Um grande veículo de comunicação de Minas Gerais retirou abruptamente do ar um projeto agressivo de produção de conteúdo em escala. A seção do site, que vinha sendo utilizada há meses para publicar um volume massivo de matérias voltadas a tráfego nacional, foi desativada poucos dias após a conclusão do spam update global implementado pelo Google entre 24 de setembro e 8 de outubro de 2026.
Segundo dados da plataforma Similar Web, o veículo perdeu mais de 90% da sua audiência em comparação com o mês passado, mas a queda já vinha sendo registrada nas últimas atualizações.
O desfecho da operação expõe os riscos inerentes à tática de “inundação de conteúdo” — uma estratégia estruturada em torno de inteligência artificial, manipulação de palavras-chave de alto tráfego e clickbait, que se tornou o alvo central das recentes políticas do motor de buscas.
O projeto e a escalada artificial de audiência
A operação mineira estava focada em capturar cliques pulverizados no buscador e, sobretudo, no Google Discover. Para isso, o veículo distanciou-se drasticamente de sua linha editorial original. Milhares de novas URLs passaram a ser publicadas abordando temas como benefícios sociais (Bolsa Família, PIS/Pasep), concursos públicos, fofocas de celebridades e curiosidades rasas.
A estratégia apostava no “empréstimo de autoridade”. Durante anos, grandes sites adotaram a prática de usar o peso histórico de seus domínios para rankear rapidamente conteúdos sobre assuntos genéricos, inflando os números de audiência. O Google, porém, passou a classificar essa prática como “abuso de reputação do site” (site reputation abuse). O objetivo do buscador é impedir que um portal especializado hospede sessões industriais de material de terceiros ou de baixo valor editorial apenas para surfar na autoridade do domínio principal.
O spam update de setembro e a mira na IA
A retirada do ar do projeto coincidiu com uma fase de cerco do Google a publicações que tratam o conteúdo como uma linha de montagem industrial. O September 2026 spam update foi a quarta intervenção do tipo no ano. Seus algoritmos foram calibrados para reconhecer e penalizar padrões que ferem as diretrizes de qualidade do buscador.
O foco central não é proibir a Inteligência Artificial. Os robôs de redação, como o ChatGPT, podem ser usados por jornalistas para organizar pautas, estruturar dados ou traduzir termos. A infração ocorre naquilo que as políticas da plataforma chamam de “abuso de conteúdo em escala”: a produção desenfreada de páginas sem apuração própria, sem contexto, com baixo esforço editorial e com o objetivo exclusivo de manipular o ranking de pesquisas.
Para piorar o cenário das “fábricas de cliques”, em 1º de outubro, no meio da atualização global, o Google atualizou sua documentação oficial direcionando editores justamente para a proibição de uso de IA na criação massiva de páginas com “pouco ou nenhum valor agregado”.
O risco do Discover e as falsas promessas
Outro pilar da estratégia que desabou foi o uso do Google Discover como atalho para milhões de visitas. A ferramenta de recomendação mobile passou por uma atualização profunda em fevereiro de 2026, projetada especificamente para reduzir a exposição de conteúdos sensacionalistas.
O Google passou a punir severamente chamadas e títulos exagerados (clickbait) que prometem informações não entregues no corpo do texto. Veículos que acumulam violações sistemáticas e reincidentes nesse critério podem ser sumariamente banidos do feed do Discover, perdendo sua principal fonte de acessos.
No ano passado em artigo do Moon BH já alertava para a prática cada vez mais comum nas redações (‘Sabor Notícia’: Portais de MG apostam em IA para inflar audiência com conteúdo aleatório).
O caso do veículo de Minas Gerais evidencia que a fórmula “domínio antigo + inteligência artificial gerando milhares de posts genéricos + títulos hiperbólicos” entrou em colapso. O recado do Google é que multiplicar páginas indefinidamente sem injeção de jornalismo real, pesquisa autoral e especialização não funciona mais como atalho impune para a audiência. Quando a ferramenta detecta a automação de baixa qualidade, centenas de publicações deixam de ser oportunidades de tráfego e transformam-se em uma âncora tóxica que arrasta a reputação do domínio para o fundo das buscas.


