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Metrô de BH subiu quase o dobro da inflação desde a privatização e tem o valor mais caro por km do Brasil

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A tarifa do metrô de Belo Horizonte pode subir novamente em julho de 2026. O valor atual é de R$ 5,80 e, se o reajuste anual previsto no contrato de concessão for aplicado com base na inflação de 12 meses até março (que ficou em 4,14%), a passagem pode se aproximar de R$ 6,04 antes de eventuais arredondamentos. O novo preço ainda não foi oficializado pelo Governo de Minas, mas a possibilidade já acende o debate sobre custo e cobertura do sistema na Região Metropolitana, que conta com uma única linha em operação, 20 estações e 29,8 km de extensão.

A situação ganha contornos mais delicados quando BH é comparada a outras capitais. O metrô de São Paulo cobra R$ 5,40 e oferece uma rede metroferroviária de mais de 380 km. Brasília cobra R$ 5,50 com 42,38 km. Salvador cobra R$ 4,10 com 38 km. Porto Alegre cobra R$ 5 com 43,8 km. Apenas o Rio de Janeiro, com R$ 7,90, registra tarifa mais alta que BH entre os grandes sistemas do país.

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Quanto a tarifa subiu desde a concessão

O metrô de Belo Horizonte foi concedido à iniciativa privada em março de 2023. Nos meses seguintes, a passagem passou de R$ 4,50 para R$ 5,30 (alta de 17,78%), justificada pelo governo como correção de inflação acumulada entre 2021 e 2023, período em que a tarifa ficou congelada. Em julho de 2024, o valor foi para R$ 5,50. Em julho de 2025, chegou a R$ 5,80.

A alta acumulada desde antes da concessão é de 28,9%. No mesmo intervalo, o IPCA registrou avanço de cerca de 15,6% entre abril de 2023 e maio de 2026. A tarifa, portanto, avançou aproximadamente 13 pontos percentuais acima da inflação medida no período.

A comparação exige uma ressalva: parte do primeiro reajuste foi atribuída à inflação represada antes da concessão, não ao período privado em si. Do ponto de vista do passageiro, porém, a conta é direta: quem pagava R$ 4,50 paga R$ 5,80 hoje. Se o reajuste de julho for confirmado, a alta acumulada crescerá ainda mais.

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O impacto no bolso de quem usa o metrô todo dia

(Reprodução/@metrobhoficial/Instagram)

Com a tarifa atual de R$ 5,80, um trabalhador que usa o metrô nos dois sentidos durante 22 dias úteis por mês gasta R$ 255,20 com transporte. Se a passagem for para R$ 6,04, o mesmo trajeto custará R$ 265,76 mensais, diferença de R$ 10,56 por mês, o que representa mais de R$ 126 ao longo de um ano apenas no metrô.

O impacto é mais amplo para quem não mora próximo a uma estação. A linha atual atende um eixo que conecta Contagem ao extremo Norte de BH, passando por bairros como Centro, Lagoinha, Santa Efigênia, Horto, Minas Shopping, São Gabriel e Vilarinho. Regiões populosas como Barreiro, Venda Nova, Pampulha, Nova Lima, Betim e boa parte da periferia metropolitana ficam fora do alcance direto da linha.

Quem mora nessas áreas precisa combinar o metrô com ônibus alimentador, aplicativo ou outro modal para completar o trajeto. O custo real de deslocamento fica bem acima da tarifa da catraca.

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O que a concessão entregou e o que ainda está pendente

O governo e a concessionária defendem que os reajustes anuais estão previstos em contrato e integram um processo de modernização estrutural do sistema. Os investimentos anunciados incluem a compra de 24 novos trens fabricados na China, revitalização de estações, ampliação da Linha 1 e construção da Linha 2, que deve conectar o Barreiro à Nova Suíça.

A Estação Novo Eldorado, inaugurada em fevereiro de 2026 em Contagem, foi a primeira expansão do metrô em mais de duas décadas. A obra acrescentou 1,7 km à malha e elevou o sistema para 20 estações, marco real, mas modesto diante da escala da Região Metropolitana, que tem mais de 5 milhões de habitantes.

O problema mais visível para o usuário é o descompasso de tempo. A tarifa sobe anualmente. Os novos trens ainda não mudaram a rotina de quem usa o sistema diariamente. A Linha 2 segue em obras sem prazo de conclusão que altere o cenário a curto prazo. A rede continua limitada para a demanda de uma metrópole desse porte.

BH cobra mais e entrega menos rede que a maioria das capitais

A comparação com outras cidades não é perfeita. Cada sistema tem contrato próprio, modelo de subsídio, custo operacional específico e nível diferente de integração com outros modais. Ainda assim, os números ajudam a entender por que o reajuste pesa mais em BH do que em outras capitais.

Recife cobra R$ 4,25 com cerca de 39,5 km de metrô. Fortaleza mantém tarifa congelada em R$ 3,60 com subsídio público. São Paulo cobra R$ 5,40 em um sistema que inclui metrô, linhas concedidas e trens metropolitanos com alcance muito superior. Em todos esses casos, o usuário paga menos ou recebe mais cobertura pelo valor da passagem.

Em BH, a equação ainda não fechou. A concessão trouxe perspectiva de investimentos que o sistema precisava há décadas. Mas o passageiro que paga R$ 5,80 (e possivelmente R$ 6 em julho) ainda usa uma rede de linha única que cobre uma fração da cidade. A tarifa de sistema grande chegou antes da rede de sistema grande.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP. Tem experiência em jornalismo esportivo e de cidades e economia e passou pelo setor público e em assessoria de imprensa.