HomeBH e MG NotíciasCelular e desatenção: os vilões invisíveis do afogamento em Minas Gerais

Celular e desatenção: os vilões invisíveis do afogamento em Minas Gerais

Publicado em

Estado registrou 155 mortes por afogamento de janeiro a agosto de 2026, 91% no interior; especialista da FPK alerta que prevenção depende de supervisão de adultos.

O celular vibra. Uma mensagem chega. Alguém chama para uma foto. Na beira da piscina, 10 segundos de distração bastam para que o lazer vire emergência. Apenas neste ano, 155 pessoas morreram afogadas e as crianças acabam sendo as principais vítimas. Diante desse cenário, instrução e supervisão são os maiores aliados na prevenção de acidentes.

- Publicidade -

O alerta é de Francine Araújo, CEO da FPK, estúdio de natação de Belo Horizonte focado em prevenção de afogamentos. Para ela, o dado mais perigoso não está na água, mas no comportamento do adulto.

“A gente acha que está supervisionando porque está no mesmo quintal. Supervisão não é presença, é atenção ativa. Para criança pequena, a regra que usamos na FPK e que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda é clara: no máximo um braço de distância, olhando para a criança, sem celular”, afirma.

A orientação tem respaldo. Segundo a SBP, o afogamento é rápido e silencioso, sem a cena clássica de gritos por socorro.

- Publicidade -

Minas em números

Dados do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais mostram 155 vítimas fatais de afogamento atendidas pelo CBMMG entre 01 de janeiro e 31 de agosto de 2026.

Desse total, 141 ocorrências foram no interior e 14 na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A série histórica mostra que o risco aumenta no verão. Em 2026, janeiro teve 22 mortes, em fevereiro 24 e em março 21. No ano fechado de 2025, foram 286 mortes. Em 2024, 246. O pico da série foi em 2016, com 385 óbitos.

- Publicidade -

“Muita gente associa afogamento a rios, e os dados confirmam que o interior concentra a maioria dos casos. Mas a lógica da prevenção na piscina é a mesma: água exige barreira e supervisão. E na piscina a família relaxa justamente porque acha que está segura”, diz Francine.

O celular pode esperar

Tanto o CBMMG quanto a SBP orientam: não confie em boias de braço, boias circulares ou colchões infláveis como itens de segurança. Eles podem furar, virar ou dar falsa autonomia para a criança.

“Boia não ensina a criança a se virar na água. Se escapa, ela afunda na vertical. A gente na FPK não usa boia como recurso de segurança. A gente ensina habilidade aquática de sobrevivência e ensina o adulto a não terceirizar a segurança para um plástico”, reforça a CEO da FPK.

A armadilha do “achei que você estava olhando”

Em festas e churrascos, o risco é a supervisão compartilhada sem combinação. Cinco adultos ao redor da piscina e, na prática, ninguém está olhando.

A técnica ensinada na FPK é a da passagem de bastão em voz alta: “Tem que ser falado: ‘Vou ao banheiro, você assume agora?’. E o outro tem que responder: ‘Assumi’. Não pode ser no olhar. Supervisão compartilhada sem comunicação é supervisão de ninguém”, afirma Francine.

Saber nadar não imuniza. Aprender a nadar é fundamental, mas não elimina o risco. “Criança que sabe nadar também se afoga. Por cãibra, susto, exaustão ou brincadeira de prender a respiração. Natação é uma camada de proteção, não é colete à prova de tudo”, completa Francine.

CHECKLIST DE PREVENÇÃO

  • Antes de liberar a piscina:
  • •⁠ ⁠A piscina tem cerca com portão e trava que impede acesso não autorizado?
  • •⁠ ⁠Retire os brinquedos da borda. Eles atraem a criança para a água.
  • •⁠ ⁠Verifique profundidade, ralos e equipamentos de segurança.
  • Durante o uso:
  • •⁠ ⁠Defina 1 adulto responsável por vez.
  • •⁠ ⁠Mantenha distância máxima de um braço para crianças pequenas.
  • •⁠ ⁠Celular no silencioso e longe da mão.
  • •⁠ ⁠Não confie a segurança a boias.
  • Se precisar sair:
  • •⁠ ⁠Avise outro adulto em voz alta e só saia após confirmação.
- Publicidade -
Raquel Penaforte
Raquel Penaforte
Jornalista fez carreira na Rede Catedral e por mais de 9 anos no jornal O Tempo, da Sempre Editora. Escreve como colunista convidada no Moon BH.