Antes de se tornar influenciadora, trabalhar com mídias digitais e vender produtos de beleza online, Raissa Sousa precisou responder a uma pergunta urgente: como continuar gerando renda quando a rotina do filho já não permitia um trabalho tradicional?
A resposta veio pelo digital.
O emprego CLT deixou de caber quando os cuidados diários passaram a exigir presença constante. A agenda envolvia terapias, consultas, internações longas e uma estrutura de saúde financeiramente pesada. O trabalho, então, precisou mudar de forma.
“Meu negócio, mídias digitais e influenciadora, nasceu a partir do momento em que não pude mais trabalhar CLT por conta dos cuidados diários dele: terapias, consultas, internações de longo prazo. Tudo isso incluindo a parte financeira, que se tornou extremamente alta.”
Para Raissa, empreender não começou como um projeto de imagem, vitrine ou desejo de aparecer nas redes. Começou pela necessidade de sustentar uma rotina de saúde que exigia mais dinheiro, mais tempo e mais flexibilidade do que antes.
“Eu entendi que precisava fazer mais dinheiro do que antes para entregar a qualidade de vida em saúde que ele precisa e me sustentar no dia a dia.”
Foi nesse ponto que a internet deixou de ser apenas espaço de consumo e passou a ser ferramenta de trabalho. Raissa começou a atuar como afiliada de plataformas, criar conteúdo e transformar as vendas online em renda extra. O que antes poderia parecer complementar passou a ter peso concreto na organização da casa.
“A maneira que encontrei foi no digital, me tornando afiliada de plataformas e fazendo a criação de conteúdo como renda extra.”
Hoje, a atividade reúne influência digital, divulgação de produtos, venda online e uma presença nas redes construída em torno de uma realidade que muitas mães conhecem, mas nem sempre conseguem explicar: a de precisar trabalhar sem se afastar da rotina de cuidado.
Nesse caminho, Raissa também passou a se conectar com iniciativas voltadas ao público que vive desafios semelhantes aos dela.
“Com isso, me tornei embaixadora da plataforma Acesse-me, que é voltada especialmente para pessoas PCDs e seus cuidadores.”
A frase mostra uma virada importante. O digital não aparece apenas como saída financeira. Ele também aproxima Raissa de uma rede de pessoas com deficiência, cuidadores e famílias que convivem diariamente com barreiras de acesso, trabalho, saúde e autonomia.
Uma agenda dividida entre saúde, casa e vendas
A rotina de Raissa não se organiza em torno de um expediente fixo. Ela se divide por blocos de sobrevivência prática: horários médicos, cuidados do filho, produção de conteúdo, vendas online, casa e relacionamento.
Não há uma separação limpa entre trabalho e vida pessoal. A mesma pessoa que acompanha consulta precisa responder cliente. A mesma mãe que administra compromissos médicos também precisa gravar conteúdo, divulgar produto, fechar venda e manter presença nas redes.
“Um dia comum na minha vida é dividido por horários e agenda de compromissos médicos do meu filho. E outra parte pela minha criação de conteúdo e vendas de produtos online. Isso sem contar a parte do cuidado com a casa e relacionamento.”
Na vida de uma mãe atípica, o tempo raramente é contínuo. Ele é quebrado. A produtividade não acontece em uma sala silenciosa, com agenda estável e oito horas disponíveis. Ela aparece nos intervalos, nos deslocamentos, depois de uma consulta, antes de uma internação, no tempo possível entre uma demanda familiar e outra.
Raissa resume essa multiplicação de papéis com uma conta simples.
“Geralmente desempenho mais de três a quatro funções no dia para fechar todos os compromissos e agendas.”
Essa frase ajuda a explicar por que o empreendedorismo digital se tornou uma alternativa. A internet permite trabalhar de casa, do hospital, da sala de espera, do celular e dos intervalos. Mas também cria outro tipo de pressão: a necessidade de estar sempre disponível, sempre produzindo, sempre vendendo e sempre respondendo, mesmo quando a vida familiar está em estado de urgência.
O negócio digital dá mobilidade, mas não reduz automaticamente a sobrecarga. Ele apenas permite que a renda acompanhe uma rotina que não cabe nos modelos tradicionais de trabalho.
O que o mercado ainda não entendeu
Para Raissa, a dificuldade de retorno ao mercado formal não está ligada à falta de capacidade. O problema está no formato. Um emprego com carga horária rígida, presença física e pouca margem para urgências médicas dificilmente acolhe a vida de uma mãe que precisa acompanhar o filho de forma contínua.
Ela usa uma expressão direta para explicar o que falta: liberdade geográfica.
“Na minha sincera opinião, o mercado de trabalho não entendeu que, para uma mãe atípica retornar a ele, ela precisa de liberdade geográfica.”
A formulação é importante porque desloca o debate. A mãe atípica não está dizendo que não quer trabalhar. Está dizendo que precisa trabalhar de outro jeito. Precisa de um modelo em que entrega e produtividade não sejam medidas apenas pela presença física em um endereço fixo.
“É impossível assumir um trabalho com a carga horária comum integral sendo que essa mãe precisa de flexibilidade nos horários para acompanhar a rotina de médicos do seu filho.”
A crítica de Raissa atinge uma contradição comum no mercado. Muitas mulheres conseguem produzir, vender, atender, criar, organizar e entregar resultados. Mas, quando precisam de pequenos ajustes de horário ou formato, passam a ser vistas como problema.
Ela relata esse peso de forma dura.
“O mercado de trabalho tradicional não presta nenhum tipo de apoio dessa maneira. Mesmo entregando a mesma produtividade e qualificação, as mulheres que tentam sofrem uma pressão extremamente preconceituosa e até mesmo caluniosa das empresas por precisarem de alguns pequenos reajustes na carga horária de trabalho.”
A fala expõe uma camada que muitas vezes não aparece nas discussões sobre inclusão. Não basta abrir vagas ou dizer que mães são bem-vindas. Para que uma mãe atípica permaneça, o modelo precisa admitir que a vida dela pode exigir deslocamentos inesperados, consultas frequentes, internações e períodos de cuidado intensivo.
Sem isso, a escolha se torna quase sempre desigual: manter o emprego ou acompanhar o filho.
Dois meses no CTI
O ponto mais difícil da trajetória de Raissa no empreendedorismo digital veio quando o cuidado deixou de ser rotina e virou risco extremo.
No ano passado, ela precisou se afastar de projetos porque o filho passou mais de dois meses internado no CTI. A situação suspendeu planos, vendas, conteúdos e compromissos profissionais. Também colocou em perspectiva tudo o que havia sido construído até ali.
“O momento mais difícil dessa jornada de empreendedorismo digital foi no ano passado, quando tive que me ausentar de diversos projetos por estarmos passando mais de dois meses de internação no CTI do meu filho.”
A frase revela uma realidade que o mercado de trabalho tradicional quase nunca consegue absorver: há períodos em que a mãe não precisa apenas de flexibilidade. Precisa parar. Precisa permanecer no hospital. Precisa lidar com o medo, com a incerteza e com a possibilidade real de perda.
Raissa resume aquele período em poucas palavras: “Eu quase o perdi e fiquei sem rumo.”
Essa é a passagem mais forte da história porque retira qualquer verniz de romantização do empreendedorismo. Não se trata de uma mãe que “aprendeu a vender pela internet” apenas para aproveitar uma tendência digital. Trata-se de alguém que precisou construir uma renda possível em uma vida que pode ser interrompida por uma internação prolongada.
Quando o filho está no CTI, o algoritmo não espera. As vendas não esperam. Os projetos não esperam. Mas a prioridade muda de lugar. A maternidade, nesses momentos, engole qualquer planejamento.
É por isso que a renda digital aparece como saída, mas também como fragilidade. Ela permite mobilidade. Permite retomada. Permite recomeço. Mas depende de uma pessoa que, muitas vezes, está no limite físico e emocional.
Influência digital como forma de permanência
A história de Raissa mostra um aspecto específico da maternidade atípica empreendedora: nem todo negócio nasce de uma loja, de um produto físico próprio ou de uma sala comercial. Às vezes, nasce de um perfil, de um celular, de uma comunidade e da capacidade de transformar presença digital em renda.
Como influenciadora e vendedora online, ela atua em um ambiente que exige constância. É preciso aparecer, comunicar, conquistar confiança, testar produtos, divulgar links, responder dúvidas, organizar vendas e manter relacionamento com o público.
Para uma mãe com rotina de cuidado complexa, essa escolha tem uma ambiguidade. O digital permite trabalhar sem depender de um escritório. Mas também exige exposição, disciplina e disponibilidade em uma vida que nem sempre oferece estabilidade.
É nessa tensão que Raissa constrói sua presença.
A venda de produtos de beleza online entra como fonte de renda, mas também como forma de manter uma identidade profissional. O trabalho nas redes permite que ela continue produzindo, mesmo quando não consegue assumir um emprego tradicional. Permite que ela exista para além do cuidado, sem abandonar o cuidado.
Ao mesmo tempo, sua atuação como embaixadora de uma plataforma voltada a pessoas com deficiência e cuidadores amplia o alcance da própria experiência. A história pessoal se conecta a outras famílias. A mãe que precisou buscar saída para a própria casa passa a dialogar com pessoas que também precisam de renda, acesso, escuta e visibilidade.
A renda que precisa caber na urgência
A trajetória de Raissa reforça uma pergunta central sobre mães atípicas e trabalho: que tipo de modelo econômico permite que uma mulher gere renda sem ser punida por cuidar?
No caso dela, o digital surgiu como alternativa porque oferecia algo que o mercado formal não entregava: mobilidade. A possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, em horários quebrados, com o celular como ferramenta principal, tornou possível uma forma de permanência profissional.
Mas essa solução individual não elimina o problema coletivo.
Quando mães atípicas precisam abandonar o emprego formal para cuidar dos filhos, a consequência aparece na renda da família, na carreira dessas mulheres, na autonomia financeira e na sobrecarga emocional. Quando o mercado não oferece liberdade geográfica, horário flexível ou apoio real, o empreendedorismo passa a ser saída — mesmo quando nasce em meio à exaustão.


