A Vale encerrou o segundo trimestre de 2026 com um lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,375 bilhão, o que representa um tombo de 35% em relação ao mesmo período do ano passado. A queda no papel, contudo, não secou o caixa. A mineradora ignorou o recuo contábil e aprovou a distribuição de US$ 1,701 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP).
Na conversão, o montante significa que a empresa vai injetar aproximadamente R$ 8,6 bilhões no bolso de seus acionistas (equivalente a R$ 2,0307 por ação). O balanço, divulgado em 30 de julho, revela um cenário de forte saúde financeira operacional mascarado por pressões tributárias e cambiais.
Por que o lucro caiu se a operação melhorou?
A aparente contradição entre um lucro menor e um pagamento de dividendos maior é explicada pela robusta geração de caixa da mineradora. O lucro líquido foi duramente penalizado por fatores que não afetam a extração na mina, como:
- Variação negativa de US$ 798 milhões na marcação a mercado de derivativos.
- Maior carga de tributos sobre o lucro, incluindo efeitos cambiais.
Na ponta operacional real, o cenário foi o oposto. A companhia vendeu mais e cobrou mais caro. As vendas de minério de ferro cresceram 3%, enquanto as de cobre (+10%) e níquel (+7%) também saltaram. O preço realizado dos finos de minério de ferro bateu a marca de US$ 95 por tonelada (alta de 12% na base anual).
Essa combinação elevou a receita líquida para US$ 10,498 bilhões (+19%). Com mais dinheiro entrando e as dívidas encolhendo (redução de US$ 1,1 bilhão no trimestre), o fluxo de caixa livre da Vale disparou para US$ 1,505 bilhão, uma alta expressiva de 49% sobre o 2T25. A operação gerou mais recursos reais disponíveis para investimentos e remuneração.
O calendário do dinheiro: quanto cada acionista vai receber?
A remuneração bruta total aprovada por ação é de R$ 2,0307, dividida entre JCP (R$ 1,5687) e dividendos complementares (R$ 0,4620). É importante lembrar que o valor do JCP sofre retenção de Imposto de Renda na fonte.
Fique de olho nas datas:
- Data de corte (Data Com): 11 de agosto. Apenas investidores com papéis da Vale (VALE3) no fechamento deste pregão terão direito aos proventos.
- Data Ex-dividendos: 12 de agosto. A partir deste dia, as ações passam a ser negociadas sem direito ao pagamento.
- Data do pagamento: 2 de setembro.
Na prática, quem possuir um lote padrão de 100 ações até o dia 11 de agosto, por exemplo, terá direito a um crédito bruto de cerca de R$ 203,07. O conselho também aprovou um novo programa de recompra de até 100 milhões de ações (2,3% do total) pelos próximos 18 meses, medida que reduz os papéis em circulação e tende a valorizar os dividendos futuros dos acionistas que mantiverem suas posições.
O que esse balanço significa para Minas Gerais?

Para os municípios mineiros que respiram mineração, o recuo no lucro líquido não é motivo para pânico. A arrecadação dos royalties (a CFEM – Compensação Financeira pela Exploração Mineral) incide diretamente sobre a receita bruta da venda do minério, e não sobre o lucro líquido da companhia.
Como a Vale faturou e vendeu mais, cidades como Itabira, Ouro Preto, Mariana e Nova Lima continuam garantindo arrecadações elevadas. O balanço também trouxe um raio-x do desempenho dentro do estado:
- Sistema Sudeste: Cresceu em 3,3 milhões de toneladas, atingindo 24,3 milhões no trimestre. O avanço foi impulsionado pela retomada de Água Limpa, ganhos em Alegria e, principalmente, pela mina de Capanema (Ouro Preto).
- Sistema Sul: Registrou queda de 1 milhão de toneladas (fechando em 12,1 milhões) devido à paralisação nas operações de Fábrica e Viga, parcialmente compensada pelo complexo de Vargem Grande (Nova Lima).
Dos US$ 1,128 bilhão investidos globalmente no trimestre, US$ 819 milhões foram para a divisão de minério de ferro. A promessa da companhia para Minas Gerais segue mantida: R$ 67 bilhões em investimentos previstos até 2030, focados em modernização, processamento a seco e eliminação da dependência de barragens de rejeitos.


