A Rede Mater Dei nasceu em Belo Horizonte, cresceu durante décadas com reputação de hospital de alta complexidade em Minas e agora se prepara para um movimento que muda sua escala: chegar a São Paulo. A primeira unidade na capital paulista está prevista para o fim de 2028, no bairro de Santana, na Zona Norte, em parceria com a Atlântica Hospitais, ligada ao Bradesco.
A entrada em São Paulo não é apenas mais uma inauguração. É um teste de maturidade para uma empresa mineira que saiu da Região Metropolitana de Belo Horizonte, abriu capital, comprou e incorporou ativos em outros estados e tenta provar que consegue competir em praças mais disputadas da saúde privada brasileira. Hoje, a rede tem nove unidades distribuídas entre Minas Gerais, Bahia e Goiás, com presença em Belo Horizonte, Betim, Nova Lima, Uberlândia, Salvador, Feira de Santana e Goiânia.
O novo hospital se chamará Mater Dei Santana. O projeto mira uma região de alta densidade populacional, mas com menor concentração de hospitais privados de alta complexidade quando comparada ao eixo centro-sul de São Paulo. O diagnóstico da rede é direto: há um público grande na Zona Norte que muitas vezes precisa cruzar a cidade para buscar atendimento mais completo.
De hospital mineiro a rede nacional
A história do Mater Dei começou em 1980, em Belo Horizonte. Por muito tempo, a marca esteve associada principalmente à capital mineira e ao atendimento de alta complexidade em unidades como Santo Agostinho e Contorno. A virada veio depois do IPO, em 2021, quando a companhia captou R$ 1,4 bilhão e passou a acelerar a expansão geográfica.
Desde então, a rede deixou de ser um grupo essencialmente mineiro para se tornar uma operação nacional. Vieram Salvador, Goiânia, Feira de Santana, Uberlândia e Nova Lima. O Mater Dei Nova Lima, inaugurado em 2024, virou uma das peças mais importantes dessa nova fase, tanto pela proximidade com a Grande BH quanto pelo potencial de expansão em especialidades de maior valor, como oncologia.
O movimento para São Paulo é mais ambicioso. A capital paulista é o mercado mais competitivo da saúde privada no Brasil. Reúne marcas como Einstein, Sírio-Libanês, Rede D’Or, Dasa, Hapvida NotreDame Intermédica, São Luiz e outros grupos com escala, relacionamento com operadoras e médicos de referência. Entrar nesse ambiente exige mais do que boa reputação em Minas. Exige localização, corpo clínico, tecnologia, eficiência operacional e capacidade de atrair convênios e pacientes.
O Mater Dei tenta fazer isso com um modelo de parceria. Segundo o NeoFeed, a construção do hospital paulistano terá R$ 600 milhões vindos do Bradesco, por meio da BSP Empreendimentos Imobiliários. A gestão operacional será da rede mineira, enquanto as duas companhias dividirão os custos de equipamentos, estimados em R$ 100 milhões.
Esse desenho reduz parte do peso financeiro da expansão e mostra como o mercado de capitais e grandes grupos financeiros entraram de vez na saúde. Hospital deixou de ser apenas negócio familiar ou filantrópico. Virou ativo de longo prazo, com imóveis, tecnologia, relacionamento com operadoras, especialidades rentáveis e capacidade de gerar caixa.
IA, eficiência e oncologia entram no plano
A chegada a São Paulo também faz parte de uma estratégia mais ampla de eficiência. No primeiro trimestre de 2026, o Mater Dei registrou receita líquida de R$ 575 milhões, alta de 15% sobre o mesmo período do ano anterior. O Ebitda ajustado chegou a R$ 130 milhões, avanço de 34,6%, e o lucro líquido ajustado foi de R$ 36 milhões.
Esses números importam porque a expansão hospitalar é cara. Abrir unidade, comprar equipamento, atrair médicos, contratar equipes e manter padrão assistencial consome capital. O desafio do Mater Dei é crescer sem repetir erros de empresas que expandiram rápido demais e ficaram pressionadas por dívida, integração difícil e relação tensa com fornecedores.
A rede tem defendido que parte da resposta está em tecnologia. Entre os projetos citados pela companhia estão robôs cirúrgicos, sistemas de diagnóstico precoce, prontuário inteligente, integração em nuvem e soluções de inteligência artificial desenvolvidas com a A3Data. Um dos exemplos é o “Maria”, aplicativo de coordenação digital do cuidado com apoio de equipe multiprofissional.
A promessa é reduzir burocracia, melhorar jornada do paciente e aumentar produtividade hospitalar. Mas há uma diferença entre ter projetos de IA e provar impacto assistencial em escala. Em saúde, tecnologia só vira vantagem competitiva quando reduz tempo, melhora diagnóstico, evita retrabalho, aumenta segurança e ajuda médicos e equipes a tomar decisões melhores.


