Entre 2019 e a sua renúncia em março de 2026, o ex-governador Romeu Zema (Novo) capitaneou uma forte política de desestatizações e venda de ativos públicos em Minas Gerais. Enquanto as operações bilionárias envolvendo o Metrô de Belo Horizonte e a Copasa ganharam as manchetes, o Estado transferiu silenciosamente para a iniciativa privada negócios estratégicos nos setores de helicópteros, lítio, telecomunicações e terras raras.
Juntas, apenas quatro alienações geridas pela Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) — Companhia Brasileira de Lítio (CBL), Helibras, Datora e LabFabITR — movimentaram cerca de R$ 496 milhões para os cofres estaduais.
Olhar para esse raio-x é essencial para que o eleitor e o consumidor entendam como o Estado se desfez de participações minoritárias em setores que, hoje, ditam a inovação e a economia global.
A saída estratégica de helicópteros, lítio, telecom e terras raras
Um dos casos que mais ilustra essa limpeza de portfólio é o da Helibras, instalada em Itajubá (Sul de Minas). A Codemge detinha 15,51% da única fabricante de helicópteros a turbina da América Latina. Em janeiro de 2023, vendeu sua fatia inteira para a Airbus Helicopters (que já controlava a empresa) por R$ 95 milhões.
Meses antes, o governo havia deixado outro mercado que explodiria na corrida global pela eletrificação. Em setembro de 2022, o Estado repassou seus 33,33% na Companhia Brasileira de Lítio (CBL). A operação rendeu R$ 208 milhões após os acionistas controladores exercerem o direito de preferência. A CBL é vital: minera em Araçuaí e possui a única produção integrada de concentrado e compostos de lítio no Brasil (o Vale do Jequitinhonha, inclusive, viveu um boom logo em seguida por causa dessas baterias).
O repasse de ativos continuou:
- Datora (Arqia): Em agosto de 2024, Minas vendeu seus 23,38% na empresa de telecomunicações focada em Internet das Coisas (IoT) por R$ 157,75 milhões aos demais acionistas. (Curiosidade: em 2026, a mesma Arqia comprou a divisão de IoT da mineira Algar Telecom por R$ 720 milhões).
- LabFabITR: Em dezembro de 2023, a Codemge vendeu a estrutura física e tecnológica do primeiro laboratório-fábrica de ímãs de terras raras do Hemisfério Sul (em Lagoa Santa) para a Fiemg por R$ 35 milhões. Hoje, a estrutura é crucial para a produção de motores elétricos e equipamentos de defesa.
Metrô e Copasa: os “pesos-pesados” são mais complexos

No caso do Metrô de Belo Horizonte, o discurso fácil de que “Zema vendeu o metrô por R$ 25 milhões” ignora a modelagem da concessão. A empresa que operava o sistema (CBTU) era federal. O governo mineiro assinou a concessão de 30 anos e se comprometeu com R$ 428 milhões, enquanto a União injetou R$ 2,8 bilhões para que o Grupo Comporte assumisse a operação com previsão de melhorias.
Já a Copasa exige precisão na linha do tempo. Romeu Zema enviou o projeto de privatização e o sancionou em dezembro de 2025. Contudo, o martelo só foi batido na Bolsa de Valores em 16 de junho de 2026, três meses após Zema renunciar e passar a cadeira para Mateus Simões.
A oferta pública levantou R$ 8,38 bilhões. A Equatorial tornou-se a maior acionista (30%) e a Perfin levou 20,11%. Minas Gerais reduziu sua participação de 50,03% para um residual de 5,03%, mantendo apenas uma golden share (ação com poder de veto em decisões estratégicas). Ou seja, a Equatorial manda na Copasa hoje, mas não é dona de 100% da companhia.
O inventário da era Zema prova que a política de desestatização foi implacável e metódica: do refino de lítio no interior ao saneamento básico na capital, o Estado optou por sair de cena para fazer caixa.


