O etanol ficou mais barato em Minas Gerais e o efeito já aparece na bomba. O preço ao produtor caiu 23% desde abril, passando de R$ 2,89 para R$ 2,22 por litro sem impostos, e chegou em Belo Horizonte com uma vantagem clara sobre a gasolina: litro do etanol hidratado encontrado em média a R$ 3,67, contra R$ 5,87 da gasolina.
A paridade ficou em 62,5%, bem abaixo da regra prática dos 70%, limite em que o biocombustível costuma ser considerado mais econômico para veículos flex. O Moon BH calculou que a economia pode chegar a 12% no custo por quilômetro rodado na capital.
A causa está no campo. A consequência está no tanque. E a oportunidade, para Minas, vai muito além do preço do combustível.
Por que o etanol caiu agora
A explicação começa com a safra. A produção mineira de cana-de-açúcar 2026/2027 deve atingir 83,3 milhões de toneladas, crescimento de 11,6% sobre o ciclo anterior. O ganho vem principalmente da recuperação da produtividade agrícola, que deve saltar de 72,1 para 79,4 toneladas por hectare.
Com mais cana disponível, as usinas produzem mais. No cenário base, Minas deve fabricar cerca de 3,04 bilhões de litros de etanol, alta de 13% na safra. Em um cenário mais favorável ao biocombustível, a produção poderia chegar a 3,34 bilhões de litros.
A safra nacional de grãos reforça o movimento. A produção brasileira estimada de 358 milhões de toneladas em 2025/2026 amplia a oferta de milho, matéria-prima crescente na produção de etanol no país. Mais cana, mais milho e mais capacidade industrial resultam em oferta maior. Quando a demanda não acompanha, o preço cede.
Etanol ou gasolina: como fazer a conta agora
A regra prática é simples. Se o etanol custar menos de 70% do preço da gasolina, ele tende a ser mais econômico para veículos flex, que têm menor rendimento com biocombustível.
Em Belo Horizonte, a paridade atual de 62,5% está bem abaixo desse limite.
| Combustível | Preço médio em BH |
|---|---|
| Etanol hidratado | R$ 3,67/litro |
| Gasolina | R$ 5,87/litro |
| Paridade | 62,5% |
A economia de 12% no custo por quilômetro rodado pode parecer pequena isolada. Para quem abastece 40 litros por semana, representa dezenas de reais a menos por mês.
Quem sente mais a diferença
Motoristas de aplicativo e entregadores têm combustível como principal custo variável. Uma queda dessa magnitude muda diretamente a margem de quem roda centenas de quilômetros por semana.
Famílias que se deslocam entre cidades da Região Metropolitana de BH, pequenos empresários de transporte, representantes comerciais e produtores rurais também capturam o benefício de forma rápida.
O impacto indireto aparece na inflação. Combustível mais barato alivia frete curto, entregas urbanas e parte da cadeia de serviços. Não resolve sozinho o custo de vida, mas reduz pressão em uma despesa recorrente.
O repasse ainda não chegou igual em todo o estado
O Moon BH apurou que cidades como Uberlândia ainda resistem a repassar integralmente a queda para as bombas. A diferença depende de fatores locais: concorrência entre postos, logística de distribuição, distância das regiões produtoras e margem de revenda.
O consumidor que quiser aproveitar o momento precisa pesquisar antes de abastecer. A competição entre postos num mesmo bairro pode ser decisiva para capturar a vantagem que chegou da usina.
O Triângulo Mineiro como epicentro da safra
A abertura da safra 2026/2027 ocorreu em Uberaba, região que concentra usinas, produção de cana e logística agrícola. Quando o etanol ganha competitividade, o Triângulo se beneficia em várias frentes: mais movimentação nas usinas, contratação de mão de obra, demanda por transporte e arrecadação municipal.
As usinas também têm flexibilidade para direcionar mais cana ao etanol ou ao açúcar conforme preço internacional, câmbio e demanda interna. Essa capacidade de mudar o mix produtivo é uma vantagem econômica estrutural para Minas.
Etanol se soma à liderança solar e reforça a posição de Minas em renováveis
O barateamento do etanol acontece no mesmo momento em que Minas consolida outra frente renovável. O estado ultrapassou 14,36 GW de potência fiscalizada em energia solar, superando a capacidade da Usina de Itaipu. Mais de 96% da matriz elétrica mineira é formada por fontes renováveis.
Essa combinação posiciona Minas de forma única no Brasil: energia limpa para indústrias, combustível renovável para transporte e potencial para projetos de baixo carbono. Empresas que precisam reduzir emissões e mostrar sustentabilidade na cadeia produtiva olham cada vez mais para estados com esse perfil.
O etanol também tem potencial além do tanque: pode ser base para bioeletricidade, biometano, créditos de descarbonização e insumos para uma economia de baixo carbono. A cadeia da cana pode gerar combustível, energia e fertilizante orgânico ao mesmo tempo.
O que pode mudar esse cenário
A vantagem atual do etanol não é permanente. Os preços podem voltar a subir se o açúcar ficar mais rentável nas usinas, se houver quebra de safra por seca ou geada, se a demanda externa por etanol crescer ou se o petróleo alterar a paridade com a gasolina.
Por isso, quem usa veículo flex tem vantagem agora. E vale aproveitar enquanto o cenário permite.


