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Negócios atípicos: pra elas, ser mãe e empreender é um trabalho 7×0 e veio da necessidade

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Entre terapias, consultas, internações, viagens inclusivas, produtos sensoriais e vendas online, mulheres transformam a rotina de cuidado dos filhos em novas formas de gerar renda Para muitas mães atípicas, empreender não começa como sonho de negócio. Começa quando a rotina de cuidado torna inviável a permanência no mercado formal.

Depois, o que era necessidade pode virar autonomia, renda, propósito e rede de apoio para outras famílias.

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As histórias de Nadja Menezes, Tamara Colares e Raissa Sousa passam por áreas diferentes: produtos inclusivos, turismo e vendas digitais. Mas as três se encontram no mesmo ponto: o trabalho tradicional, com horário fixo, deslocamento obrigatório e pouca margem para imprevistos, quase nunca consegue acolher uma rotina atravessada por terapias, consultas, internações, escola, cuidado doméstico e ausência de rede de apoio.

No meio desse caminho, o empreendedorismo aparece como saída possível. Não como solução mágica. Não como narrativa simples de superação. Mas como a forma que muitas mães encontram para continuar trabalhando sem se afastar da vida dos filhos.

O escritório que muda de endereço

Às 5h30, antes do primeiro orçamento, da primeira resposta a um cliente ou do primeiro pedido do dia, a rotina de Nadja Menezes, fundadora da Don Terapy, já funciona como uma operação logística.

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A empresa nasceu justamente dessa rotina. Antes de virar negócio, a Don Terapy foi uma busca pessoal de Nadja por recursos sensoriais, pedagógicos e inclusivos que ajudassem no desenvolvimento, na regulação emocional e na autonomia do filho.

“A Don nasceu da minha própria necessidade como mãe atípica. Meu filho Don é autista e, ao longo da nossa jornada, eu percebi como era difícil encontrar recursos sensoriais, pedagógicos e inclusivos que realmente ajudassem no desenvolvimento, na regulação emocional e na autonomia dele”, explicou ao Moon BH.

Nadja, fundadora da Don Terapy
Foto: Arquivo pessoal

No começo, os materiais eram procurados para uso dentro da própria casa. Aos poucos, a experiência familiar passou a revelar uma demanda maior. Outras famílias também tinham dificuldade de encontrar produtos adequados, acolhimento e orientação.

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“Conforme fui estudando mais sobre neurodiversidade, inclusão e desenvolvimento infantil, percebi que muitas outras famílias enfrentavam as mesmas dificuldades. Empreender não foi uma escolha planejada. Foi uma necessidade. Eu não conseguia conciliar uma carreira tradicional com a rotina intensa de terapias, consultas, reuniões escolares e os cuidados que meu filho precisava diariamente, além da responsabilidade de cuidar dos meus outros filhos.”

A Don Terapy surgiu desse encontro entre necessidade e propósito. Hoje, a marca vende mais do que produtos. Ela carrega a experiência de uma mãe que precisou transformar o cuidado vivido dentro de casa em ferramenta de apoio para outras famílias, profissionais e escolas.

Você pode seguir o Instagram da Don Terapy aqui. Ou pode conhecer o negócio virtual aqui.

Quando o emprego formal não cabe na rotina

Em outra área, Tamara Colares, fundadora da Viaje com T&C, encontrou no turismo uma saída parecida.

A empresa nasceu durante a primeira gestação, em um momento em que ela não conseguiu retornar ao mercado de trabalho formal. Antigos clientes da área começaram a procurá-la em busca de dicas, orientações e planejamento de viagens. A necessidade de gerar renda se encontrou com a oportunidade de continuar atuando em uma área que ela já conhecia e gostava.

O negócio, no entanto, não nasceu de uma decisão simples. Tamara faz questão de não romantizar o processo.

Se tivesse tido a oportunidade, conta, teria se dedicado exclusivamente à maternidade naquele período. Mas essa não era a realidade da família. Empreender foi o caminho possível para sustentar a casa sem abrir mão de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos.

Com o nascimento do segundo filho, o trabalho remoto se tornou ainda mais importante. A atuação à distância permitiu conciliar atendimento aos clientes, amamentação e cuidados diários. A empresa, portanto, não surgiu apenas como uma aposta comercial. Surgiu como adaptação.

Viaje com T&C - agência para pessoas atípicas
Viaje com T&C – Fotos: Arquivo Pessoal

Essa é uma chave importante para entender a maternidade atípica empreendedora. Em muitos casos, o negócio nasce menos de uma busca por independência abstrata e mais de uma pergunta concreta: como continuar trabalhando quando a rotina de cuidado não cabe no expediente tradicional?

“Não romantizo esse processo. Se eu tivesse tido a oportunidade, teria me dedicado exclusivamente à maternidade naquele período. Porém, essa não era a minha realidade. Empreender foi o caminho que encontrei para sustentar minha família sem abrir mão de acompanhar o crescimento dos meus filhos de forma mais próxima”, afirma Tamara.

A Viaje com T&C começou como uma agência de turismo criada para responder a essa necessidade. Mas, com o tempo, a experiência da maternidade atípica passou a orientar também o tipo de turismo que Tamara queria construir.

Ela percebeu uma lacuna no setor: a falta de atendimento qualificado para pessoas com deficiência. A partir desse olhar, começou a desenvolver a Rota dos Sentidos Ceará, um roteiro sensorial de praia, serra e sertão que tem como pilar o Guia Lúdico, pensado para acolher o viajante durante a experiência.

“Hoje eu ‘inventei de inovar’… Hehehe. Entendi há muito tempo que a felicidade da vida não está no destino, mas sim na jornada. Parece que a pessoa empreendedora nunca está totalmente satisfeita. Identifiquei que o mercado do turismo tem uma falha muito grande, uma lacuna: falta qualidade no atendimento para pessoas com deficiência. Minha dor como mãe atípica me fez olhar para outras mães: a mãe de uma criança cega, surda, cadeirante, e não apenas para os neurodivergentes”, conta.

Apoie a Viaje com T&C seguindo o Instagram deles aqui e indique para quem gostaria de fazer viagens inclusivas.

O celular como vitrine, escritório e sobrevivência

A terceira história passa por outro caminho: o digital. Raissa Sousa trabalha com mídias digitais, influência e venda de produtos de beleza online. O negócio nasceu quando a rotina de cuidados do filho tornou inviável a permanência no emprego CLT. A agenda passou a envolver terapias, consultas, internações de longo prazo e uma despesa crescente com saúde.

O digital apareceu como uma forma de continuar gerando renda sem depender de um endereço fixo ou de uma jornada tradicional.

“Meu negócio, mídias digitais e influenciadora, nasceu a partir do momento em que não pude mais trabalhar CLT por conta dos cuidados diários dele: terapias, consultas, internações de longo prazo. Tudo isso incluindo a parte financeira, que se tornou extremamente alta”, relata.

Para Raissa, a necessidade não era apenas manter uma renda. Era aumentar a capacidade financeira da casa para garantir tratamento, cuidado e qualidade de vida em saúde para o filho.

“Eu entendi que precisava fazer mais dinheiro do que antes para entregar a qualidade de vida em saúde que ele precisa e me sustentar no dia a dia. A maneira que encontrei foi no digital, me tornando afiliada de plataformas e fazendo a criação de conteúdo como renda extra.”

Influenciadora Raissa Sousa
Fotos: Arquivo Pessoal

O que poderia parecer apenas uma atividade complementar ganhou peso na organização da família. O celular virou ferramenta de trabalho. O Instagram virou vitrine. As plataformas de afiliados viraram fonte de venda. A criação de conteúdo passou a disputar espaço com consultas, internações, cuidados da casa e relacionamento.

Raissa também se tornou embaixadora da plataforma Acesse-me, voltada especialmente para pessoas com deficiência e seus cuidadores. A atuação digital, nesse caso, não aparece apenas como saída financeira, mas também como forma de conexão com outras famílias que vivem desafios parecidos.

“Com isso, me tornei embaixadora da plataforma Acesse-me, que é voltada especialmente para pessoas PCDs e seus cuidadores.”

A rotina dela é dividida por agenda médica, produção de conteúdo, vendas online e tarefas domésticas. Não há separação clara entre expediente e cuidado. Há intervalos possíveis. “Um dia comum na minha vida é dividido por horários e agenda de compromissos médicos do meu filho. E outra parte pela minha criação de conteúdo e vendas de produtos online. Isso sem contar a parte do cuidado com a casa e relacionamento.”

Você pode apoiar a Raissa aqui. No mundo digital, muitas vezes número de seguidores conta para fazer publicidades e contratos. Por isso seguir também é apoiar.

O cuidado invisível também reorganiza a renda

A maternidade atípica não tem uma única forma. Ela pode envolver diagnósticos diferentes, rotinas terapêuticas distintas, níveis variados de suporte, demandas escolares, adaptações em casa, deslocamentos frequentes e necessidade de acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos.

Nem toda família vive a mesma realidade. Nem toda mãe se reconhece da mesma maneira. Mas, nas entrevistas, um ponto se repete: o cuidado reorganiza o tempo. E, quando reorganiza o tempo, reorganiza também o trabalho e a renda.

No Brasil, o Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista, o equivalente a 1,2% da população. O levantamento também apontou 14,4 milhões de pessoas com deficiência, ou 7,3% da população com dois anos ou mais. Os dados não medem diretamente a rotina das mães cuidadoras, mas ajudam a dimensionar a quantidade de famílias atravessadas por demandas de cuidado, acessibilidade, inclusão e acompanhamento contínuo.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas individual.

Quando uma mãe precisa se deslocar diariamente para terapias, ajustar horários de escola, lidar com consultas, adaptar alimentação, organizar documentos, acompanhar crises, responder às demandas da casa e ainda gerar renda, o trabalho deixa de ser apenas uma atividade profissional. Ele passa a disputar espaço com uma infraestrutura de cuidado que, na maior parte das vezes, permanece invisível.

Em maio de 2026, o Sebrae Minas lançou uma trilha online voltada especialmente para mães atípicas empreendedoras, com 21 horas de oficinas e mentorias individuais. A formação inclui módulos sobre identidade empreendedora, planejamento, organização realista, produtividade, ferramentas digitais, comunicação digital, marketing autêntico e inteligência artificial. A iniciativa mostra que o tema deixou de ser apenas uma questão doméstica e passou a ser tratado também como assunto de renda, gestão e inclusão produtiva.

Não é falta de capacidade; é falta de modelo

Para Nadja, o mercado de trabalho tradicional ainda não compreende que a maternidade atípica não é apenas uma versão mais intensa da maternidade. Ela envolve uma carga extra de cuidados, organização, acompanhamento médico, terapêutico e escolar que, segundo ela, muitas vezes ocupa o equivalente a mais de um emprego.

Ela diz que já viveu a sensação de precisar escolher entre estar presente para o filho ou manter uma carreira tradicional.

“Uma mãe atípica não falta porque quer. Ela não precisa de flexibilidade porque está desorganizada. Ela precisa porque está administrando uma rotina extremamente complexa, muitas vezes sem rede de apoio. Eu já vivi a sensação de precisar escolher entre estar presente para meu filho ou manter uma carreira tradicional. Nenhuma mãe deveria ter que fazer essa escolha”, desabafa.

Mães atípicas
Infográfico – Departamento de Arte do Moon BH

A mesma avaliação aparece na fala de Tamara. Para ela, mães atípicas não buscam privilégios, mas condições mais humanas para conciliar responsabilidades familiares e trabalho.

“O mercado de trabalho precisa enxergar que mães atípicas não buscam privilégios, mas condições mais humanas para conciliar suas responsabilidades. Menos julgamentos, sem comportamentos e falas capacitistas, e mais disposição para compreender que cada família vive desafios diferentes.”

Raissa usa outra expressão para definir o que falta: liberdade geográfica. Para ela, o mercado ainda mede produtividade pela presença em um lugar fixo, mesmo quando muitas funções poderiam ser executadas de forma remota, híbrida ou com ajustes de horário.

“Na minha sincera opinião, o mercado de trabalho não entendeu que, para uma mãe atípica retornar a ele, ela precisa de liberdade geográfica. É impossível assumir um trabalho com a carga horária comum integral sendo que essa mãe precisa de flexibilidade nos horários para acompanhar a rotina de médicos do seu filho.”

As três falas apontam para o mesmo problema. Não é falta de vontade de trabalhar. Não é falta de qualificação. Não é desorganização. É a dificuldade de encaixar uma vida imprevisível em um modelo profissional que continua exigindo disponibilidade previsível.

Da necessidade ao propósito

Com o tempo, o que nasce da urgência pode ganhar outro significado.

A Don Terapy começou como uma busca de Nadja por recursos que ajudassem Don. Hoje, a empresa atende outras famílias, profissionais e escolas. Cada produto carrega uma parte da trajetória da mãe e do filho.

“Quando uma mãe me diz que um produto da Don ajudou seu filho ou que ela se sentiu acolhida, eu lembro por que comecei e encontro forças para continuar”, diz Nadja.

Mães atípicas, negócios atipicos
Infográfico – Departamento de Arte do Moon BH

A Viaje com T&C começou como alternativa de renda no turismo. Agora, Tamara tenta transformar o negócio em uma plataforma para viagens mais humanas e inclusivas, com roteiros pensados para acolher pessoas com deficiência e suas famílias.

“Estou recuando alguns passos, recuando em vendas para investir em capacitação. Em paralelo, levo minha família junto sempre que possível, especialmente nas ações sociais e trilhas inclusivas. Hoje, literalmente, estou reduzindo os investimentos em impulsionamento de vendas para focar na qualificação. Essa é a minha estratégia. Enquanto muitos focam em números de vendas e turismo de massa, eu sigo totalmente na direção oposta da correnteza.”

A Raissa, por sua vez, transformou a presença digital em alternativa para continuar gerando renda. Como influenciadora, afiliada e vendedora online de produtos de beleza, ela encontrou uma forma de trabalhar que acompanha a rotina médica do filho, ainda que isso exija acúmulo de funções e exposição constante nas redes.

As três trajetórias têm formatos diferentes. Uma nasce dos brinquedos sensoriais. Outra, do turismo. A terceira, das vendas digitais. Mas todas apontam para o mesmo lugar: o cuidado também produz economia.

Leia as matérias especiais da série, com as histórias e entrevistas de cada mãe e seus ‘negócios atípicos’:

Don Terapy: A Nadja não encontrava brinquedos para o filho atípico e criou disso um negócio

Viaje com T&C: a agência que nasceu entre maternidade, luto e turismo inclusivo

Raissa Sousa: o negócio digital que nasceu da urgência de cuidar

Legislação: Projeto de Lei 1520/25 institui o Auxílio Mãe Atípica (AMA) está tramitando na Câmara e é destinado a oferecer apoio financeiro e psicossocial às mães ou responsáveis legais de crianças e adolescentes com deficiência severa ou Transtorno do Espectro Autista (TEA). Você pode cobrar do seu deputado e senador apoio ao projeto.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.

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