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BH quer fazer o Centro funcionar à noite e aposta em plano de 12 anos

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Durante o dia, o Centro de Belo Horizonte continua concentrando comércio, empregos, transporte público e milhares de pessoas que atravessam a região. O desafio que a Prefeitura agora tenta enfrentar aparece principalmente quando esse movimento diminui: transformar uma área marcada pelo fluxo de passagem em um lugar onde mais gente também more, consuma e permaneça depois do horário comercial.

Essa é uma das consequências menos óbvias da Operação Urbana Simplificada Somos Centro. A proposta, aprovada em segundo turno pela Câmara Municipal, estabelece uma transformação prevista para 12 anos e tenta juntar em uma mesma estratégia iniciativas de moradia, retrofit, comércio, espaços públicos e recuperação econômica que até agora apareciam de maneira mais fragmentada.

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Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, um dos resultados esperados é justamente aumentar a circulação de pessoas e fortalecer estabelecimentos locais inclusive durante a noite.

Centro perdeu moradores, mas manteve infraestrutura pronta

A estratégia parte de uma contradição urbana. O Centro e os bairros abrangidos pela operação perderam mais de 11% da população entre os censos de 2010 e 2022, mesmo concentrando metrô, BRT, linhas de ônibus, empregos, comércio e serviços públicos.

Ao mesmo tempo, aproximadamente 1,2 mil galpões estão subutilizados na área abrangida pelo programa. A Prefeitura também identifica imóveis degradados e regiões que perderam atividade econômica e valor imobiliário ao longo dos últimos anos.

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A ideia é aproveitar justamente essa estrutura existente. Em vez de estimular apenas a expansão de Belo Horizonte para áreas mais distantes, o projeto pretende levar novos moradores para uma região onde boa parte dos equipamentos urbanos já está instalada.

Isso inclui Centro, Lagoinha, Bonfim, Carlos Prates, Colégio Batista e outros trechos próximos.

BH já começou a montar esse novo Centro

O Somos Centro não começa do zero. Algumas mudanças que ajudam a entender esse projeto de cidade já estão aparecendo em pontos diferentes da região central.

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Um dos exemplos mais expressivos está no antigo complexo da Escola de Engenharia da UFMG. Como o Moon BH mostrou, o conjunto abandonado há 17 anos deverá receber até 2,4 mil servidores, além de comércio, serviços, cultura, áreas verdes e uma praça interna.

A intervenção tem potencial para criar diariamente um fluxo que hoje praticamente não existe naquele quarteirão. Restaurantes, cafés, lojas e outros estabelecimentos no entorno podem ganhar milhares de potenciais consumidores sem depender exclusivamente de grandes eventos ou da circulação tradicional do Hipercentro.

Outro movimento ocorre na Praça Sete, onde avançou o projeto que permite grandes painéis de LED nas fachadas de edifícios. A chamada “Times Square de BH” ainda depende de etapas de licenciamento, mas representa outra tentativa de modificar a utilização e a imagem da região central.

Mercado Novo mostra o valor de manter gente no Centro

Reprodução

Existe também um exemplo já consolidado de como a permanência de pessoas fora do horário comercial pode mudar a economia de um imóvel antigo.

O Mercado Novo chegou a 95% de ocupação e se tornou um dos principais destinos gastronômicos e culturais da capital. O crescimento foi tamanho que o condomínio decidiu interromper temporariamente a chegada de novos bares e restaurantes para preservar a diversidade de atividades no prédio.

O caso não significa que todo o Centro possa simplesmente reproduzir a fórmula do Mercado Novo. Mas mostra como novos usos podem alterar a dinâmica de imóveis que antes tinham movimento muito mais concentrado durante o dia.

É esse princípio que aparece em escala maior no Somos Centro: misturar residências, comércio, cultura, serviços e espaços públicos para evitar que grandes trechos da região dependam apenas de trabalhadores que chegam pela manhã e deixam o bairro no fim da tarde.

Retrofit será uma das principais ferramentas

Para trazer novos moradores sem depender somente de grandes construções, a Prefeitura pretende estimular retrofit e reconversão de prédios antigos. Imóveis comerciais ou subutilizados poderão ganhar função residencial, enquanto incentivos urbanísticos e fiscais deverão tentar tornar essas operações mais atraentes para proprietários e investidores.

A PBH estima potencial para lançamento de até 10 mil unidades habitacionais por ano na região abrangida pela operação. O número representa capacidade prevista pelo novo modelo e não uma promessa de que essa quantidade será efetivamente construída anualmente.

O programa oficial Somos Centro também prevê um Balcão Único do Retrofit, incentivos para reocupação de lojas vazias, aumento da arborização e intervenções em áreas críticas para pedestres.

A transformação vai além dos prédios

A operação também pretende conectar projetos de espaços públicos que já estão planejados ou em andamento. A Prefeitura cita intervenções nas praças da Estação, da Rodoviária e Vaz de Melo, além do Parque Municipal, da recriação da Praça Fuad Noman e de projetos voltados à região da Lagoinha.

Essas intervenções ajudam a mostrar por que o horizonte estabelecido é de 12 anos. A proposta não é reformar um único edifício nem resolver o esvaziamento com uma obra específica, mas tentar alterar gradualmente a combinação de moradores, trabalhadores, comércio e circulação no coração da capital.

O projeto ainda precisa passar pela redação final na Câmara e seguir para análise do prefeito Álvaro Damião antes de entrar em vigor. Se avançar, BH estará colocando diferentes iniciativas recentes sob uma mesma aposta urbana: fazer o Centro deixar de funcionar principalmente como lugar de passagem e voltar a ser também um lugar para morar, encontrar pessoas e permanecer depois que o comércio fecha.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.