Duas construtoras mineiras chegaram ao primeiro trimestre de 2026 com leituras diferentes no mercado. A Direcional (DIRR3) apresentou crescimento mais linear em lucro, receita e Ebitda. A MRV (MRVE3) mostrou avanço operacional relevante, mas ainda carrega uma tese mais dependente de desalavancagem e da melhora estrutural da operação nos Estados Unidos.
A comparação ganhou força porque as duas empresas nasceram em Belo Horizonte, atuam no mercado habitacional e estão listadas na Bolsa. A diferença está no momento de cada uma.
A Direcional registrou lucro líquido de R$ 213,2 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 29,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita operacional líquida somou R$ 1,165 bilhão, crescimento de 30%. O Ebitda chegou a R$ 315,2 milhões, avanço de 47%.
Na MRV, os dados comerciais também foram positivos. A XP destacou vendas líquidas de R$ 2,938 bilhões no 1T26, alta de 34% em um ano e 6% acima da estimativa da casa. A leitura, porém, segue mais condicionada à geração de caixa, dívida e evolução da Resia, subsidiária da companhia nos Estados Unidos.
Direcional entrega resultado mais direto
O balanço da Direcional mostra uma combinação de crescimento de receita, margem e lucro. A margem bruta ajustada chegou a 42,9%, renovando recorde da companhia. A margem Ebitda foi de 27,1%, ganho de 3,1 pontos percentuais na comparação anual.
A empresa também reportou geração de caixa operacional de R$ 35 milhões. A dívida líquida encerrou março em R$ 612,8 milhões, com alavancagem de 24% do patrimônio líquido.
O desempenho foi impulsionado por lançamentos, vendas de imóveis, reajuste de preços e controle de custos. A administração também citou impacto positivo das novas regras do Minha Casa, Minha Vida, com aumento das faixas de renda e dos tetos de preços dos imóveis enquadrados no programa.
A Direcional tem forte exposição ao segmento econômico, onde subsídio, financiamento habitacional e preço de venda são decisivos para a velocidade de vendas.
MRV vende mais, mas precisa provar recuperação
A MRV tem uma escala maior de vendas. A prévia operacional analisada pela XP mostrou R$ 2,938 bilhões em vendas líquidas no 1T26. As transferências somaram 8,2 mil unidades, avanço de 15% em relação ao ano anterior.

No resultado financeiro consolidado, a companhia teve prejuízo líquido de R$ 77,6 milhões no trimestre, perda 78% menor que a registrada no mesmo período de 2025. No critério ajustado, o prejuízo consolidado foi de R$ 14,4 milhões, também com melhora expressiva na comparação anual.
A operação brasileira da MRV teve lucro ajustado de R$ 132,8 milhões e receita líquida de R$ 2,56 bilhões. O ponto de atenção está no consolidado do grupo, que inclui Urba, Luggo e Resia.
A subsidiária americana Resia ainda pesa na avaliação da companhia. A empresa passa por um plano de desinvestimento nos Estados Unidos, com venda de terrenos e empreendimentos para reduzir endividamento e simplificar a estrutura.
Resia segue como principal variável
A Resia avançou na locação de projetos no trimestre. Segundo análise da XP, empreendimentos como Rayzor Ranch, Ten Oaks, Memorial e Golden Glades apresentaram melhora nos índices de ocupação. A avaliação é que esse avanço pode ajudar a MRV a vender ativos ao longo de 2026 e contribuir para a desalavancagem.
O BB Investimentos também destacou que a operação norte-americana vendeu dois terrenos e um empreendimento estabilizado, somando US$ 91,5 milhões no trimestre. No plano de desinvestimento, já foram realizadas vendas de US$ 241 milhões de um total esperado de US$ 800 milhões até o fim de 2026.
Apesar disso, a Resia registrou prejuízo no trimestre e segue como fator de incerteza. A leitura do mercado é que a MRV precisa mostrar continuidade no plano de venda de ativos e redução de dívida para consolidar a recuperação.
Setor acompanha juros, MCMV e custos
O cenário das construtoras também depende de fatores externos. Juros, inflação de materiais, disponibilidade de crédito e regras do Minha Casa, Minha Vida afetam diretamente margem, demanda e velocidade de vendas.
A Direcional aparece, neste momento, com indicadores mais simples de comunicar ao investidor: lucro maior, receita maior, Ebitda maior e margem recorde. A MRV tem números comerciais fortes, mas o mercado ainda acompanha a transição de uma estrutura mais complexa para uma tese mais limpa de geração de caixa.
Isso não significa que uma empresa esteja imune a riscos ou que a outra não tenha recuperação em curso. A diferença é que a Direcional mostrou um trimestre mais direto, enquanto a MRV ainda depende de novas entregas nos próximos balanços.


