Apenas três dias após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a arquitetura de mobilização digital que alavancou o segundo turno da campanha petista começa a ser exportada. O modelo concebido pelo deputado federal mineiro André Janones (Rede-MG), batizado de “Exército do Lula”, extrapolou a fronteira brasileira e passou a ser alvo de interesse direto de campanhas progressistas e de centro-esquerda na Europa e na América Latina.
A estrutura capitaneada por Janones operou uma mudança de paradigma no marketing político digital. Em vez de utilizar o WhatsApp apenas como um mural passivo para disparo de propaganda oficial, o parlamentar converteu o aplicativo em uma central de coordenação em massa. Diariamente, ele distribuía “missões” aos seguidores (como impulsionar hashtags no X/Twitter, comentar postagens adversárias e disseminar recortes de vídeo), transformando milhões de eleitores comuns em distribuidores ativos da campanha.
Foi a escala desse engajamento — saltando de 50 mil para quase 11 milhões de membros em três semanas — que acendeu o alerta em comandos eleitorais estrangeiros.
Convite espanhol em negociação
O primeiro desdobramento internacional surgiu na Espanha. Conforme apuração divulgada na imprensa espanhola, Janones recebeu convites informais para prestar consultoria à campanha do primeiro-ministro Pedro Sánchez.
O líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) enfrenta uma disputa acirrada nas eleições marcadas para o dia 29 de novembro, apenas um mês após o segundo turno brasileiro. Após a vitória petista, o próprio Sánchez fez um aceno público relacionando os dois cenários: “O que aconteceu no Brasil acontecerá também na Espanha”.
Embora o interesse seja cristalino, até o momento nem a assessoria de André Janones nem a cúpula do PSOE confirmaram o fechamento oficial da parceria. Os contatos, ainda segundo os bastidores, buscam entender se o parlamentar estaria disposto a viajar para a Espanha para aplicar a metodologia presencialmente ou se prestaria uma consultoria remota de estruturação de redes.
Da França à Argentina: a clonagem do formato
Se o convite espanhol ainda repousa na esfera da consultoria, a “clonagem” do modelo brasileiro já opera a todo vapor na França e na Argentina.
Na França, simpatizantes do líder de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon (do partido França Insubmissa) criaram um braço digital explicitamente batizado de Les Soldats Insoumis (“Soldados Insubmissos”). Em poucos dias, o grupo amealhou mais de 15 mil integrantes no WhatsApp replicando a exata linguagem militarizada adotada no Brasil.
O movimento forçou o partido oficial a aderir à tática: a França Insubmissa fundou a L’équipe de Mélenchon de olho nas eleições presidenciais francesas de abril de 2027. Em um vídeo de convocação oficial da legenda, o deputado Antoine Léaument confessou a inspiração: “Nós vimos bem o que aconteceu no Brasil e não se preocupem, vamos aplicar um método que funcione”, relatou a agência RFI.
Na América do Sul, a capilaridade foi ainda mais rápida. Nesta terça-feira (27), a Argentina já assistia à operação do “Exército do Peronismo”, um canal no WhatsApp que ultrapassou 32 mil seguidores copiando a identidade visual, o tom beligerante e o formato de “missões diárias” imortalizado por Janones, mas adaptado para o contexto e a linguagem política de Buenos Aires.
Limitações do “copiar e colar”
Apesar do entusiasmo internacional, especialistas e políticos europeus avaliam que o modelo mineiro não é um produto de prateleira que funcionará em qualquer eleição. A prefeita-adjunta de Saint-Denis (França) e professora da Universidade Sorbonne, Silvia Capanema, alertou à imprensa local que as realidades digitais diferem profundamente.
No Brasil, o campo progressista precisava desesperadamente criar uma estrutura de guerrilha pelo WhatsApp para frear o avanço bolsonarista na reta final. Na França, os partidos progressistas já possuem um trabalho digital consolidado e institucionalizado.
O interesse global consolida, contudo, a meteórica ascensão de Janones. O deputado, que no primeiro turno operou praticamente à margem das diretrizes nacionais do PT, reescreveu a gramática da comunicação política da sigla. A rede que lhe rendeu do presidente a patente pública de “nosso general” deixa de ser apenas uma engrenagem fundamental da vitória de 2026 para se tornar um objeto de estudo e cobiça em eleições espalhadas pelo mundo, testando a viabilidade de exportação do mais recente fenômeno digital da política brasileira.


