Quando assumir o Governo de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos) encontrará uma máquina econômica operando em contrastes estruturais profundos. O novo governador herdará empresas estatais com forte capacidade de investimento e estruturas de atração de negócios já consolidadas. Em contrapartida, o painel de controle do Palácio Tiradentes piscará luzes amarelas para o desequilíbrio na composição recente do Produto Interno Bruto (PIB) estadual e para uma decisão patrimonial histórica envolvendo a renegociação da dívida bilionária do estado.
Gasmig e a nova fronteira do biometano
A Companhia de Gás de Minas Gerais (Gasmig) desponta como um dos ativos estaduais de maior vitalidade. A empresa encerrou 2025 com faturamento de R$ 3,09 bilhões e lucro líquido de R$ 515 milhões. No segundo trimestre de 2026, a distribuidora registrou um fenômeno contábil expressivo: embora a receita líquida tenha caído 42,4% (impactada pela migração de grandes consumidores para o mercado livre), a margem Ebitda saltou de 28,3% para 41,5%.
O trunfo da companhia para o novo ciclo político concentra-se na expansão de sua malha física e na diversificação da matriz. Além de avançar com o Projeto Centro-Oeste — que prevê 260 quilômetros de rede alcançando polos industriais como Betim, Itaúna e Divinópolis —, a Gasmig abriu as portas para o agronegócio por meio do biometano.
A primeira grande contratação, fruto de uma chamada pública para adquirir até 250 mil metros cúbicos diários, já foi firmada. O projeto em Uberaba, estruturado pela GeoMit (joint venture da Mitsui com a Geo bio gas&carbon) e a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool, terá capacidade para injetar 50 mil metros cúbicos diários de biometano na rede. A operação cria uma nova cadeia de valor para Minas Gerais, transformando resíduos da cana-de-açúcar em receita energética.
Cemig SIM e a escalada solar mineira
Criada em 2019 com foco em geração distribuída, a Cemig SIM chega à transição como uma operação madura e capitalizada. A empresa fechou 2025 com 426 MWp em operação e adicionou 18 novas usinas apenas no primeiro semestre de 2026, com R$ 227 milhões investidos. O planejamento da subsidiária projeta alcançar 1 GW de capacidade até 2030, sustentado por um plano plurianual de R$ 3,8 bilhões.
O desempenho da estatal reflete um marco energético muito maior do estado. Em julho de 2026, Minas Gerais alcançou 15 GW de potência solar fotovoltaica instalada (somando grandes usinas e geração distribuída). Para efeito de comparação, a capacidade nominal de Itaipu é de 14 GW. Minas multiplicou sua infraestrutura solar em quase 29 vezes desde 2019, consolidando uma política de transição energética que a nova gestão terá fortes incentivos para manter.
A máquina de prospecção da Invest Minas
No campo da atração de negócios, o próximo governo não precisará reinventar a roda. A agência Invest Minas consolidou uma estrutura profissional de prospecção ativa que, em conjunto com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sede), soma mais de R$ 534 bilhões em investimentos privados atraídos ou viabilizados desde 2019.
Embora esse montante englobe anúncios e compromissos de longo prazo que ainda não foram totalmente desembolsados, a Sede registrou uma taxa de conversão de projetos de 62,04% em 2026. A herança administrativa, neste caso, é a manutenção de uma engrenagem técnica capaz de mapear terrenos, negociar incentivos e dialogar com prefeituras para reter capital privado no estado.
Primeiro alerta: o descompasso industrial no PIB
As luzes de alerta do novo governo concentram-se na macroeconomia. O PIB mineiro cresceu aproximadamente 4% no segundo trimestre de 2026, mas o número global esconde uma retração perigosa. O avanço foi impulsionado quase que exclusivamente pela agropecuária, que disparou 19,1%.
Enquanto o campo bateu recordes, todos os grandes segmentos industriais encolheram no período:
- Indústria extrativa: -0,6%
- Indústria de transformação: -0,3%
- Eletricidade, gás e utilidades: -0,5%
- Construção civil: -1,7%
O setor de serviços teve um avanço tímido de 1,1%. Para um estado com forte tradição industrial, o recuo generalizado na manufatura e na extração exige atenção imediata. Além disso, a participação de Minas Gerais na composição do PIB nacional recuou ligeiramente, passando de 9,5% para 9,2%.
O dilema bilionário da Codemig e a dívida estadual
O segundo grande desafio estratégico de Cleitinho envolverá a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig). A estatal detém os direitos minerários sobre o nióbio de Araxá, operado em parceria com a CBMM. Apenas em 2024, a participação de 25% no lucro líquido do negócio rendeu R$ 1,73 bilhão aos cofres da Codemig. O contrato, renovado em 2025 por mais 30 anos (prorrogáveis por mais 15), incluiu também os direitos sobre a comercialização de terras raras.
Essa “joia da coroa” tornou-se a peça central da renegociação da dívida pública estadual com a União, regida pelo Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). A Assembleia Legislativa já autorizou a transferência total ou parcial da Codemig para o governo federal como forma de amortizar 20% do passivo de R$ 179,3 bilhões. A manobra é o pré-requisito para que Minas assegure a taxa de juros reais de 0% ao ano sobre o saldo devedor.
Os ativos oferecidos pelo Estado seguem sob análise em Brasília. O dilema que aguarda Cleitinho é estrutural: abrir mão do fluxo de caixa bilionário e constante do nióbio para resolver, de forma definitiva, o estrangulamento de uma dívida de quase R$ 180 bilhões que asfixia as contas públicas há décadas. A decisão selará a margem de manobra financeira de seu governo e das próximas gerações.


