O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, recebeu uma notificação judicial e fez o que seus adversários talvez menos gostariam neste momento: transformou o episódio em munição política. O chefe do executivo de Minas e pré-candidato à Presidência pelo voltou a atacar o ministro Gilmar Mendes, o Supremo Tribunal Federal e o que chama de “intocáveis” do poder.
A notificação ocorre no desdobramento de uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Superior Tribunal de Justiça por calúnia contra Gilmar Mendes. O caso nasceu após uma representação do ministro contra vídeos publicados por Zema nas redes sociais, na série “Os intocáveis”, com sátiras envolvendo integrantes do STF e o caso Banco Master.
Esse processo tem o potencial de inflamar sua pré-campanha ainda mais. Agora o político tem, em tese, mais argumentos para brigar contra o STF, em discurso.
Diferente de políticos com mandato em Brasília, que sempre temem retaliações dos ministros do Supremo, Zema não tem, hoje, o que temer e pode se tornar o único candidato a enfrentar o tribunal em sua campanha. Em vez de recuar, o ex-governador gravou vídeo mostrando o documento e reforçou que não será calado. A frase virou o núcleo da estratégia: se havia uma tentativa de constrangê-lo, ele passa a vender o episódio como prova de que incomodou o sistema.
Zema ganha o personagem que faltava na direita
Zema sempre tentou ocupar um espaço específico na eleição presidencial: o empresário austero, liberal, mineiro, menos barulhento que o bolsonarismo tradicional e mais ideológico que o centro pragmático. Esse personagem tinha um problema: faltava conflito.
Agora, o embate com Gilmar Mendes e a PGR entrega a Zema uma narrativa mais quente. Ele deixa de ser apenas o ex-governador que fala em privatização, corte de gastos e reforma do Estado. Passa a ser o pré-candidato que diz enfrentar o Supremo e pagar preço por isso.
Para uma parcela da direita, essa é uma moeda eleitoral forte.
O eleitor mais antipetista e mais crítico ao STF costuma valorizar sinais de confronto. Não basta dizer que discorda da Corte. É preciso parecer disposto a enfrentar ministros nominalmente. Zema entendeu esse código e, ao reagir publicamente à notificação, reposicionou o caso como peça de campanha.
O risco jurídico vira combustível eleitoral
A denúncia da PGR acusa Zema de calúnia. A Procuradoria sustenta que os vídeos atribuíram crime a Gilmar Mendes ao associá-lo ao caso Banco Master. A defesa política do ex-governador segue outra linha: ele afirma estar fazendo críticas públicas sobre relações entre autoridades, políticos e empresários investigados.
Essa diferença será discutida no campo jurídico. No campo eleitoral, a disputa já começou.
Zema não precisa convencer todo o eleitorado de que está certo. Precisa convencer seu público potencial de que está sendo pressionado por falar o que outros não dizem. É assim que uma notificação judicial pode virar ativo de comunicação.
O próprio uso da expressão “intocáveis” ajuda nessa construção. Ela é simples, agressiva e fácil de circular nas redes. Cria um lado de cima e um lado de baixo: os poderosos que não aceitam crítica e o candidato que se apresenta como alguém disposto a enfrentá-los.
Gilmar também vira personagem da pré-campanha
Gilmar Mendes é um alvo de alto rendimento político para a direita. O ministro é conhecido, polêmico, verbalmente combativo e há anos está no centro das críticas de grupos conservadores ao STF.
Ao levar o embate adiante, Gilmar também ajuda a manter Zema no noticiário nacional.
Esse é o efeito colateral do confronto. Cada novo ato processual, declaração ou reação reacende o assunto. Para um pré-candidato que ainda tenta furar a polarização entre Lula e o bolsonarismo, aparecer em disputa direta com um ministro do STF pode render mais visibilidade do que uma agenda econômica convencional.
A pergunta é se essa visibilidade amplia Zema ou apenas o prende ao eleitorado que já rejeita o Supremo.
A narrativa de perseguição pode dar novo gás a Zema, mas não vem sem risco. Ela energiza a base mais ideológica e aproxima o ex-governador do tom usado pelo bolsonarismo nos últimos anos. Ao mesmo tempo, pode dificultar a construção de uma imagem mais moderada, necessária para disputar centro, empresários, mercado e eleitores cansados de conflito institucional.


