A Don Terapy, criada por Nadja Menezes a partir da rotina com o filho Don, autista, transformou uma necessidade familiar em negócio voltado a recursos sensoriais, pedagógicos e inclusivos. Tudo começou quando ela precisava comprar brinquedos para o filho e não encontrava. A partir daí, pensou que milhares de mães deveriam passar pelo mesmo problema.
Com um perfil no Instagram e site, a empresa vende, para todo o Brasil, brinquedos para crianças atípicas, focados em experiências sensoriais e educativas.
“Eu costumo brincar que minha agenda parece uma operação logística de alta complexidade”, diz. O filho Don faz terapias diariamente em outra cidade. Por isso, boa parte da semana da família passa pela estrada, pelas salas de espera, pelas idas e vindas e pelos intervalos que se tornam, também, horário de trabalho.
“Meu dia começa por volta das 5h30 da manhã. Entre preparar a casa, organizar os meninos e sair para os compromissos, tudo funciona praticamente no cronômetro”, conta.
É nesse cronômetro que a Don Therapy existe.
Entre uma terapia e outra, Nadja responde clientes. Dentro do carro, organiza pedidos. Na sala de espera, faz orçamentos. Enquanto aguarda o fim dos atendimentos, pensa em novos projetos. O local de trabalho não é fixo porque a rotina de cuidado também não permite fixidez.
“Costumo dizer que meu escritório muda de endereço várias vezes ao dia: às vezes é a clínica, às vezes é o carro, às vezes é a mesa da cozinha.”
A frase explica mais do que uma agenda apertada. Ela mostra como o negócio nasceu: não em um escritório planejado, mas dentro da vida real de uma mãe atípica tentando conciliar renda, cuidado, presença e sobrevivência emocional.
A busca por recursos para Don virou negócio
A Don Therapy nasceu antes como necessidade doméstica do que como plano empresarial. Nadja procurava materiais que ajudassem o filho no desenvolvimento, na regulação emocional e na autonomia.
“A Don nasceu da minha própria necessidade como mãe atípica. Meu filho Don é autista e, ao longo da nossa jornada, eu percebi como era difícil encontrar recursos sensoriais, pedagógicos e inclusivos que realmente ajudassem no desenvolvimento, na regulação emocional e na autonomia dele”, afirma.
No começo, ela buscava esses materiais apenas para uso da própria família. Mas, conforme passou a estudar mais sobre neurodiversidade, inclusão e desenvolvimento infantil, percebeu que a dificuldade não era só dela. Outras famílias também procuravam ferramentas, acolhimento e orientação. Profissionais e escolas também precisavam de recursos mais adequados. A experiência pessoal começou a revelar uma demanda coletiva.
“Conforme fui estudando mais sobre neurodiversidade, inclusão e desenvolvimento infantil, percebi que muitas outras famílias enfrentavam as mesmas dificuldades.”
Foi nesse ponto que a necessidade virou empresa
Mas Nadja não apresenta essa virada como uma história simples de inspiração. Ela não trata o empreendedorismo como uma escolha romântica, nem como um plano que estava guardado esperando o momento certo.
“Empreender não foi uma escolha planejada. Foi uma necessidade.”
A frase é central para entender a Don Therapy. O negócio nasceu porque a carreira tradicional não cabia mais na rotina da família.
“Eu não conseguia conciliar uma carreira tradicional com a rotina intensa de terapias, consultas, reuniões escolares e os cuidados que meu filho precisava diariamente, além da responsabilidade de cuidar dos meus outros filhos.”
A Don surgiu, segundo ela, desse encontro entre necessidade e propósito. A empresa passou a representar uma forma de gerar renda e, ao mesmo tempo, transformar a experiência vivida dentro de casa em algo útil para outras famílias.
“Hoje, mais do que uma empresa, ela representa a oportunidade de transformar a experiência que vivi em algo que possa ajudar outras famílias, profissionais e escolas.”
O cuidado atípico também é uma jornada de trabalho
“Uma mãe atípica não falta porque quer” Para Nadja, o mercado de trabalho tradicional ainda não compreende a realidade de uma mãe atípica.
Ela conta que a maternidade atípica não deve ser vista apenas como uma versão mais intensa da maternidade. A diferença está na carga permanente de organização, acompanhamento médico, terapêutico e escolar.
“Acredito que o mercado de trabalho ainda não compreende que a maternidade atípica não é apenas uma versão mais intensa da maternidade. Ela envolve uma carga extra de cuidados, organização, acompanhamento médico, terapêutico e escolar que muitas vezes ocupa o equivalente a mais de um emprego.”
A fala é dura porque desmonta uma leitura comum: a de que flexibilidade seria privilégio, concessão ou falta de disciplina. Para quem vive o cuidado atípico, a flexibilidade não é luxo. É condição de permanência.
“Uma mãe atípica não falta porque quer. Ela não precisa de flexibilidade porque está desorganizada. Ela precisa porque está administrando uma rotina extremamente complexa, muitas vezes sem rede de apoio.”
A frase poderia resumir a distância entre o discurso corporativo sobre inclusão e a realidade de quem precisa lidar com escola, terapia, consulta, crises, deslocamentos e trabalho remunerado ao mesmo tempo.
Nadja conhece essa fronteira de perto. “Eu já vivi a sensação de precisar escolher entre estar presente para meu filho ou manter uma carreira tradicional. Nenhuma mãe deveria ter que fazer essa escolha.” É nessa escolha forçada que o empreendedorismo aparece. Não como caminho mais fácil, mas como o caminho que coube.
“O que falta não é capacidade profissional. Falta compreensão de que pessoas diferentes precisam de condições diferentes para poder entregar seu melhor.”
Quando empreender não elimina a sobrecarga
A Don Therapy deu a Nadja uma forma de trabalhar sem se afastar da rotina do filho. Também deu renda, autonomia e a possibilidade de transformar conhecimento vivido em produto, atendimento e projeto.
Mas a empresa não apagou a sobrecarga.
Ao contrário: em muitos momentos, o trabalho se somou ao cuidado. A rotina passou a exigir que ela fosse mãe, cuidadora, gestora, vendedora, planejadora, pesquisadora e administradora ao mesmo tempo.
A empreendedora reconhece que o momento mais difícil foi perceber que a vida imaginada para a família não seria exatamente como havia planejado.
“O momento mais difícil foi perceber que a vida que eu imaginava para minha família não seria exatamente como eu havia planejado.”
Vieram os diagnósticos, as incertezas, a busca por tratamentos, as dificuldades na escola e a tentativa constante de manter a estabilidade financeira da casa. “Receber diagnósticos, enfrentar incertezas, buscar tratamentos, lidar com dificuldades na escola e, ao mesmo tempo, tentar manter a estabilidade financeira da casa foi extremamente desafiador.”
A rotina cobrou preço físico, emocional e financeiro
“Houve momentos de exaustão física, emocional e financeira. Momentos em que parecia que eu precisava ser mãe, terapeuta, professora, empreendedora e administradora ao mesmo tempo.”
É nesse ponto que a história da Don Therapy escapa da narrativa simples de superação. O negócio ajudou, mas não resolveu sozinho a falta de apoio. Gerou renda, mas não eliminou a insegurança. Trouxe propósito, mas não retirou o peso de uma rotina que continua exigindo presença quase integral.
A diferença é que, dentro dessa sobrecarga, Nadja encontrou uma forma de continuar.
“O que me fez continuar foi olhar para os meus filhos. Principalmente para o Don. Cada pequena conquista dele sempre me mostrou que valia a pena seguir em frente.”
Na Don Therapy, cada produto tem uma camada que vai além da venda. A marca nasceu da trajetória de Don e da busca de Nadja por recursos que realmente fizessem diferença na rotina do filho. Por isso, quando outra mãe relata que um material ajudou uma criança ou que se sentiu acolhida, a empresa volta ao seu ponto de origem.
“Também me motivou perceber que a minha experiência poderia ajudar outras famílias. Quando uma mãe me diz que um produto da Don ajudou seu filho ou que ela se sentiu acolhida, eu lembro por que comecei e encontro forças para continuar.”
Essa troca transforma a relação com o negócio. A Don Therapy não é apenas uma empresa que vende recursos inclusivos. É uma marca criada por alguém que conhece a necessidade antes de transformá-la em produto.
Nadja resume o significado da empresa em uma resposta ampla. “Hoje a Don representa tudo isso junto.”
Mais do que uma empresa maior
Quando fala sobre o futuro, Nadja não limita o sonho ao crescimento empresarial. Não fala apenas em vender mais, ampliar estrutura ou aumentar a marca. Ela fala em inclusão.
“Quando penso no futuro, não sonho apenas com uma empresa maior. Sonho com mais inclusão, mais informação e mais oportunidades para famílias como a minha.”
Essa frase dá à Don Therapy uma dimensão que ultrapassa o empreendedorismo individual. O negócio é importante porque sustenta uma família, mas também porque nasce de uma lacuna: a dificuldade de encontrar recursos, acolhimento e caminhos práticos para famílias atípicas.
A empresa revela a capacidade de adaptação de uma mãe. Mas revela também uma falha do modelo de trabalho, da rede de apoio e da forma como a sociedade distribui o cuidado.
E talvez seja justamente essa a força da história: uma empresa criada entre terapias, estrada e mesa de cozinha mostra que o cuidado invisível também produz conhecimento, renda e inovação. Mas mostra, sobretudo, que nenhuma mãe deveria precisar escolher entre estar presente para o filho e continuar existindo profissionalmente.
Apoie a empresa seguindo a conta do Instagram, aqui. E conheça os produtos no site, aqui.


