Minas Gerais está no centro de uma das disputas econômicas mais estratégicas do mundo, mas o Brasil ainda corre o risco de chegar atrasado. A corrida por terras raras, minerais usados em turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos de defesa, eletrônicos e ímãs permanentes, colocou o estado e outras regiões do país no radar global.
O alerta mais recente veio de Marcos André Gonçalves, presidente do Conselho Superior da Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro, a Adimb. Em entrevista ao Diário do Comércio, ele defendeu que o Brasil seja mais pragmático e concentre esforços primeiro na mineração, etapa em que o país já tem competência, antes de tentar dominar toda a cadeia industrial de uma vez.
A avaliação toca em um ponto sensível. O Brasil quer participar da economia de minerais críticos, mas ainda precisa decidir se vai agir como fornecedor de minério, produtor de concentrado, polo de refino ou fabricante de componentes tecnológicos. Em Minas, essa escolha pode definir se o estado ficará apenas com a extração ou se capturará mais valor na cadeia global.
Minas concentra parte decisiva das terras raras
As terras raras não são, necessariamente, raras na natureza. O problema é que aparecem dispersas, exigem tecnologia para separação e beneficiamento e têm cadeia industrial complexa. O grupo reúne 17 elementos químicos, entre eles neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, usados em ímãs permanentes e tecnologias de alta eficiência.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, Araxá abriga a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras no país. A região de Poços de Caldas tem diversas empresas pesquisando o mineral, com recursos identificados de 950 milhões de toneladas e teor de 0,25% de TREO. Tapira também aparece com ocorrências associadas a fosfato, nióbio e titânio.
O guia de minerais críticos do Ministério de Minas e Energia lista projetos em andamento no estado, como Colossus, da Viridis Mining and Minerals, em Poços de Caldas; projeto de argila iônica da Meteoric Resources, também em Poços; Araxá, da St George Mining; e projeto de terras raras e titânio da Resouro Strategic Metals, em Tiros.
Ou seja: Minas não é apenas coadjuvante. O estado tem ativos, pesquisa, empresas estrangeiras, base minerária e localização estratégica para disputar uma parte relevante dessa nova economia.
O dilema: minerar primeiro ou tentar fazer tudo?
A discussão levantada pela Adimb expõe um conflito de estratégia. O governo federal busca desenvolver uma cadeia nacional completa, da extração à fabricação e reciclagem de ímãs permanentes. A ambição faz sentido, porque os produtos finais têm valor muito maior do que o minério bruto.

O problema é o tempo. Gonçalves argumenta que não há, hoje, um mercado consolidado de superímãs no Brasil em escala capaz de sustentar fábricas relevantes. Para ele, o país não deve tentar sair “do zero para o cem” de uma só vez. A lógica seria abrir minas, consolidar produção, atrair midstream, avançar no refino e, só então, criar condições para uma cadeia industrial mais sofisticada.
Esse é o ponto central para Minas. O estado pode começar como base mineral, mas precisa evitar ficar preso apenas à etapa de menor valor agregado. O desafio é usar a mineração como porta de entrada, sem perder de vista etapas posteriores, como separação, carbonato misto, óxidos, reciclagem e, no futuro, ímãs.
O gargalo brasileiro ainda é institucional
O potencial geológico, sozinho, não garante resultado econômico. Esse é o alerta mais duro da Adimb. Gonçalves criticou o excesso de tempo gasto em regulação e defendeu o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração, além de maior abertura de dados geológicos para empresas.
Na visão do setor, projetos minerários dependem de capital de risco, informação técnica, segurança regulatória, licenciamento eficiente e previsibilidade. Sem isso, investidores podem migrar para países que disputam a mesma corrida, como Canadá, Austrália e Estados Unidos.
A lentidão tem custo. Enquanto o Brasil debate regras, outros países organizam financiamento, contratos de fornecimento e plantas industriais. No mercado de minerais críticos, a janela não fica aberta indefinidamente. Quem estrutura projetos primeiro tende a fechar contratos estratégicos antes. Entenda por que as terras raras são o ouro do futuro:
O que Minas, e o Brasil, pode ganhar ou perder
Para Minas, o risco é conhecido. O estado já viu cadeias minerais gerarem muita riqueza, mas nem sempre conseguiu capturar o valor industrial completo. No minério de ferro, por exemplo, parte importante da renda está na extração e exportação. Nas terras raras, o desafio é não repetir automaticamente esse modelo.
A oportunidade está em construir uma cadeia mais sofisticada. Poços de Caldas pode ser um polo de processamento e pesquisa. Araxá pode conectar terras raras à experiência já consolidada no nióbio. Tapira e Tiros ampliam o mapa de minerais estratégicos. Universidades, centros tecnológicos e empresas de engenharia podem entrar na etapa de conhecimento, não apenas na lavra.
O Brasil tem reservas relevantes e uma vantagem adicional: matriz elétrica relativamente limpa, o que pode tornar seus minerais mais atraentes para cadeias globais preocupadas com pegada de carbono. Mas essa vantagem só vira negócio se houver mina, processamento, licença, infraestrutura e contrato.


