O ex-governador Romeu Zema (Novo) decidiu reacender um dos debates mais explosivos e sensíveis da economia brasileira: a descentralização do piso salarial. De olho na corrida presidencial de 2026, a proposta sugere a criação de salários mínimos regionais, extinguindo o ganho real anual de trabalhadores e aposentados.
Pela tese, a remuneração base e os benefícios previdenciários passariam a ser reajustados estritamente pela inflação. O ônus de definir pisos superiores seria repassado aos estados. Essa manobra silenciosa ameaça redesenhar o mapa de renda do país e traz consequências imediatas e severas para a economia de Minas Gerais.
A armadilha legal do piso regional
A estratégia defendida por Zema parte de um argumento federativo que soa lógico em um primeiro momento: estados do Norte e Nordeste possuem realidades de custo de vida e produtividade drasticamente diferentes do Sul e Sudeste, e por isso não deveriam ser forçados a arcar com os mesmos tetos salariais.
O que a grande maioria do eleitorado desconhece é que a arquitetura legal para isso já está pronta. A Lei Complementar 103/2000 permite que governos estaduais instituam pisos próprios para categorias sem acordos sindicais. A intenção de Zema é transformar essa brecha legislativa em uma política de governo estrutural.
Hoje, alguns dos maiores polos econômicos do país já usam a manobra para reter mão de obra. São Paulo sancionou um piso de R$ 1.804, beneficiando 76 categorias. O Paraná renovou neste ano suas faixas regionais, que variam entre R$ 2.105,34 e R$ 2.407,90. Em contrapartida, o piso federal estipulado por Brasília opera atualmente na faixa de R$ 1.621.
O impacto direto no contracheque mineiro
Apesar de ser a principal base política de Romeu Zema, Minas Gerais não possui um salário mínimo regional vigente. Para que o projeto saia dos estúdios de televisão e chegue às carteiras de trabalho, a Assembleia precisaria aprovar um texto específico estipulando os valores.

Caso essa barreira legislativa seja rompida, o impacto na dinâmica econômica local seria profundo. Segundo levantamento do Moon BH, cruzando os microdados oficiais do Novo Caged, o estado abriu 38.845 vagas formais apenas em março de 2026 — com uma esmagadora concentração no setor de serviços (17.865 postos).
A criação de um teto estadual atingiria de forma cirúrgica as categorias de baixa renda e os setores que mais empregam, como o comércio varejista, a construção civil e a agropecuária.
O dilema entre o poder de compra e o caixa das empresas
Do lado do trabalhador mineiro, a regionalização é vendida como sinônimo de respiro financeiro. Adequar o salário ao custo real de vida das regiões metropolitanas injetaria força no comércio local. Uma população com maior poder de compra faz a roda da economia girar mais rápido, salvando supermercados e varejistas de bairro da estagnação.
No entanto, a fatura desse incremento recai integralmente sobre a iniciativa privada. Como Minas Gerais possui uma rede empresarial dominada por microempreendedores e pequenos negócios, a elevação forçada e abrupta da folha de pagamento tem potencial para espremer margens de lucro, frear o ritmo de novas contratações e fomentar a informalidade. Ironicamente, o modelo que Zema defende com base na “competitividade” pode asfixiar quem mais emprega no estado.
Ameaça invisível ao pacto federativo e às aposentadorias
A tese encontra oposição feroz entre economistas especializados em mercado de trabalho, e o maior perigo está nas entrelinhas. Caso o mínimo nacional deixe de existir como ferramenta de proteção robusta, estados com economias mais frágeis tendem a achatar seus pisos para tentar atrair indústrias e empresas terceirizadas, criando trabalhadores de primeira e segunda classe com base no CEP.
A inclusão das aposentadorias no pacote de congelamento agrava o peso da proposta. Retirar o aumento real de pensionistas afeta mortalmente milhares de municípios brasileiros que dependem exclusivamente dos repasses do INSS para manter o comércio de pé.


