O governo dos Estados Unidos propôs uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de importações brasileiras, em uma investigação comercial que pode afetar setores industriais e reacender o alerta em estados exportadores como Minas Gerais.
A medida foi apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, dentro de uma investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. O órgão afirma que determinadas práticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal prejudicam ou restringem o comércio dos EUA.
A proposta ainda não está em vigor. A fase de comentários públicos vai até 1º de julho de 2026. A audiência está marcada para 6 de julho, em Washington, e interessados em participar devem solicitar inscrição até 22 de junho. O prazo legal mencionado pelo USTR para uma decisão final é 15 de julho.
Café fica fora, mas indústria segue exposta
A proposta exclui alguns produtos sensíveis para a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, como carne bovina, café, terras raras, determinados metais e partes de aeronaves.
Também ficam fora da nova sobretaxa os produtos já sujeitos a tarifas de segurança nacional pela Seção 232, como aço, alumínio, cobre, veículos e autopeças. Isso não significa ausência de pressão. Na prática, esses setores permanecem sob outro regime tarifário, já com cobrança específica.
Em Minas Gerais, esse recorte é importante porque a pauta exportadora do estado mistura produtos primários, minerais, agrícolas e industriais. Parte dos itens de maior peso aparece nas exceções, como café. Outros setores ligados à indústria metalúrgica e de transformação seguem expostos ao ambiente de tarifa elevada e disputa comercial.
Minas exportou US$ 14,2 bilhões até abril
Minas Gerais exportou US$ 14,2 bilhões entre janeiro e abril de 2026, segundo dados divulgados pelo Governo de Minas. As importações somaram US$ 6,2 bilhões no período, resultando em superávit de US$ 8 bilhões na balança comercial mineira.
Em abril, o estado exportou US$ 3,9 bilhões e respondeu por 11,5% das vendas externas brasileiras no mês. A pauta foi liderada por minério de ferro, com 24,2% das exportações mineiras, seguido por café, com 21,3%; soja, com 15,3%; ouro, com 10,8%; e ferroligas, com 4,8%.
Os números mostram por que uma mudança tarifária nos Estados Unidos pode ter leitura direta em Minas, mesmo quando parte dos produtos fica fora da proposta. O estado tem forte presença em commodities, mas também participa de cadeias industriais afetadas por decisões comerciais americanas.
Café é protegido pela exceção

O café é um dos principais produtos exportados por Minas e aparece entre os itens excluídos da tarifa adicional proposta. Essa exceção reduz o risco direto para uma cadeia relevante do Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e outras regiões produtoras.
O setor cafeeiro tem forte dependência do mercado externo e os Estados Unidos estão entre os consumidores importantes do produto brasileiro. Uma tarifa de 25% poderia pressionar margens, contratos e competitividade. Com a exclusão, o impacto imediato sobre o café tende a ser menor.
Ainda assim, o setor segue atento ao andamento da investigação. A proposta pode ser alterada após a fase de comentários públicos, e o comércio exterior depende de fatores como câmbio, frete, demanda internacional, safra e negociações diplomáticas.
Minério, aço e metais entram no debate maior
O minério de ferro, principal item da pauta mineira em abril, está ligado a uma cadeia global que depende fortemente da demanda asiática, especialmente da China. Já os produtos industriais derivados do setor mineral, como aço, alumínio, cobre e autopeças, aparecem no centro das disputas comerciais americanas.
A proposta do USTR não trata esses itens da mesma forma. Produtos sujeitos à Seção 232 ficam fora da nova tarifa de 25%, mas continuam impactados por tarifas próprias. Isso mantém o setor industrial em ambiente de incerteza.
Para empresas mineiras e brasileiras, o principal ponto agora é entender o enquadramento de cada produto na lista tarifária americana. O impacto depende da classificação fiscal, do destino da exportação, dos contratos em vigor e da possibilidade de repassar custos ao comprador.
Ferroligas e indústria mineira exigem atenção
As ferroligas representaram 4,8% das exportações mineiras em abril. O produto tem relação direta com a cadeia siderúrgica e pode ser sensível a mudanças em custos, tarifas e demanda internacional.
Minas também tem presença relevante em mineração, metalurgia, autopeças, máquinas e insumos industriais. Mesmo quando uma tarifa não atinge diretamente o produto exportado, ela pode afetar cadeias de fornecimento, preços internacionais e decisões de compra de clientes externos.
Esse é o ponto central para o estado: a proposta americana não se resume a um item específico. Ela ocorre em um ambiente de rearranjo comercial global, com disputa por indústria, minerais estratégicos, energia e capacidade produtiva.
Para Minas, o acompanhamento interessa a exportadores, indústrias, cooperativas, tradings, mineradoras e entidades empresariais. O estado tem uma das maiores pautas exportadoras do país e depende de acesso competitivo a mercados externos para manter receita, emprego e arrecadação.


