A fabricante chinesa de maquinário pesado XCMG, que mantém sua principal base industrial sul-americana em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, oficializou um contrato de aproximadamente R$ 500 milhões para a venda de veículos rodoviários de carga. O acordo prevê o fornecimento de 251 cavalos mecânicos do modelo E7-95T, movidos de forma 100% elétrica.
A frota foi adquirida pela Transportadora Navarini, companhia sediada no município de Sorriso, no estado de Mato Grosso. A empresa compradora atua na logística rodoviária e concentra suas operações no escoamento das safras do agronegócio. A assinatura formal do contrato milionário ocorreu na sede global da montadora, na cidade de Xuzhou, na China.
De acordo com a própria fabricante asiática, a transação consolida a maior compra de caminhões rodoviários pesados movidos a eletricidade já registrada em toda a América Latina. O dado tem como base os registros comerciais internos da companhia para o mercado regional.
O cálculo aritmético do volume financeiro anunciado ajuda a dimensionar o porte da operação. A divisão do montante total de R$ 500 milhões pelas 251 unidades contratadas resulta em um valor médio equivalente a R$ 1,99 milhão por caminhão. A cifra funciona como uma referência mercadológica, já que a empresa não detalhou publicamente se o contrato engloba, além dos chassis, a prestação de serviços de manutenção de longo prazo, peças de reposição e infraestrutura de suporte.
Chinesa entra mirando o agro com caminhões
O destino da nova frota altera o paradigma da mobilidade elétrica no Brasil. Até este momento, a eletrificação de veículos comerciais no país concentrava-se majoritariamente em entregas urbanas ou em percursos logísticos de curta distância, que possuem rotas previsíveis e permitem recargas facilitadas em bases metropolitanas.
Com o novo contrato da Navarini, os caminhões elétricos serão direcionados para o escoamento de grãos em rodovias de longa distância. Antes de o martelo ser batido, as duas companhias realizaram testes operacionais em condições reais de uso. Os ensaios validaram o comportamento da tração do veículo diante do relevo brasileiro, o consumo das baterias e o desempenho mecânico durante viagens com capacidade máxima de carga.
O modelo E7-95T foi concebido especificamente para suportar as intempéries operacionais do transporte pesado. A ficha técnica liberada pela montadora informa que o caminhão possui Peso Bruto Total Combinado (PBTC) de 74 toneladas e capacidade máxima de tração homologada em 120 toneladas.
O veículo conta com configuração de eixos 6×4, tradicional no transporte de grãos, e é equipado com um banco de baterias de 400 kWh do tipo LFP (lítio-ferro-fosfato). Para sustentar a viabilidade da operação logística no campo, a infraestrutura dependerá da instalação estratégica de uma rede de eletropostos nas rotas mapeadas, além do controle de custos atrelados ao tempo de inatividade para recarga e às tarifas de energia aplicadas.
A relação estrutural com Minas Gerais
O negócio tem relação direta com a estrutura operacional mantida pela companhia em Minas Gerais. A XCMG inaugurou a sua fábrica em Pouso Alegre em 2014. O complexo industrial possui uma área total de cerca de um milhão de metros quadrados, abrigando 150 mil metros quadrados de área construída em galpões, com capacidade instalada declarada para produzir até 7 mil máquinas ao ano.
A unidade sul-mineira já foi responsável pela fabricação de mais de 30 mil equipamentos pesados, segundo o balanço corporativo divulgado no mês de agosto. Recentemente, a multinacional confirmou a injeção de R$ 270 milhões para expandir as instalações de Pouso Alegre.
O projeto prevê a edificação de um novo galpão, a implantação de um eletroposto de alta potência e a construção de um centro de pesquisa, além de preparar a linha para a futura industrialização de veículos elétricos. O valor do contrato recém-assinado com a transportadora de Mato Grosso supera em cerca de 85% todo o investimento orçado para essa expansão fabril mineira.
Nacionalização da frota ocorrerá em etapas
Embora a fábrica de Pouso Alegre seja o centro logístico da marca no Brasil, os documentos públicos e os históricos da empresa não garantem que os 251 veículos comercializados com a Navarini serão montados integralmente em Minas Gerais de forma imediata. A comunicação corporativa apenas reforça que a ampliação do portfólio elétrico conta com o suporte de toda a estrutura nacional.
O cronograma oficial de nacionalização da montadora prevê processos gradativos. Em maio, o gerente comercial de produtos eletrificados da XCMG, Rodrigo Setrak, esclareceu que a montagem local de caminhões elétricos tem previsão para iniciar entre o final de 2026 e o começo de 2027.
Nesta primeira fase, a linha de montagem focará estritamente na fabricação de veículos comerciais leves, como os modelos do tipo 3/4. A industrialização nacional de caminhões extrapesados, categoria que inclui o modelo E7-95T, ocorrerá apenas em uma etapa futura do planejamento estratégico da companhia.
A magnitude do contrato confirma a força potencial do mercado. O movimento prático demonstra que o setor logístico privado está disposto a investir centenas de milhões de reais para implementar a tecnologia elétrica em uma das atividades mais rigorosas da infraestrutura brasileira: o deslocamento de altos volumes de commodities agrícolas por via rodoviária.


