HomeCapital M - Negócios e EconomiaViaje com T&C: a agência que nasceu entre maternidade, luto e turismo...

Viaje com T&C: a agência que nasceu entre maternidade, luto e turismo inclusivo

Publicado em

Para quem vive de planejar viagens, a palavra “destino” costuma ser o ponto de chegada. Para a fundadora da Viaje com T&C, no entanto, foi a jornada que mudou tudo. Criada durante a primeira gestação de sua fundadora, Tamara Colares, a empresa começou como alternativa de renda após a dificuldade de retorno ao mercado formal e hoje tenta construir roteiros mais humanos para pessoas com deficiência.

A Viaje com T&C, agência de turismo que ajuda mães atípicas a realizarem o sonho de viajar, nasceu em um período muito especial da minha vida: durante a minha primeira gestação. Na época, não consegui retornar ao mercado de trabalho formal (CLT) e comecei a receber contatos de antigos clientes da área do turismo em busca de dicas de viagens e orientações. Foi da união entre a necessidade e a oportunidade que surgiu o meu negócio.”

- Publicidade -

A frase ajuda a desmontar uma ideia comum sobre empreendedorismo: a de que toda empresa começa por vocação, plano de expansão ou desejo de independência. Em muitas trajetórias femininas, especialmente entre mães que enfrentam rotinas de cuidado mais complexas, o negócio começa antes como ajuste de sobrevivência.

“Naquele momento, empreender não foi apenas uma escolha, mas a alternativa que encontrei para gerar renda e continuar exercendo uma atividade que amo. Quando meu segundo filho nasceu, o trabalho remoto me permitiu estar presente em sua rotina e conciliar as demandas profissionais com a amamentação e os cuidados diários.”

A flexibilidade, nesse caso, não veio como benefício oferecido por uma empresa. Veio como algo construído por ela mesma, dentro dos limites da casa, da maternidade e da necessidade de manter renda.

- Publicidade -

Mas há uma diferença importante entre encontrar uma saída e transformar essa saída em discurso idealizado. A fundadora da Viaje com T&C faz questão de separar uma coisa da outra.

“Não romantizo esse processo. Se eu tivesse tido a oportunidade, teria me dedicado exclusivamente à maternidade naquele período. Porém, essa não era a minha realidade. Empreender foi o caminho que encontrei para sustentar minha família sem abrir mão de acompanhar o crescimento dos meus filhos de forma mais próxima.”

É nesse ponto que a história da empresa deixa de ser apenas sobre turismo. Ela passa a falar também sobre trabalho, maternidade e sobre a distância entre a vida real das famílias e o modelo de emprego que ainda exige disponibilidade previsível de quem cuida.

- Publicidade -

Mães atípicas não buscam privilégios

A maternidade atípica impõe uma rotina que nem sempre aparece no currículo, na entrevista de emprego ou na planilha de produtividade. Ela envolve consultas, terapias, escola, deslocamentos, crises, adaptações, cuidados diários e uma carga mental que costuma ficar concentrada nas mães.

Para quem observa de fora, essa realidade pode ser reduzida a ausência, atraso, dificuldade de agenda ou falta de disponibilidade. Para quem vive, é uma tentativa permanente de conciliar responsabilidades que raramente cabem no mesmo dia.

“Nem sempre eles compreendem por que precisamos trabalhar, assim como nem sempre a sociedade compreende os desafios que enfrentamos. Muitas pessoas ainda observam essa realidade com julgamentos, sem conhecer a complexidade que existe por trás dela.”

A crítica dela não ignora as demandas das empresas. Pelo contrário. Parte do reconhecimento de que negócios também precisam se manter de pé. O ponto é outro: sustentabilidade financeira não precisa significar indiferença diante de realidades familiares diferentes.

“Entendo que as empresas precisam gerar resultados, manter suas operações e garantir sustentabilidade financeira. No entanto, acredito que ainda falta mais flexibilidade, empatia e compreensão.”

Viaje com T&C - agência para pessoas atípicas
Viaje com T&C – Fotos: Arquivo Pessoal

Para mães atípicas, a palavra flexibilidade costuma ser mal interpretada. Muitas vezes, aparece como concessão individual, favor ou exceção. Na leitura da empreendedora, ela deveria ser entendida como condição mínima para que mulheres qualificadas consigam continuar trabalhando.

“O mercado de trabalho precisa enxergar que mães atípicas não buscam privilégios, mas condições mais humanas para conciliar suas responsabilidades. Menos julgamentos, sem comportamentos e falas capacitistas, e mais disposição para compreender que cada família vive desafios diferentes.”

O que está em jogo não é apenas a permanência de uma mãe em um emprego. É a possibilidade de uma família manter renda, cuidado e algum equilíbrio em uma rotina que já carrega pressões suficientes.

“Quando uma mãe atípica recebe apoio, acolhimento e oportunidades compatíveis com sua realidade, todos ganham: a família, a empresa e a sociedade.”

A fala conecta a experiência individual a um debate público. O cuidado não é uma questão privada sem impacto econômico. Quando ele recai quase sempre sobre as mulheres e o trabalho não se adapta, a consequência aparece na renda, na carreira, na saúde mental e na capacidade de essas mães permanecerem produtivas.

A dor que precisou esperar

A trajetória da Viaje com T&C também foi atravessada por um tipo de dor que não aparece para o cliente que compra uma viagem.

Em 2022, a fundadora da agência passou a viver uma sobreposição de responsabilidades familiares. A mãe adoeceu. A irmã, também mãe atípica, enfrentava uma situação extrema após perder o marido na pandemia. Os filhos, sobrinhos, clientes e a empresa continuavam exigindo presença.

Naquele período, não havia uma divisão equilibrada de tarefas. Havia urgências que se acumulavam.

“O momento mais difícil foi a partida da minha mãe. No ano de 2022, minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão. Eu precisava ser forte. Nossa família é pequena: apenas eu, minha mãe, minha irmã e nossos filhos. Minha irmã também é mãe atípica, tem Kleber, de 24 anos, com autismo severo, e Caio, de 15 anos, com autismo suporte 2. O pai dos meus sobrinhos morreu de Covid na pandemia, e ela se viu tendo que, pela primeira vez, cuidar dos dois filhos autistas sozinha. Minha irmã entrou em uma depressão profunda que a impossibilitou de me ajudar com nossa mãe.”

A empresa, nesse contexto, não era apenas projeto profissional. Era fonte de renda para despesas concretas, inclusive de saúde. Ao mesmo tempo, a vida familiar exigia dela uma resistência que não deixava espaço para pausa.

“Me vi em um momento em que precisava continuar com a empresa, pois eram as vendas que me ajudavam a pagar os exames da minha mãe. Também tinha que dar suporte à minha irmã, aos meus sobrinhos e ao meu filho, e eu fiquei em último lugar.”

No turismo, a venda não termina quando o pacote é fechado. Há clientes em deslocamento, dúvidas durante a viagem, imprevistos no destino e necessidade de suporte. Para quem atende, a vida pessoal nem sempre consegue suspender a operação.

Foi assim que o luto precisou ser administrado como se fosse mais uma demanda a ser encaixada na agenda.

A falha que virou novo caminho

Depois de atravessar maternidade, trabalho remoto, cuidado familiar e luto, a fundadora da Viaje com T&C passou a olhar para o turismo por uma lente mais específica: a da acessibilidade real.

O setor costuma vender experiência, descanso e descoberta. Mas, para pessoas com deficiência e suas famílias, a viagem pode começar antes com uma sequência de dúvidas: haverá acolhimento? A equipe saberá lidar com necessidades específicas? O roteiro foi pensado para diferentes corpos, sentidos e formas de interação com o mundo?

Viaje com T&C - agência para pessoas atípicas
Viaje com T&C – Fotos: Arquivo Pessoal

Foi a partir dessa percepção que a agência começou a buscar uma direção própria. “Hoje eu ‘inventei de inovar’… Hehehe.”

A leveza da frase contrasta com a profundidade da mudança. A inovação, aqui, não é apenas tecnológica ou comercial. É uma tentativa de rever o jeito como o turismo recebe pessoas que, muitas vezes, são lembradas apenas como exceção ou adaptação de última hora.

“Entendi há muito tempo que a felicidade da vida não está no destino, mas sim na jornada. Parece que a pessoa empreendedora nunca está totalmente satisfeita. Identifiquei que o mercado do turismo tem uma falha muito grande, uma lacuna: falta qualidade no atendimento para pessoas com deficiência. Minha dor como mãe atípica me fez olhar para outras mães: a mãe de uma criança cega, surda, cadeirante, e não apenas para os neurodivergentes.”

A experiência pessoal, nesse caso, deixou de ser apenas motivação íntima. Passou a orientar uma leitura de mercado. Onde muitos enxergam um nicho, ela passou a enxergar uma deficiência estrutural do atendimento turístico.

A resposta começou a tomar forma em um projeto com identidade própria: a Rota dos Sentidos Ceará.

“A partir desse olhar, começou a nascer a Rota dos Sentidos Ceará, um roteiro sensorial de praia, serra e sertão, no qual o principal pilar é o Guia Lúdico, um guia que faz muito mais do que guiar: ele permite que o viajante se sinta acolhido.”

A proposta desloca o foco do roteiro como simples sequência de lugares. O guia, nesse modelo, não é apenas alguém que informa horários, pontos turísticos e trajetos. É parte da experiência de acolhimento. É quem ajuda o viajante a se sentir pertencente ao percurso.

Recuar nas vendas para mudar a essência

A fase atual da Viaje com T&C tem uma escolha pouco comum em um mercado pressionado por números: vender menos agora para qualificar melhor a operação.

Enquanto muitas empresas direcionam energia para tráfego pago, volume de pacotes e crescimento imediato, a fundadora decidiu deslocar capital para treinamento, capacitação e construção de roteiros com impacto. “Neste momento, todo o capital da empresa estou investindo em treinamentos, capacitações, roteiros de inovação e impacto. Hoje, tento fortalecer esse sonho de um turismo mais humano e inclusivo.”

A decisão indica que inclusão, para ela, não pode ser apenas argumento de divulgação. Precisa alcançar o atendimento, a equipe, os guias, os vendedores e a forma como o roteiro é desenhado. “Para isso, não adianta apenas impulsionar vendas. Preciso modificar a essência, capacitar a equipe, os guias e os vendedores. Essa está sendo minha jornada atual.”

Esse movimento tem custo. Ao reduzir investimentos voltados diretamente à venda, a empresa pode crescer mais devagar. Pode abrir mão de resultados imediatos. Pode seguir um caminho menos previsível do que o turismo de massa.

Mas a estratégia parece coerente com a origem da empresa: uma marca criada por uma mãe que conhece, por dentro, o que significa tentar caber em estruturas que não foram pensadas para todas as famílias.

Na direção oposta da correnteza

A correnteza do turismo costuma empurrar empresas para escala, padronização e venda rápida. A Viaje com T&C tenta seguir por outra lógica: menos pressa, mais escuta; menos volume, mais preparo; menos roteiro genérico, mais acolhimento.

A agência nasceu quando a maternidade e o mercado formal deixaram de caber na mesma equação. Cresceu em meio a atendimentos remotos, cuidado familiar, luto adiado e necessidade de sustentar a casa. Agora, busca transformar essa experiência em um modelo de turismo mais atento a pessoas com deficiência e famílias que nem sempre encontram acolhimento ao viajar.

No caso da Viaje com T&C, a jornada começou como alternativa de sobrevivência. Agora, tenta abrir caminho para que outras famílias também possam viajar sem sentir que precisam pedir licença para existir.

Você pode apoiar a empresa seguindo a conta no Instagram. Pode conhecer mais e pode indicar para quem precisa viajar com crianças atípicas.

- Publicidade -
Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.

Veja outras notícias