Há pouco mais de um ano, o deputado federal André Janones (Rede-MG) vivia o seu maior isolamento político em Brasília. Após o desgaste provocado pelo “caso da rachadinha”, ele havia perdido o status de aliado de primeira hora que construíra com Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2022.
Durante praticamente todo o primeiro turno da corrida presidencial de 2026, a coordenação da campanha petista manteve o mineiro à distância, ignorando-o nas definições da estratégia oficial de comunicação. No entanto, a três semanas da eleição decisiva contra Flávio Bolsonaro (PL), o cenário virou de ponta-cabeça. Janones forçou seu retorno ao centro do palco político.
A sombra da rachadinha e o isolamento
Em 2022, o estilo de Janones (vídeos agressivos, linguagem popularesca, “lives” caóticas e provocações) fez dele a principal arma do PT para furar a hegemonia bolsonarista nas redes. Mesmo criticado por agências de checagem por frequentemente cruzar a linha da desinformação, ele saiu valorizado daquela eleição.
O capital político, contudo, derreteu em 2023, quando vazou um áudio do deputado discutindo a retenção de parte dos salários de assessores para pagar dívidas de campanhas anteriores.
A crise criminal foi estancada em março de 2025, quando o ministro Luiz Fux (STF) homologou o acordo de não persecução penal firmado entre o deputado e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Janones pagou R$ 157,8 mil entre reparação e multa para encerrar a investigação sem virar réu, sustentando que o acordo não era uma confissão de culpa. A crise de imagem, porém, fez a esquerda se afastar.
O “Exército do Lula” e o movimento autônomo
O afastamento persistiu até a noite do último dia 4 de outubro. Quando as urnas registraram Flávio Bolsonaro terminando o primeiro turno em vantagem (47,03% a 45,16% dos votos válidos), Janones agiu por conta própria. “Não vou mais ficar esperando a campanha”, admitiu à Folha.
O parlamentar transformou um de seus canais no WhatsApp no chamado “Exército do Lula”. Usando uma linguagem deliberadamente militarizada (com “soldados” e “missões”), ele passou a instruir apoiadores sobre como impulsionar hashtags, comentar publicações e travar uma guerrilha assimétrica contra o bolsonarismo.
A adesão foi avassaladora. Em três dias, o canal chegou a 2 milhões de inscritos; em duas semanas, ultrapassou a marca de 7 milhões, ofuscando completamente os canais oficiais do próprio presidente da República.
Lula embarca na estratégia

Diante da escala bilionária de visualizações que o “exército” passou a gerar, Lula não apenas abandonou o distanciamento como abraçou a iniciativa.
Logo no dia 7 de outubro, o presidente gravou um vídeo ao lado de Janones convocando militantes para o canal. Na semana seguinte, encontrou-se três vezes com o mineiro. O prestígio recuperado culminou na convocação de Janones para acompanhar Lula nos bastidores do debate televisivo da Band, em 18 de outubro — uma mudança drástica para alguém que semanas antes estava alijado do núcleo de decisões.
O canal chegou a ser temporariamente suspenso pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, após a campanha de Flávio Bolsonaro acusar a rede de distribuir desinformação e ofensas, mas a plataforma foi posteriormente regularizada e encampada legalmente pela chapa petista após decisões divergentes da Corte.
Monitoramentos independentes, como os da Datrix e da Quaest, comprovaram uma recuperação da tração digital de Lula no segundo turno, período que coincide milimetricamente com a explosão das “missões” de Janones. Se os milhares de disparos no WhatsApp e as hashtags virais do deputado mineiro se converterão em votos suficientes para virar a eleição de domingo, a urna responderá. Mas o fato político já está consumado: na força bruta dos números das redes, Janones ressuscitou de político isolado a fiador da estratégia digital do presidente da República.


