Minas Gerais assinou um protocolo de intenções com a canadense Spark Energy Minerals para um investimento previsto de R$ 150 milhões no Vale do Jequitinhonha. O projeto, chamado Arapaima, mira a pesquisa e futura produção de minerais ligados à nova economia industrial, como lítio, terras raras e gálio.
O anúncio foi feito nesta quarta-feira, 17 de junho, durante a abertura do 3º Brazil Lithium & Critical Minerals Summit 2026, em Belo Horizonte. O evento reuniu delegações e empresas de países como Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, Austrália, Chile, Argentina, Índia, França e Emirados Árabes Unidos, em uma mostra de como o tema deixou de ser apenas uma pauta regional.
O investimento previsto pela Spark inclui cerca de cem empregos diretos, segundo informações divulgadas pelo Governo de Minas. A empresa tem sede em Vancouver e mantém operação brasileira em Belo Horizonte.
O cronograma informado ainda é de médio prazo. A companhia pretende avançar em pesquisas geológicas, estudos de viabilidade, licenciamento ambiental e captação de recursos nos próximos anos. O início da extração mineral está previsto para 2030, condicionado ao sucesso dessas etapas.
Esse ponto muda a leitura do anúncio. Não se trata de uma mina pronta para operar, nem de produção imediata. O que está em curso é uma nova rodada de posicionamento no Vale do Jequitinhonha, agora com foco mais amplo do que o lítio.
Vale do Lítio começa a disputar outros minerais
O Vale do Jequitinhonha ficou conhecido nos últimos anos pela corrida do lítio, mineral usado em baterias de veículos elétricos, celulares, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos eletrônicos. Mas a pauta dos minerais críticos está ficando mais larga.
O Projeto Arapaima é apresentado pela Spark como um ativo com potencial para lítio, terras raras e gálio. As terras raras entram em ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos de defesa e tecnologias de alto desempenho. O gálio tem aplicação relevante em semicondutores, eletrônicos avançados, LEDs, telecomunicações e componentes usados em sistemas militares e aeroespaciais.
Essa combinação ajuda a explicar por que o Vale do Lítio começa a ser tratado menos como uma fronteira de um único mineral e mais como uma província de minerais estratégicos. É uma diferença importante. O lítio abriu a porta, mas a disputa global envolve uma cesta maior de insumos, muitos deles com cadeias dominadas por poucos países.
A própria Spark informa que seus direitos minerários somados no Vale do Lítio chegam a cerca de 91,9 mil hectares. Dentro desse conjunto, a empresa destaca um pacote contíguo superior a 64 mil hectares. O tamanho da área não garante viabilidade econômica, mas dá escala para pesquisa, mapeamento e definição de alvos.
No relatório técnico NI 43-101 apresentado pela empresa em 2025, o Arapaima foi descrito como um projeto ainda em estágio inicial, mas com ocorrências de pegmatitos, anomalias de lítio e sinais associados a terras raras. A companhia também destaca a proximidade com infraestrutura e com ativos já conhecidos da região.
Para Minas, essa é a parte mais relevante: o estado tenta deixar de ser apenas destino de anúncios sobre lítio e passar a ocupar espaço na conversa internacional sobre minerais usados em energia, defesa e tecnologia.
Leia também: Chinesa BYD fez uma compra em MG e quer usá-la para revolucionar o carro no Brasil
O que o investimento pode significar para a região
O aporte de R$ 150 milhões ainda não muda sozinho a economia do Jequitinhonha. Pesquisa mineral é uma etapa de risco. Há casos em que a sondagem confirma potencial e abre caminho para mina. Há outros em que os resultados não sustentam o investimento industrial.
Mesmo assim, essa fase movimenta a cadeia local. Equipes de geologia, sondagem, topografia, meio ambiente, laboratórios, transporte, hospedagem, alimentação, segurança, serviços jurídicos e consultorias passam a trabalhar no entorno do projeto. Em cidades menores, esses contratos já têm efeito sobre a economia.

A geração de cerca de cem empregos diretos, se confirmada ao longo da implantação, também pode pesar em uma região historicamente marcada por baixo dinamismo econômico e migração de mão de obra. O ganho real, porém, depende de como esses empregos serão distribuídos, de quanto será contratado localmente e de que tipo de formação profissional será oferecida.
O Vale do Jequitinhonha já vive essa discussão com outros projetos minerais. A chegada de empresas estrangeiras trouxe expectativa, valorização de áreas, novos contratos e maior circulação de recursos. Ao mesmo tempo, aumentou a cobrança por licenciamento responsável, diálogo com comunidades, uso de água, preservação ambiental e retorno concreto para os municípios.
Essa tensão deve acompanhar o Arapaima. Mineração crítica não deixa de ser mineração. Exige estrada, energia, água, pesquisa de campo, autorizações, relacionamento com proprietários e fiscalização. A narrativa de transição energética ajuda a atrair capital, mas não elimina impactos locais.
Leia também: Mineradora australiana investe em Minas Gerais para vender aos EUA e Europa
Minas tenta vender estabilidade em um mercado global nervoso
O anúncio da Spark foi feito em um momento em que governos e empresas tentam reduzir dependência de fornecedores concentrados. Terras raras, gálio, lítio, grafite e outros minerais passaram a ser discutidos em mesas de indústria, defesa e diplomacia.
Para países como Estados Unidos, Canadá, Japão e integrantes da União Europeia, ampliar fontes de suprimento virou prioridade. Para o Brasil, isso abre uma janela. O país tem geologia favorável, tradição mineral e uma relação diplomática relativamente aberta com diferentes blocos econômicos.
Minas tenta ocupar esse espaço com uma vantagem clara: já tem uma indústria mineral consolidada. O estado conhece licenciamento, lavra, logística, exportação, fornecedores e mão de obra técnica. Também tem universidades, centros de pesquisa e empresas de engenharia que podem apoiar a nova etapa.
Mas há um risco: ficar restrito à exportação de matéria-prima. Se o Jequitinhonha apenas extrair concentrado ou minério bruto, a maior parte do valor continuará fora do estado. O salto econômico viria com processamento, separação, refino, componentes, pesquisa aplicada e atração de indústrias associadas.
É por isso que projetos como o Arapaima precisam ser acompanhados para além do anúncio inicial. O que interessa para Minas não é só quantos hectares foram mapeados ou quantos milhões foram prometidos. É saber se a cadeia vai gerar tecnologia, fornecedores locais, empregos qualificados, arrecadação e infraestrutura permanente.
O protocolo com a Spark reforça que o Vale do Jequitinhonha entrou de vez na vitrine internacional dos minerais críticos. Mas a fase decisiva ainda vem pela frente. Até 2030, a empresa precisará provar o potencial geológico, viabilizar licenças, levantar recursos e mostrar que o projeto pode sair da pesquisa para uma operação real.





