A pergunta sobre quem criou o Pix voltou ao centro do debate depois que o governo Donald Trump incluiu o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos em uma investigação comercial contra o Brasil. A resposta correta exige cuidado: o Pix não foi criação pessoal de um presidente da República. Ele foi desenvolvido pelo Banco Central. E se tornou admirado no mundo todo pela genialidade.
As bases técnicas começaram a ser discutidas em 2016, no governo Michel Temer, durante a gestão de Ilan Goldfajn no BC. Em dezembro de 2018, ainda no fim do governo Temer, o Banco Central divulgou os fundamentos do futuro sistema de pagamentos instantâneos.
O nome Pix foi apresentado em fevereiro de 2020, já no governo Jair Bolsonaro, sob a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central. O lançamento oficial ocorreu em 16 de novembro de 2020. Portanto, a forma mais precisa de responder é: o sistema foi concebido e estruturado tecnicamente pelo Banco Central, com bases lançadas no governo Temer e operação iniciada no governo Bolsonaro.
Como o Pix funciona e por que é admirado
O Pix é uma infraestrutura pública de pagamento instantâneo. Na prática, ele permite transferir dinheiro entre contas em poucos segundos, a qualquer hora do dia, inclusive fins de semana e feriados.
O usuário inicia o pagamento pelo aplicativo do banco ou instituição financeira. Pode usar uma chave, como CPF, CNPJ, telefone, e-mail ou chave aleatória, além de QR Code ou código copia e cola. A instituição do pagador envia a ordem para a infraestrutura operada pelo Banco Central, e o valor é liquidado diretamente para a conta de destino.
A diferença em relação a cartões, boletos, TEDs e DOCs está no tempo e no custo. O dinheiro cai quase imediatamente. Para pessoas físicas, o serviço é gratuito na maioria das situações. Para empresas, pode haver cobrança, mas ela costuma ser menor que a do cartão.
Por que Trump vê o Pix como problema
A investigação dos Estados Unidos não trata apenas do Pix. O Escritório do Representante Comercial americano, o USTR, abriu procedimento contra práticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
No caso dos pagamentos, o ponto é a acusação de que o Banco Central teria uma dupla função: regulador do sistema financeiro e operador do Pix. O USTR sustenta que isso daria vantagem indevida ao sistema brasileiro em relação a empresas privadas de pagamentos, incluindo fornecedores americanos.
O órgão americano também questiona regras que obrigam grandes instituições financeiras a participar do arranjo, exigem destaque para o Pix nos aplicativos e mantêm gratuidade para pessoas físicas. Na avaliação dos EUA, esse desenho favorece uma infraestrutura nacional e cria barreiras para companhias estrangeiras de pagamentos.
O governo brasileiro e o Banco Central contestam essa leitura. A defesa do modelo é que se trata de uma infraestrutura pública neutra, criada para aumentar competição, reduzir custos e ampliar inclusão financeira.
Como o Pix tira dinheiro dos cartões Visa e Mastercard
O impacto mais direto está no varejo. Antes, muitas compras que passariam por cartão de débito, crédito ou boleto passaram a ser pagas por transferência instantânea.
Isso reduz o uso da cadeia tradicional dos cartões, formada por bandeiras, emissores, credenciadoras, maquininhas, bancos e processadores. Em uma venda com cartão, o lojista paga uma taxa sobre a transação e, no crédito, muitas vezes espera para receber ou paga para antecipar os recebíveis.
Com o pagamento instantâneo, o dinheiro entra na hora. O custo tende a ser menor. Um relatório do Banco Central mostrou que, no quarto trimestre de 2022, o custo médio para o recebedor era de 0,33% por transação via Pix, contra 1,13% no débito e 2,34% no crédito. A conta é simples. Em R$ 100 mil de vendas, uma taxa de 2,34% no crédito representa R$ 2.340. Com uma taxa de 0,33%, o custo cai para R$ 330. A diferença passa de R$ 2 mil no mês, sem considerar o ganho de caixa por receber imediatamente.
Por isso, muitos comerciantes passaram a oferecer desconto para quem paga à vista pelo sistema instantâneo. Para bares, restaurantes, farmácias, supermercados, lojas pequenas e prestadores de serviço, a economia pode pesar no fim do mês.
Cartão ainda tem uma vantagem importante
O avanço do Pix não elimina o cartão. O crédito continua forte por um motivo muito brasileiro: o parcelamento sem juros.
Muitos consumidores preferem pagar mais caro no cartão porque conseguem dividir compras maiores. Isso vale para eletrodomésticos, eletrônicos, móveis, roupas, viagens e despesas de maior valor.
Por isso, a disputa não é simplesmente “um substitui o outro”. O sistema instantâneo cresce mais em pagamentos à vista, compras de menor valor, transferências entre pessoas, contas recorrentes, comércio eletrônico e pagamentos em loja. O cartão preserva espaço onde crédito, limite e parcelamento são decisivos.
Mesmo assim, o avanço é relevante. A Reuters, com base em estudo da Ebanx, informou que o Pix respondeu por 42% das compras online no Brasil em 2025, ligeiramente acima dos 41% dos cartões de crédito. A projeção é chegar a 50% do e-commerce brasileiro até 2028.
Por que isso ameaça empresas globais
Visa e Mastercard não dependem apenas do Brasil. São gigantes globais. A Visa registrou receita líquida de US$ 40 bilhões no ano fiscal de 2025 e lucro líquido de US$ 20,1 bilhões. A Mastercard informou receita líquida de US$ 32,8 bilhões e lucro líquido de US$ 15 bilhões em 2025.
Essas empresas ganham dinheiro com redes de pagamento, processamento, serviços, segurança, dados, soluções para bancos e transações feitas no mundo inteiro. Quanto mais pagamentos passam por suas redes, maior é a base de receita.
O risco para elas não é o Pix brasileiro isoladamente. O risco é o modelo virar referência internacional. Se outros países criarem infraestruturas públicas, instantâneas, interoperáveis e baratas, uma parte das transações pode deixar de passar pelos trilhos tradicionais dos cartões.
A ameaça aumenta com novas funções. O Pix Automático, voltado a pagamentos recorrentes, pode disputar contas de assinatura, mensalidades, energia, telefone, escolas, academias, condomínios e seguros. Essa área hoje é importante para cartões, débito automático e boletos.
Por que comerciantes gostam do modelo
Para o comerciante, o principal ganho é operacional. O dinheiro entra na hora, a conciliação é mais rápida, a taxa pode ser menor e há menos dependência da antecipação de recebíveis.
Em pequenos negócios, isso muda o caixa. Um lojista que vende no crédito pode esperar semanas para receber ou pagar uma taxa para antecipar. Com o pagamento instantâneo, ele pode usar o dinheiro no mesmo dia para repor estoque, pagar fornecedor ou reforçar capital de giro.
Também há ganho de acesso. Um vendedor ambulante, autônomo ou microempresa consegue receber sem maquininha, apenas com QR Code ou chave. Isso ajudou a digitalizar parte da economia informal e reduziu a dependência do dinheiro vivo.
O ponto que incomoda os Estados Unidos está justamente aí: o Brasil criou uma ferramenta pública que funciona, virou hábito nacional e começou a deslocar receitas de intermediários privados. Para consumidores e lojistas, o sistema ficou mais barato e rápido. Para empresas globais de pagamento, ele mostra que um Banco Central pode disputar o futuro do varejo com infraestrutura própria.


