe importante para Minas, porque transforma uma pauta urbana local em fator de valor para uma empresa listada na Bolsa.
A parceria com a MDNE no Nordeste também entrou na conta. Segundo o banco, a combinação entre essa frente e o potencial dos terrenos em BH poderia adicionar cerca de R$ 1 bilhão por ano em Valor Geral de Vendas no curto e médio prazo.
Na prática, a Direcional é vista como uma construtora que ainda pode crescer dentro do segmento de baixa renda, com balanço mais simples de ler e menor ruído fora do Brasil. Para investidores, essa clareza passou a valer mais em um ambiente de Selic elevada e maior seletividade no setor.
MRV ainda tenta virar a página da Resia

O rebaixamento da MRV não significa que a operação brasileira esteja quebrada. Pelo contrário. A divisão principal, ligada ao Minha Casa, Minha Vida, mostrou melhora no primeiro trimestre. A MRV teve lucro ajustado de R$ 132,8 milhões na operação brasileira, receita líquida de R$ 2,56 bilhões e avanço nas margens.
O problema é que o mercado não olha apenas para a incorporadora no Brasil. A MRV&Co reúne MRV, Urba, Luggo e Resia. E é justamente a Resia que segue pesando na avaliação.
A subsidiária americana teve prejuízo de R$ 119,7 milhões no primeiro trimestre de 2026 e passa por um plano de desinvestimento, com venda de terrenos e empreendimentos prontos. A companhia já alienou parte dos ativos, mas ainda precisa avançar para reduzir dívida e melhorar a percepção do mercado.
Para o JPMorgan, a preocupação está no risco de essas vendas ocorrerem abaixo do esperado, gerando perdas adicionais. É por isso que o banco cortou estimativas de lucro e reduziu a confiança na tese de desalavancagem.
Esse ponto explica a diferença entre MRV e Direcional. A MRV é maior, tem marca mais conhecida, presença nacional e uma operação brasileira relevante. Mas carrega uma estrutura mais complexa e um problema nos Estados Unidos que continua ocupando espaço no balanço e na cabeça dos investidores.


